Meio Ambiente

Figuras que dão o suor por uma Balneário Camboriú mais limpa

Recortes do cotidiano de pessoas que trabalham intensamente para proporcionar à população de uma cidade ambientes públicos que sejam salubres

Da alegria de trabalhar em conjunto ao sonho de voltar para a faculdade. Vidas que se unem em prol da limpeza da capital do turismo catarinense

Texto: Gustavo Vasconcelos
Fotografia: Gustavo Vasconcelos

Somente na última temporada decorrida entre dezembro e fevereiro, o município de Balneário Camboriú recebeu cerca de 2 milhões de turistas, segundo o setor de Planejamento da Secretaria de Turismo e Desenvolvimento Econômico (Sectur). A pesquisa é feita através de dados fornecidos pela empresa Coneville – Engepasa Ambiental, responsável pelo cálculo dos números de coletas de resíduos domiciliares por meio da permanência média de turistas por sete dias na cidade.

Não há como negar que a qualquer hora do dia que você caminhe pelas ruas da cidade, principalmente na região central, há sempre um estado de conservação da limpeza. Como manter isso num local visitado por pessoas do mundo inteiro durante o ano todo? Temos essa resposta quando saímos da balada de madrugada, por exemplo, quando ao contrário do copo de bebida, há pessoas guiando vassouras nas calçadas da praia.

“A vida não é fácil, nesses últimos anos não tem sido fácil para ninguém que não seja rico, você não acha? Eu acho. Estudei muito para o concurso que garante vaga para trabalhar na limpeza da cidade. Moro em Itajaí e nunca ouvi falar de muitas coisas sobre Balneário que caiu nas provas anteriores a minha. Jamais saberia quando o bondinho começou a circular, eu nunca nem andei nele, mas meu esforço me fez tirar 10 na prova, até hoje não acredito”. Todos os dias, Maria levanta às 4h, pega o ônibus às 4h30min e chega no serviço às 5h. Faz um ano que essa rotina faz parte de seu cotidiano. Incansável, ela busca a disposição no retorno financeiro que o trabalho dá e na convivência com os companheiros de trabalho que incentivam um ao outro de maneira recíproca. “Certo dia, eu e uma colega de trabalho encontramos um despacho, daqueles de macumbaria (sic), ficamos sem reação. Foi a pior coisa que já encontrei limpando, tive que recolher como qualquer outro lixo, mas nunca me esqueço daquilo. Ainda bem que não estava sozinha.”

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Maria Confortnalva dos Santos, 32 anos, limpa a cidade há 1 ano.

Em qualquer ambiente de trabalho, contar com pessoas que contribuem para o desenvolvimento do serviço prestado gera certamente um resultado melhor. Não seria diferente na equipe de limpeza municipal da Emasa, segundo Yego, 19 e Wellington, 21. Amigos desde o primeiro dia do trabalho que começaram juntos, depositam um no outro o privilégio de manter esse tipo de relação no âmbito profissional. “Como a gente pega lixo, as pessoas acham que nós somos burros, ou não temos ensino, mas na verdade burros são eles de pensar assim. Nós gostamos do que fazemos. Além de mim, meu irmão também trabalha aqui e considero o Wellington um outro irmão que fiz aqui. A gente varre, conversa, dá risada e o tempo passa. Tristeza pra gente só por coisas como aconteceu esses dias, onde encontramos um golfinho e um tubarão mortos lá na praia”. Yego usa o dinheiro que recebe para ajudar sua família e pagar seu curso, além de cuidar muito bem de seus cabelos.

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Dupla Yego e Wellington. Trabalham na limpeza há 1 ano e meio.

Atualmente integram o serviço de limpeza do município pessoas que prestaram o concurso da Emasa e também algumas pessoas contratadas por empresas terceirizadas, como é o caso de Albina, 53. Ela mora em Camboriú e trabalha das 24h às 12h, com uma hora de descanso, que, por preferência dela, geralmente acontece às 6h. Sobe na moto de sua filha e vai trabalhar tranquila, já se acostumou com o movimento da madrugada. “Nos primeiros dias eu ficava acuada, com medo de acontecer algo comigo. Meus três filhos também se preocupavam e não gostavam que eu viesse. Como trabalho de madrugada, têm muitas pessoas que estão na rua nesse período que não estão em seu juízo normal. Então a gente não sabe o que esperar delas, né? Mas nunca me aconteceu nada até hoje, agora trabalho mais tranquila. Sabe o que mais me preocupa? É que meu contrato é renovado de mês em mês, então nunca sei até quando vou trabalhar. Comecei pra trabalhar um mês só e já estou há quatro. Eu gostaria muito de continuar até não aguentar mais trabalhar, mas sei que infelizmente é só concurso para ter o emprego garantido hoje em dia”.

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Albina de Souza, 53 anos, trabalha na limpeza há quatro meses.

Sandra veio do Haiti há quatro anos diretamente para Balneário Camboriú. Mãe solteira de quatro filhos pequenos, recebeu esse ano a melhor proposta de emprego desde sua vinda pra cá, quando começou a integrar a equipe de limpeza municipal. Sua demanda que vai da esquina da rua 1001 da Avenida Atlântica até a Praça Tamandaré é seu local favorito de ver o sol nascer. “Trabalho da meia noite ao meio dia. Eu adoro ver o sol nascer aqui na praia. Antes de trabalhar eu mal vinha para esses lados. Eu moro lá no bairro Municípios, é um pouco longe da praia”. O sonho de Sandra é algum dia ter a oportunidade de continuar a faculdade de costura que teve que deixar para trás no Haiti. Hoje ela substitui a agulha pela pá, mas não é menos feliz por isso. “Eu fico varrendo e adoro conversar e mexer com as pessoas que passam, principalmente com as madames que passam de bicicleta pela gente e fingem que nem conhecem, eu sempre grito”, comenta rindo.

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Sandra, 34 anos, trabalha na limpeza há quatro meses.

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