Bem-Estar

“Mal do século”, ansiedade avança entre os jovens brasileiros

Considerada por especialistas o "mal do século", a ansiedade tem afetado diretamente a vida dos jovens. Só no Brasil 9,3% da população tem transtornos de ansiedade

Considerada por especialistas o “mal do século”, a ansiedade tem afetado diretamente a vida dos jovens. Só no Brasil 9,3% da população tem transtornos de ansiedade

Texto: Alexsandra de Souza, Kamila Dias e Suelen Oliveira

Respira fundo. 1,2,3. De novo.

Não é comum sempre se sentir sufocado quando algo importante está para acontecer. Provas, entrevista de emprego, eventos e até mesmo aquela mensagem que diz “precisamos conversar”. Parece que uma onda enorme está vindo e você está preso em algo. Sua respiração fica forte, seus batimentos parecem descontrolados e quando você percebe não está diante de uma onda e sim da véspera de uma prova, de cerimônia importante ou até mesmo daquela entrevista de emprego que você tanto espera e precisa. Além de tudo, provavelmente alguém já deve ter dito que é drama, exagero. Esse sentimento é conhecido como ansiedade e tem sido tratado por especialistas como o “mal do século”.

Mas o que para muitos é apenas um sentimento que logo passa, para outros é algo que consome e afeta toda a rotina de forma negativa. As crises de ansiedade impedem que muitos afazeres sejam feitos. É como se até o ar assustasse. A ansiedade está fazendo da vida de muitas pessoas, em sua maioria jovens, um grande problema. E sem o auxílio de especialistas, o mundo dessas pessoas se torna uma luta diária.

Muitas vezes ela aparece durante a adolescência, porém em alguns casos desde criança a ansiedade já é diagnosticada. Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), o Brasil é o país com maior índice de pessoas com transtorno de ansiedade, atinge 9,3% da população. Pensando nisso, criamos um formulário e colocamos nas redes sociais para entender melhor como as pessoas lidam com a ansiedade. Ao todo 250 pessoas responderam, dessas 239 declararam que têm ansiedade e apenas 76 procuraram um especialista. As idades variaram, mas a maioria tem entre 19 e 25 anos.

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Para entender um pouco mais sobre o assunto, a professora Doutora em Psicologia Giovana D. Stuhler explica melhor o que é a ansiedade. “O medo geralmente se refere a um objeto ou a uma situação muito definida. Temos medo do perigo imediato. Já a ansiedade se caracteriza por uma sensação desagradável de tensão e apreensão, fazendo antecipar um perigo futuro, que pode ou não acontecer”. A ansiedade apresenta sintomas somáticos de tensão, esse sentimento tende a ser ligado ao futuro e a pessoa acaba tendo a sensação de que não se pode prever ou controlar acontecimentos que ainda estão por acontecer.

Para lidar com essa doença, a professora aponta que a primeira coisa é aceitar. “Geralmente queremos nos livrar da ansiedade, mas um pouco de ansiedade é importante, pois nos mantém atentos, alertas”. Porém, se ela produz um sofrimento significativo em diversas áreas da vida, é aconselhável que um profissional seja procurado para tratamento.

Na enquete que criamos, muitas pessoas responderam os mais diferenciados problemas físicos que a ansiedade trouxe para suas vidas. Existe uma relação entre questões emocionais e doenças orgânicas. Você pode desenvolver problemas físicos por conta da ansiedade e também pode intensificar o grau de ansiedade por conta destes problemas. É preciso conhecer o funcionamento do organismo da pessoa e tentar ajudá-la a modificar alguns hábitos, comportamentos que podem sim aumentar o grau de ansiedade.

A ansiedade é considerada como um problema mais sério quando se observa um comprometimento ocupacional da pessoa, impedindo o andamento de suas atividades profissionais, sociais e acadêmicas e quando o grau de sofrimento é considerado pela pessoa como significativo.

84e43fe7-6498-4c26-a5fe-ce4e98ce197d.jpgFoto: Pedro Henrique Homrich

A estudante de medicina veterinária Eduarda Ramires, 21 anos, tem ansiedade desde muito jovem. Para ela, não existe uma situação específica em que se sinta mais ansiosa. Eduarda já frequentou alguns médico e tomou medicação controlada, o que a deixou mais calma. “Quando eu entro em crise parece que eu vou explodir, não consigo pensar ou tomar alguma atitude. Eu fico irritada porém não faço nada”. O namorado a ajuda em momentos em que começa a ter crise. Conta até 10, 20 e assim sucessivamente. Além dos problemas, ela já teve que ouvir que tudo não passava de drama. “Cheguei a acreditar que podia ser drama meu ou algo do tipo, até eu ir no médico e ele me dizer que realmente eu era muito ansiosa e explicar como tudo funcionava”.

Muitas vezes as pessoas que não sabem sobre a ansiedade julgam. Essa forma de tratar de um assunto tão delicado acaba fazendo com que quem foi diagnosticado se sinta desconfortável e comece a duvidar de si mesmo. A professora Giovana acredita que é preciso conscientizar melhor a sociedade. É preciso falar mais sobre ansiedade e saber diferenciar a ansiedade positiva, saudável, de uma que compromete o funcionamento da pessoa em muitas áreas da vida.

O acadêmico de publicidade e propaganda Matheus Groszewica, 20 anos, sente que a ansiedade afeta diretamente no seu cotidiano principalmente quando fica sobrecarregado, em períodos muito conturbados na faculdade. Por não gostar muito de medicamentos, ele prefere tentar se cuidar por conta própria, com exercícios. Quando está ansioso, sente seu coração acelerar, o peito parece apertar e fica ofegante. Para se acalmar, bebe água, respira fundo várias vezes e caminha.

Eduardo Della Giustina, 20 anos, sente a ansiedade aparecer quando surge algo novo no seu dia a dia. “Em qualquer coisa que não esteja na minha rotina, como viajar para algum lugar, reformar algo da casa, compra algo, sair para uma festa”. Quando esses momentos surgem, ele sente vontade de desistir de fazer o que estava planejado, tem insônia e, quando é algo mais forte, fica com bastante enjoo. Para se livrar desse sentimento, Eduardo procura fazer coisas que o façam esquecer um pouco do motivo que está causando a ansiedade.

Quando questionados se a ansiedade atrapalhava seu cotidiano, 113 pessoas responderam que “sim”, 113 responderam que “um pouco” e apenas 24 responderam que não atrapalhava. Em relação aos momentos em que as pessoas mais se sentem ansiosas, uma das respostas chamou a atenção. A vida de um ansioso, no sentido ruim da palavra, é cheia de ansiedades durante o dia. Como uma demanda que é preciso terminar ou, às vezes, só o simples fato de não estar em um momento de total conforto”.

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Para o professor de inglês e estudante de medicina John Reinert Costa, 23 anos, a ansiedade não afeta o cotidiano, mas em certos aspectos e dependendo da situação ela atrapalha. “Em momentos que podem parecer simples para os outros, como uma prova na faculdade ou mesmo uma primeira aula para uma primeira turma, pois fico ansioso quanto a conhecer os novos alunos e como reagem às aulas”.  Fisicamente, a ansiedade não o afeta. No entanto, a SII (Síndrome do Intestino Irritável) é uma consequência que afeta e está diretamente associada à ansiedade e ao nervosismo. Desse modo, ele já teve que procurar um gastroenterologista para tratar a doença. 

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Qual a diferença entre transtorno de pânico e ansiedade generalizada?

A professora doutora Giovana Stuhler explicou um pouco sobre a diferença entre essas duas doenças:

Segundo o DSM 5 (Manual Estatístico de Transtornos Mentais – 5 edição, APA, 2013), no Transtorno de Pânico observa-se a ocorrência de Ataques de Pânico seguida por pelo menos um mês de preocupação persistente acerca de ter outro ataque, preocupação acerca das possíveis implicações ou consequências dos ataques, ou uma alteração comportamental significativa a estes relacionada. Fornecer informações clínicas sobre o problema (influências biológica e psicológica) e esclarecer o papel da ansiedade no dia-a-dia das pessoas, assim como da importância dos medicamentos torna-se importante. Essas informações facilitam a adesão ao tratamento, pois o paciente sente-se compreendido, amparado, podendo assim ter maior confiança na pessoa do terapeuta .

A Ansiedade Generalizada, por sua vez, caracteriza-se por uma preocupação persistente (não realista) que dura pelo menos um mês e não está associada a nenhuma situação ou objeto em particular; a ansiedade é constante (onipresente) e é mais prolongada e menos intensa que um ataque de pânico. A pessoa com TAG (sigla utilizada para Transtorno de Ansiedade Generalizada) apresenta tensão motora, hiperatividade autonômica e permanece numa vigilância extrema.

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