Tecnologia

Devemos nos preocupar com nossa exposição na internet?

Vivemos conectados e por isso temos diversos motivos para nos preocuparmos com privacidade - especialmente com o interesse de empresas e governos em informações pessoais

Vivemos conectados e por isso temos diversos motivos para nos preocuparmos com privacidade – especialmente com o interesse de empresas e governos em informações pessoais

Texto: Rodrigo Rodrigues e Elyson Gums

“Ao acessar esse texto, você se obriga a aceitar todos os termos e condições deste Termo de Uso: 1 – relatórios completos de toda a sua atividade online; 2 – senhas de todas as suas contas; 3 – fornecer imagens da câmera e áudios do microfone do computador em tempo real.”

Parece absurdo, mas certas empresas têm acesso a esses dados de verdade. Sabem, inclusive que este texto foi feito em Itajaí e o modelo de computador usado para escrevê-lo. E sabem tudo isso de quem está lendo também.

Ao usar sites de redes sociais e aplicativos de computador e smartphone, você, eu e todos os outros usuários estamos em uma constante troca com os prestadores de serviço. É uma troca questionável e que dá margem para invasão de privacidade. Uma realidade a qual temos que nos acostumar: empresas e governos têm potencial para saber tudo sobre nós.

Na verdade, o dilema é mais ético do que técnico: devemos confiar nessas empresas? Nossos dados estão seguros nas mãos das corporações? É importante ter em mente que não usamos esses serviços de graça. De certo modo, pagamos por eles com privacidade.

Google, Facebook e outras empresas do ramo coletam dados dos usuários para aprimorar seus algoritmos. Ou seja, melhorar o serviço e dar mais comodidade e segurança ao usuário.

E isso é verdade. O Google Maps, por exemplo, não funcionaria se o aplicativo não tivesse acesso aos dados de localização geográfica do aparelho. O Gmail salva suas senhas para o processo de login automático e integração de contas e assim por diante.

Apesar de tudo isso ser voluntário – quem não quer se expor, que não use o serviço – somos influenciados pelas empresas, conforme explica o professor Fabrício Bortoluzzi, dos cursos de Ciência da Computação e Sistemas para a Internet da Univali, no áudio abaixo:

Na prática, como isso funciona?

Fabrício tem preocupações a esse respeito. “Podemos dizer que, por exemplo, os dados coletados, por exemplo, pela Apple serão usados só por eles. Mas a forma como esses dados são usados é que preocupa”.

Pedimos ao professor que explicasse alguns itens que apareciam na tela de instalação do WhatsApp para entender melhor esse pessimismo. Entre eles:

  • Histórico do dispositivo: Eles sabem quais aplicativos você tem instalado no seu celular.
  • SMS: Eles podem ler suas mensagens de texto. A justificativa é pra enviar os códigos de ativação. “Mas se eu recebo mensagens do meu banco, eles podem saber detalhes sobre as minhas transações”, diz o professor.
  • Contatos: Os algoritmos conseguem, entre outras coisas, traçar redes de relacionamento baseados nos números da agenda. “Se nós dois estamos nas agendas um do outro, vão pressupor que a gente se conhece e é amigo”, explica.
  • Galeria: Coletam informações sobre as fotos salvas no dispositivo. “Usam isso pra permitir a você mandar fotos… Mas precisa ter acesso ao que está salvo?”

A WhatsApp Inc. recebe relatórios com registros de quando e como você usou o aplicativo, além de ter acesso a metadados da utilização. Isso significa que apesar da criptografia que protege as mensagens, os dados não estão 100% protegidos. Por exemplo, eles sabem com quem você conversa e por quanto tempo fala, mas não podem ler as mensagens.

A explicação do professor deixa claro o seguinte: existem critérios técnicos para coletar dados de usuários, mas é complicado dizer que lhes oferecemos apenas o estritamente necessário. E, obviamente, vários outros aplicativos coletam praticamente as mesmas informações.

Para ilustrar esse pensamento, Bortoluzzi cita dois exemplos mais distópicos. A realidade de filmes como 1984, em que “O Grande Irmão está sempre observando”, talvez não esteja tão distantes:

  • Algumas SmartTVs monitoram o som ambiente o tempo inteiro para aprimorar seus algoritmos relacionados ao som;
  • Computadores memorizam as teclas apertadas pelos usuários no teclado para melhorar o algoritmo de reconhecimento de linguagem.
  • Provedores de internet sabem o que você faz na internet e poderiam limitar a velocidade de alguns tipos de serviço, não fosse o Marco Civil da Internet.

“Existe uma troca, mas uma troca questionável, que deixa margem para invasão de privacidade”, pontua. “Pessoas que levam em consideração a privacidade acima de tudo não poderiam usar SmartTVs ou Smartphones e celulares com sistemas operacionais Windows e Apple. Elas revelam demais”.

Entenda como a ação dos provedores de internet pode ser prejudicial, caso não haja legislação adequada no áudio do professor Fabrício Bortoluzzi, logo abaixo:

Informação significa maior valor de mercado

O objetivo principal é lucro. Embora os bancos de dados de empresas como Google e Facebook não sejam comercializados como produtos, eles se convertem em valor para cada companhia, permitindo vantagens mercadológicas em relação aos concorrentes menos informados.

Uma das finalidades é a propaganda. É por isso que você vê comerciais de determinado produto no Facebook logo depois de pesquisar por ele no Google.  Esse tipo de mecanismo é usado diariamente por agências de publicidade.

“Se o público alvo do cliente/negócio for um público ativamente presente online, é possível utilizar os recursos de social ads pra que essas pessoas vejam anúncios em suas redes sociais daquilo que você está divulgando”, fala Leonardo Costa, sobre sua experiência em uma agência de publicidade.

Ferramentas como Google Adwords, Facebook Ads e Twitter for Business tem acesso às informações de sites de buscas e direcionem a publicidade para públicos específicos. Um possível desdobramento disso na era da internet é a capacidade de analisar o comportamento de massa e processar dados de populações inteiras de forma coordenada.

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Algoritmos permitem mais possibilidades de publicidade personalizada (Foto: Photo-Mix/Divulgação)

A coisa se complica quando governos mostram interesse pelos dados de usuários. O site independente WikiLeaks divulgou recentemente documentos comprovando que a CIA espionava usuários comuns através de interferências em aparelhos eletrônicos e redes sociais. No passado eles também já haviam espionado governos de outros países.

A maioria dos Termos de Privacidade atesta que as empresas vão colaborar com o governo caso isso seja solicitado, o que levanta margem para suspeitas. E como esse tipo de tecnologia surgiu há menos de 20 anos, ainda não há legislações definitivas sobre o assunto.

Dicas para se proteger

Isso cria o dilema de “Quem vigia os Vigilantes?”. Não existe delimitação do que é o “uso correto dos dados”, então não há garantias. “Governos que sabem demais sobre o cidadão ficam em situação de vantagem em relação a ele. Podem antever, se preparar, podem usar essa inteligência contra a população… E com as empresas é a mesma coisa”.

As empresas estão começando a se adaptar para criar mecanismos de proteção dos dados. A Apple abriu mão da possibilidade de um funcionário controlar ações do iPhone dos usuários e outras empresas fazem ressalvas específicas sobre a segurança dos dados em seus planos de uso.

A solução mais óbvia é deixar de usar as redes sociais e dispositivos eletrônicos, mas sabemos que isso não é simples. Por isso, Fabrício dá algumas dicas para quem quer se manter razoavelmente mais seguro no ambiente digital:

  • Ligue e desligue manualmente o GPS (ou não use aplicativos com essa função);
  • Acesse o site do Facebook pelo celular ao invés de instalar o aplicativo;
  • Troque Windows ou iOS por sistemas operacionais dedicados à maior privacidade;
  • Configure manualmente controles de privacidade de celular, Windows e Facebook;
  • Conheça e pesquise Termos de Privacidade para formar pensamento crítico.
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Navegadores como o Google Chrome já oferecem algumas opções de criptografia

Quincy Larson, criador da plataforma online de programação FreeCodeCamp, acredita que um pouco de paranoia é importante para se proteger das investidas dos governos e corporações. “Cidadãos de bem e respeitadores da lei tem o direito de se proteger”, argumenta.

Para ele, a criptografia é essencial para garantir um nível pelo menos razoável de segurança. “O seu inbox é o esqueleto da sua vida”, define. Os dois especialistas usam o termo razoável porque é impossível garantir 100% de segurança nesse caso.

As dicas dele são:

  • Use identificação em duas etapas para suas contas;
  • Use senhas diferentes para cada serviço;
  • Troque o WhatsApp/Messenger pelo Signal;
  • Não confie no modo anônimo do seu navegador;
  • Se possível, use o Tor para navegação;
  • Troque o Google pelo DuckDuckGo, sistema de buscas que não rastreia usuários.

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