Cidades

A possível ressocialização de presidiários através de apoio espiritual

O Presídio Regional de Itajaí recebeu um projeto diferenciado quem vem sendo executado nos últimos dois meses. A fé passou a ser utilizada no processo de ressocialização dos infratores.

O Presídio Regional de Itajaí recebeu um projeto diferenciado quem vem sendo executado nos últimos dois meses. A fé passou a ser utilizada no processo de ressocialização dos infratores.  

Texto: Dienifer Mânica, Karine Amorim, Thais Lamin, Thayná Barretto.

Dificilmente alguém pensará em presídios, celas ou detentos ao ouvir falar sobre cultos e evangelho. É possível que o cérebro assimile esses assuntos com igrejas, templos e santuários. Mas a fé, segundo as religiões, é um sentimento que tem o poder de chegar a muitos lugares, e como o próprio ditado popular diz, pode “mover montanhas” também. E se ela é mesmo tão potente assim, por que não poderia ser utilizada para tentar mudar vidas e ajudar um criminoso a se a ressocializar através de seu convertimento e, consequentemente, do arrependimento de seu pecado? Foi a partir deste pensamento que uma igreja evangélica de Itajaí implantou um projeto na cidade chamado Evangelização nos Presídios (ENP).

O projeto funciona há mais de 30 anos no país e conta com a ajuda de oito mil voluntários, pastores e bispos da Igreja Universal do Reino de Deus (IURD) de todo o Brasil. Porém, no Vale do Itajaí, o ENP se iniciou há apenas dois meses e possui 12 pessoas interligadas diretamente a ele. Entre elas está o pastor Raine Zanotto, 30 anos, responsável pela iniciativa. Raine conta que além de levar o apoio espiritual por meio da palavra de Deus, os membros da igreja também realizam doações de alimentos, kits de higiene pessoal, roupas, brinquedos, livros, bíblias, entre outros. Pelo menos uma vez por semana os envolvidos no projeto se deslocam até o Presídio Regional de Itajaí, mais conhecido como Presídio do Matadouro, e realizam cultos com os familiares dos presidiários. “Geralmente estas reuniões ocorrem nos domingos e durante uma hora os evangelizadores atendem em torno de 100 pessoas”, acrescenta.

Apesar de pouco tempo em execução na cidade de Itajaí, o projeto já conseguiu a liberação de um espaço dentro do próprio presídio para que estas reuniões aconteçam. O pastor alega que carteirinhas de identificação estão sendo confeccionadas para os membros do ENP e será autorizada a entrada de três pessoas por vez. “Fizemos uma reunião com o diretor do presídio e ele abraçou a ideia e nos concedeu a autorização” acrescenta. Inclusive, outra proposta inusitada faz parte do programa: a cada um culto assistido pelo presidiário equivalerá a um dia de trabalho, portanto, será um dia a menos em sua pena.  Raine explica que essa sugestão também já foi aceita e alega que “toda a documentação já está pronta, só faltam as assinaturas”.

O ENP já existe em outros estados e funciona em 350 penitenciárias ao longo do território brasileiro, sendo também inclusos a Fundação Casa e unidades femininas. De acordo com uma pesquisa realizada pelo IURD, o projeto já beneficiou cerca de 490 mil detentos e se estendeu por mais de 340 mil familiares. Nas datas comemorativas, como por exemplo no Natal, o grupo de evangelizadores também realiza cultos para prestar o auxílio emocional àqueles que se sentem desamparados. Além disso, 17 unidades da IURD já foram construídas dentro de presídios brasileiros e funcionam normalmente. Este número será dobrado, pois ainda há outras unidades em construção. O pastor Raine garante que este é próximo passo a ser dado no presídio de Itajaí. “Pretendemos levar este projeto ao governador, para que um espaço também seja cedido aqui”.

A obreira da igreja Thereza Schlenker, 59 anos, considera o projeto de suma importância. “É um lugar que ninguém quer estar, são pessoas que ninguém acredita, mas nós vamos até eles e nós estamos lá”, alega. Uma das frequentadores da IURD,  a aposentada Anna Lúcia Carvalho, 64 anos, compartilha da mesma opinião, “se for parar pra ver, até mesmo ignorando o lado religioso, é um projeto lindo que tem o intuito de salvar pessoas”, complementa. Já Pedro Elias Alves, 34 anos, é microempresário e não possui uma religião definida e raramente frequenta alguma igreja, porém, acredita que o projeto é interessante para a ressocialização do indivíduo. “Apesar de ser (o país) um Estado Laico, ainda assim é uma proposta interessante que poderá auxiliar um infrator na sua recuperação e na reinserção dentro da sociedade”, debate.

Rogério Ristow, professor de direitos humanos da Universidade do Vale de Itajaí, explica que todo preso é regido em partes por uma lei chamada Lei de Execuções Penais (Lei 7.210/84), e essa lei garante ao preso a assistência religiosa, dentre outros direitos que são assegurados pela Constituição Federal. “Entendo que a religião, ao longo da história da humanidade, sempre teve um papel fundamental na educação e desenvolvimento do caráter do ser humano”, afirma Rogério.

Para o professor, as religiões Cristãs, com suas doutrinas, auxiliam muito no processo de formação do homem e o impulsionam para uma vida de bons costumes e amor ao próximo. “Eu entendo que a assistência religiosa no interior dos presídios é um instrumento valiosíssimo na busca da ressocialização do preso, fazendo-o refletir sobre o mau que causou e, ao mesmo tempo, poder ver que nem tudo está perdido, que uma nova vida é possível e que ele poderá sair da prisão e reconstruir uma vida de honestidade”, complementa.

Em contraponto, Ristow esclarecer que embora a religião seja um instrumento importante na ressocialização, é preciso respeitar o direito que cada um possui para escolher sua religiosa, “não se pode obrigar o preso a se submeter a qualquer prática ou ideal de cunho religioso!”, explana.

Segundo o último estudo realizado e divulgado pelo Ministério da Justiça (MJ), em dezembro de 2014, o Brasil possui a quarta maior população carcerária do mundo, chegando ao total de 622.202 presos.

A relação do católico com os presidiários

A freira Iracema Vargas, 84 anos, atua na Congregação da Divina Providência, em Florianópolis, e constantemente realiza visitas aos presos, mesmo que sozinha e por vontade própria. “É Deus que me ordena ir até lá, eu apenas obedeço” afirma a senhora, que vai a pé pra qualquer lugar. A Irmã Marilde, como é conhecida por todos, carrega sua bíblia debaixo dos braços e passa pelos presídios da região da Ilha. É por trás das grades que os presidiários ouvem o que a pequena senhora tem a dizer. Iracema sempre leva a palavra da bíblia, conselhos e conforto aos pecadores, como são chamados por ela. Inclusive broncas. Dona de uma personalidade forte e cativante, a freira afirma que há coisas que precisam ser ditas, “eles precisam de Jesus no coração e eu não tenho medo de dizer nada na cara deles. Tem que cair na real e mudar de vida, parar de aprontar”.

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