Comportamento

Se ela ama ela, elas amam ele e ele ama ambas, que mal tem?

O chamado ‘casal de três’ é a prova viva de que quando há amor e consentimento, há grandes chances de dar certo. Conheça o poliamor e suas variações.

O chamado ‘casal de três’ é a prova viva de que quando há amor e consentimento, há grandes chances de dar certo. Conheça o poliamor e suas variações.

Texto: Aline Dall’ Igna, Geraldo Genovez, Pâmela Simas Fogaça

Ana Clara* trabalhou até as 16h na sexta-feira. Para ela o motivo da saída antecipada era plausível, já que apresentaria aos pais quem ela tanto ama. Chegou em casa, jogou sapatos e a bolsa no canto da sala. Soltou o sutiã. Enquanto amarrava os cabelos para ajudar a mãe a preparar o jantar, pensou em cancelar tudo, mas não podia perder a oportunidade. Focou na sobremesa que já estava na geladeira. Ela cortou alguns legumes para a salada, separou os ingredientes do strogonoff e apanhou limões para um suco natural. Deu sua humilde contribuição.

Subiu dois lances de escadas, acariciou o seu gato preto e entrou no quarto. O banho demorou mais do que o normal. A roupa era nova e a fragrância do perfume favorito dava para se notar no andar de baixo. Antes de sair do cômodo, decidiu levantar o porta-retrato da escrivaninha, aquele inúmeras vezes jogado no chão pelos pais. Na foto, ela abraçava duas pessoas em frente ao Museu Oscar Niemeyer. Em meio à arrumação, a campainha soou. Ela desceu. A comida cheirava bem. Era simples, mas especial para quem sentaria a mesa. Cinco lugares. “Eu, mamãe, papai, Fabrício* e Renan*”, disse a garota ao contar os assentos.

Positiva, Ana Clara abriu a porta e recebeu seus convidados. Sem olhar para trás, ela imaginava que os pais já tinham se arrependido em aceitar tamanha loucura. Depois dos cumprimentos, o silêncio pairava na sala. A mãe sugeriu dar início à janta. Todos sentaram, deram as mãos e oraram. “Obrigado, Senhor, pelo alimento que nunca nos faltou. Gratidão pela união de nossa família. Amém”. O silêncio, novamente impregnado, foi quebrado em seguida. “Pai, mãe… esses são os meus namorados”, decretou ela com um sorriso torto.

O jantar não parecia ir longe, afinal, o desconforto era visível. Mas não houve constrangimentos, intrigas ou qualquer desavença. Por dentro, Ana Clara vibrava a conquista de apresentar seus dois namorados aos pais evangélicos e conservadores. Já os namorados, Fabrício e Renan, pensavam em como quebrar o gelo sem parecer forçado. “Faço questão de lavar a louça”, disse um. O outro completou: “Eu seco e a Maria guarda, ela conhece melhor a casa”. Os pais consentiram.

Depois de dois anos de namoro com Fabrício e um ano e meio com Renan, a farmacêutica Ana Clara, de 24 anos, finalmente os levou para casa. Assim como em qualquer primeira vez, a brasiliense assume que ficou ansiosa e bastante apreensiva. “Meus pais são da Assembléia de Deus. Já sabe, né? O poliamor é pecado para eles. Muitas brigas foram necessárias para que aquele momento acontecesse. Eu e os meninos tivemos até dor de barriga pelo nervosismo”, conta entre risadas.

O processo de aceitação dos pais foi lento e exigiu muita paciência ao casal de três.  Eles definem a situação, ocorrida em dezembro de 2016, como o ‘grande passo’. Desde então, as visitas de Fabrício e Renan são frequentes, mas da porta do quarto eles não passam. “Transar? Só na casa deles. Meus pais não os deixam subir [para o quarto]”, comenta Ana Clara. Ela observa que, apesar disso, foi um avanço para o relacionamento. “Nunca imaginei. Sei que meus pais me amam, mas achei que teria que escolher entre aqueles que me botaram no mundo ou aqueles que com quem eu pretendo viver pro resto da vida”.

Os pais pedem sigilo quanto ao namoro poliamoroso e fora do convencional. Além disso, a garota afirma que eles querem sentar para conversar. “Basicamente precisam saber quem come quem. É uma loucura sem explicação para eles. Mas é mais ou menos assim: dá de tudo na cama, literalmente. É difícil explicar quem é o ativo, passivo, etc. Todo mundo faz tudo. Adoro! Mas, em resumo, eu sou hétero e os meninos são bi”, revela Ana Clara. O sexo não é problema para eles.

Hoje, o preconceito já quebrado dentro de casa, ainda acontece fora dela. “Nunca me enquadrei nos padrões impostos pela sociedade. Sou gorda, mudo a cor do cabelo todo mês e tenho dois namorados. Aliás, sou bem feliz, o que é uma consequência de não me importar com que os outros pensam”, avalia. Apesar da autoconfiança e felicidade, os três decidiram procurar por um profissional. Um psicólogo ajudou no processo de esclarecimento e organização da relação.

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Já dizia Drummond

E se João não tivesse ido para os Estados Unidos, Teresa para o convento, Raimundo morrido de desastre, Maria ficado para tia, Joaquim se suicidado e Lili casado com J. Pinto Fernandes? Certamente, o clássico ‘Quadrilha’ de Carlos Drummond de Andrade, hoje teria outro fim para “João amava Teresa que amava Raimundo que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili que não amava ninguém”. Tão forte e intenso, o amor pode romper barreiras ou definições.

De acordo com a psicóloga e sexóloga Dr. Priscila Junqueira, a questão central do tema é o direito à liberdade de sentir o que quiser por quem quiser, desde que haja um acordo de ambas as partes. “A psicologia acredita que cada pessoa tem sua subjetividade e, dentro dessa subjetividade, elas vão se relacionar com quem faz sentido para elas”. Se ele ama ele, eles amam ela e ela ama ambos, qual o problema? O chamado ‘casal de três’ é a prova viva de que quando há amor e consentimento, há grandes chances de dar certo.

A especialista ainda explica que há inúmeras formas de se relacionar, o que vai muito além dos tradicionais relacionamentos monogâmicos: o poliamor, o relacionamento aberto, o swing, a relação livre, entre outras. De forma resumida, segundo ela, não tem nada de errado na prática, o importante é amar. A forma como você e seus parceiros vão fazer isso não importa. Um dado destacado pela sexóloga é que a união estável aos poliamoristas é legal no Brasil há cinco anos. “No Brasil, a primeira união poliafetiva registrada em cartório aconteceu em 2012. O tema tem se popularizado depois disso”.

“No poliamor acontece uma ligação afetiva e sexual com o consentimento das parcerias. Existe uma igualdade de gênero, ou seja, homens e mulheres se relacionam com qualquer pessoa com qualquer orientação sexual. No relacionamento aberto as pessoas estão namorando ou casadas e vão ter relações sexuais com outros parceiros (as), com a permissão do companheiro (a). Neste caso, é para não existir amor pelo outro ou outra, apena sexo. Com o swing, um ou mais casais trocam de parceiros para o ato sexual. Já a relação livre é uma forma consensual de não monogamia como o poliamor, mas com uma crítica contundente às estruturas patriarcais, portanto são firmemente contra o casamento e contra qualquer forma de monogamia” – psicóloga e sexóloga Priscila Junqueira.

Não existem registros históricos oficiais do princípio da prática da poligamia com traços afetivos entre todos os envolvidos. Foi no ano de 1930 que alguns relatos ganharam destaque. Porém, só 60 anos depois que o conceito foi definido no glossário de terminologia relacional, nos Estados Unidos. Em 1997, o livro “Amor sem limites”, de Deborah Anapol, também trouxe o conceito, desta vez, mais amplo.

Para a sexóloga, a procura de conhecimento sobre o assunto é bastante comum. “As pessoas buscam atendimento muitas vezes porque sofreram preconceitos com relação as suas escolhas ou até para conseguir entender o que estão sentindo”, conta. Aos interessados em experimentar novas formas de relacionamento ela dá uma dica: “Primeiro devem refletir o que querem e esperam do poliamor. A partir dessa clareza, conversem com sua parceria e também futuras parcerias”. Já aos que tentaram, mas não gostaram, o segredo é reconhecer o lado bom da experiência. “Tudo tem dois lados. Conversas são bem-vindas para retornar ao que já estava habituado (a)”, conclui.

Entre nós duas… E elas

A joinvillense Maisa Regina Bilenki, de 22 anos, se define como uma pessoa poliamorosa em um relacionamento aberto. Para ela, que namora Nathália, em um relacionamento onde têm liberdade para ficar com outras pessoas, a prática do poliamor é a que mais se encaixa com o seu jeito. “Me agrada saber que eu não pertenço a ninguém e que ninguém pertence a mim. É claro que quando namoramos, principalmente quando vivemos junto com alguém, nós temos que abrir mão de algumas coisas, mas controlar as vontades de terceiros é impossível. O máximo que a gente pode fazer é estar sempre aberto ao diálogo”, destaca.

Maisa conheceu as variações de relacionamentos, sobretudo do amor, quando entrou na faculdade, em 2013. “[A ideia] veio inicialmente de uma menina que me envolvi na faculdade e que hoje é muito amiga. Mas depois foi por interesse meu, é claro, que me afundei em pesquisas na internet e depois busquei conhecer outras pessoas que vivem e pensam parecido comigo”, revela.

Quanto a dar certo ou não, a jovem é enfática e afirma que os tipos relacionamentos não interferem no sucesso deles. “Há pessoas e pessoas. Tem gente que já se predispõe a nem tentar. Outras que tentam, mas têm dificuldade de lidar com a liberdade que têm. Outras que são ótimas em usar a liberdade, mas péssimas em dialogar. Mas como em qualquer relacionamento monogâmico, os não-monogâmicos podem ou não ser um sucesso. E ser um sucesso não quer dizer durar para sempre, talvez o sucesso seja só acabar enquanto é tempo de as pessoas seguirem se gostando”.

Respeitar limites, manter-se seguro

O poliamor, apesar de amplo, versátil e um sonho para muitos, não corresponde ao que todas as pessoas procuram. No caso da jornalista Suellen Venturini, 26 anos, o poliamor, bem-vindo em sua vida há alguns anos, hoje não se enquadra no seu ideal de relacionamento. “Atualmente, essas relações não me atraem de maneira nenhuma. Fujo de pessoas poliamorosas e, se a pessoa quiser isso, eu não participo. Tenho plena certeza que para mim não funciona. A relação monogâmica me deixa mais satisfeita e é o que eu busco hoje em dia, pois me sinto mais segura”, conta.

Segundo a jovem, o leque de possibilidades amorosas era muito maior antes de entender o que era ou não era saudável para o seu psicológico e emocional. “Meus relacionamentos sempre foram bissexuais, com atração pelos dois de forma igual. Já experimentei relacionamentos monogâmicos e relacionamentos abertos, onde eu era livre para ficar com outras pessoas. Hoje eu procuro mais por relacionamentos heterossexuais, por questões minhas e desejos meus”, comenta.

A distância que Suellen procura de relacionamentos poliamorosos é resultado de experiências desgastantes e pouco positivas. “No meu último namoro eu já sabia que a pessoa era poliamorosa e eu me dediquei a esse relacionamento para permitir a liberdade da pessoa. Acabou não dando certo justamente por essa desigualdade de eu não ser e não querer ser poliamorosa naquele momento”, relata. Ela completa: “Nas outras vezes foi na base do consenso. Eu já tinha experimentado sexualmente uma das pessoas e comecei a ficar com a outra. Daí houve o desejo dessas duas pessoas em ficarmos juntos. Conversamos que não haveria problema e foi consentido”, conclui.

Suellen explica que para embarcar no poliamor foi necessário se inteirar sobre o assunto. “Foi curiosidade, uma tentativa de algo diferente e novo. Acredito na dificuldade que o poliamor tem para entrar na vida das pessoas e da sociedade como um todo, pela questão cultural. Ainda não estamos desconstruídos. Então eu primeiramente estudei sobre o poliamor e depois experimentei”, afirma. Para ela, a pessoa que deseja tentar deve se permitir viver o momento e respeitar os seus limites.

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Conheça mais sobre o poliamor

Assim como citado por Maisa, que se identifica com as variações de relacionamento; e por Suellen, que experimentou e concluiu gostar mais da monogamia, pesquisas sobre o assunto podem ser bem-vindas antes de arriscar o poliamor, justamente pelas peculiaridades das relações. Tornar os estudos mais agradáveis e matar a curiosidade de forma atrativa é fácil. Consulte algumas dessas obras e tenha uma base do que é o poliamor:

Título Autor/ Direção
Livros A cama na varanda Regina Navarro Lins
Ame e dê vexame Roberto Freire
Poliamor no século XXI: Amor e intimidade com múltiplos parceiros Deborah Anapol
Poliamor e relações livres Mônica Barbosa
Amor sem barreiras Stephan Wik e Leonie Linssen
Filmes Três formas de amar Andrew Fleming
O sexo dos anjos Xavier Villaverde
Eu, tu, eles Andrucha Waddington
Os três Nando Olival
Castelos de papelão Salvador García Ruiz
Dieta mediterrânea Joaquín Oristrell
Séries Amores livres João Jardim
You Me Her John Scott Sheperd
Músicas Feliz e Ponto Silva
A Maça Raul Seixas/ Paulo Coelho
Nosso estranho amor Caetano Veloso
Poligamia Paula Toller
Já sei namorar Marisa Monte / Carlinhos Brown / Arnaldo Antunes
Dois amores Fátima Guedes
O seu amor Gilberto Gil
A sua Marisa Monte
Samba da Silvia Joyce / Silvia Sangirardi
Poliamor A Flauta Vértebra
Poliamor Barro

* Os nomes foram trocados para preservar a identidade real a pedido dos entrevistados.

As fotos foram produzidas em estúdio e não representam nenhum dos casais descritos na reportagem.

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