Comportamento

Drag queens lutam por espaço com versatilidade artística

Conhecidas há pelos menos 50 anos no Brasil, as Drag Queens ainda encontram barreiras quanto à aceitação da sociedade.

Conhecidas há pelos menos 50 anos no Brasil, as drags ainda encontram barreiras quanto à aceitação da sociedade.

Texto: Aline Dall’ Igna, Geraldo Genovez, Pâmela Simas Fogaça

A imagem distorcida e preconceituosa desta profissão impede que grandes artistas sejam reconhecidas, levando à falta de emprego e de estímulo cultural na área, consequentemente. Apesar da triste realidade, as drag queens estão dispostas a lutar por espaço, respeito e valorização. As armas escolhidas por elas? Salto alto, roupa chamativa, maquiagem carregada, unhas de dar inveja, peruca especial e, sobretudo, talento.

O termo “drag” remete ao ato de vestir-se parecido com uma mulher. Já a palavra “queen”, traduzida do inglês, significa “rainha”. Portando, as drag queens são artistas, em suma, que representam o poder feminino, com personalidade ímpar e características próprias. Elas podem ser personas criadas por qualquer pessoa, independentemente da identidade de gênero, orientação sexual ou sexo biológico.

Suas apresentações podem ser musicais, como de canto, covers ou DJs; intencionalmente engraçadas, com stand up comedy; educativas, com tutoriais de maquiagem e produção; de recepção, variando entre hostess e presença VIP em eventos; de atuação em teatros, festivais e cinema; e também desenvolvidas nas redes sociais, com de sessões fotográficas e vídeos. Ainda que muitos generalizem e acreditem que o repertório drag se limite ao público LGBT, elas mostram versatilidade e comparecem em confraternizações “voltadas” aos heterossexuais. Se isso não é ser artista, o que é?

Militantes prestam apoio à classe drag queen

O Centro Cultural Greenplace, em Blumenau, abriga a luta das drag queens e oportuniza um espaço para apresentações de saraus e eventos da comunidade LGBT. Simpatizante da causa, Jackeline Oliveira, coordenadora do projeto, reivindica a ampliação do diálogo como forma de expor o tema para outros setores da sociedade. “É necessária a abertura do debate, do entendimento, e a ampliação do olhar da comunidade para essas pessoas e sua luta pelo respeito e direitos iguais”, argumenta.

Jackeline ainda explica que os veículos de comunicação, em geral, não têm dado espaço para essa luta. “A mídia não fortalece”, avalia. Segundo a coordenadora, a população ainda não vê a arte drag e a comunidade LGBT com naturalidade. “É um paradigma imenso a ser quebrado. O processo (de aceitação) vem sendo ‘enfiado goela abaixo’. Ter ciência é diferente de ter consciência”, conclui.

Segundo Max Jaques, psicólogo, cozinheiro e drag queen, a região do Vale do Itajaí ainda resiste em apoiar as drags. “Não tem nenhuma festa dedicada a elas. Ninguém está aproveitando esse nicho de mercado. Tem uma galera querendo se montar, todo mundo quer ser drag queen e ter um lugar para frenquentar”, garante. Ele, natural de Blumenau, desenvolve um trabalho chamado ‘Bloco corpo livre’ e destaca seus princípios. “Ocupar espaços públicos, prioritariamente, pela comunidade LGBTrans. Levar a galera pra rua, independente do horário ou dia”, explica.

Com o seu projeto, Max já organizou blocos de rua no carnaval, rodas de conversa e debates, e também apoiou outros eventos culturais voltados ao público LGBTrans. Ele destaca que qualquer pessoa tem o direito de ocupar espaços públicos. “Eu, por exemplo, me monto e vou andar de bicicleta. Vestida de bailarina, com uma peruca imensa, vou dar um rolezinho”, completa.

Grande admirador da arte drag, Lenilso Silva, membro do Coletivo LGBT Liberdade, de Blumenau, enfatiza o trabalho desses artistas. “É uma das grandes expressões culturais. Trabalha a dimensão do corpo e das relações de gênero, rompe com o conservadorismo e estabelece uma desconstrução da possibilidade de nuances com acessórios, figurinos, maquiagem e gênero”, analisa.

Ele, que também é educador popular, ainda se preocupa com o não entendimento da sociedade acerca da profissão. “Ainda não dão a importância devida para esse movimento, que cresce dia a dia. Muitos ainda as colocam de forma caricata e desconecta de todas as suas possibilidades, ou seja, ‘mememizam’ o fazer drag”, argumenta.

Um apoio que pode vir a calhar às drags é o financiamento com recursos do Fundo Municipal de Cultura de suas respectivas cidades. Em Blumenau, o recém-empossado presidente do Conselho de Cultura, Elton Gomes, chama a atenção para a possibilidade. “Penso que todas as manifestações culturais devem ser valorizadas, apoiadas e difundidas. A arte drag tem ganhado força na sociedade nos últimos tempos e a inscrição de projetos da área através de edital pode ser uma saída”, explica. O presidente do Conselho é categórico: “Terão, de minha parte, todo o apoio”.

Dupla jornada: out of drag

Em Santa Catarina o movimento drag tem muitos adeptos, e o apoio mútuo entre elas vem construindo um futuro mais aberto à diversidade cultural. Porém, enquanto a valorização da profissão não chegar, os artistas precisam garantir seu sustento com uma segunda profissão, conciliando ainda o trabalho de persona. Buscar o seu lugar ao sol é tarefa difícil.

Exemplo disso é a transexual Sandy Mell, de 32 anos, moradora de Balneário Camboriú. Ela menciona a falta de espaço para a arte drag no Estado. “Não vivo do trabalho drag queen. Aqui no Sul, conseguir fechar algo é muito difícil. Para mim, quando surge algo na área, é só um extra. Trabalho como consultora de vendas de cosméticos e moda íntima exclusiva para mulheres trans”, conta. Contudo, Sandy comenta do seu amor por transformar-se. “Me sinto muito bem. Somos admiradas por muitos e isso faz muito bem para nossa autoestima”, afirma.

Para a drag Brooke Davis, de 20 anos, a situação é semelhante. Seu criador, William, que prefere não divulgar o sobrenome, trabalha com marketing em uma empresa de comunicação na região e ainda leva o trabalho drag como um hobby. “Estou começando agora e, por conta da falta de visibilidade, não posso me dedicar somente à arte”, explica o jovem. Ele afirma que deseja passar sua mensagem como drag. “Isso não depende de qual maquiagem você usa, como faz e onde faz. Depende de você, apenas você. Militância, quebra de padrões e luta pelo corpo livre”, conclui.

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Inspiração mútua entre elas

Como em qualquer outra profissão, a inspiração é essencial no mundo artístico. E, provavelmente, ainda mais necessária. A talentosa drag queen Soraya Outback, interpretada por Yan Costa da Silva, de 18 anos, afirma que a inspiração é a principal responsável por seu interesse na arte drag. “Tudo começou em 2010, quando conheci o trabalho das drags Katia Karão e Marluce May. Elas se tornaram grandes referências para mim. Foi daí que decidi aprofundar meu conhecimento”, explica.

Segundo Soraya, a força de vontade torna a arte ainda mais bonita. “Um tempo depois encontrei uma drag em uma das casas noturnas de Florianópolis, trocamos contato e começamos a conversar sobre. Esclareci dúvidas e tudo mais. Depois desse dia eu tomei o gosto pela coisa fui atrás de roupa, salto e maquiagem”, diz ela, que segue a diversidade de ideias, estilos e personalidades de algumas drags. “Admiro o trabalho da Lólly Henderson, Safira Ishtar, Tiffany Bradshaw, Labele Beauty, Rebecca Foxx e Alice Cavazzott, que é minha melhor amiga”, revela.

A drag Alice Cavazzott, uma das inspirações de Soraya, afirma que a admiração é mútua. “Reverencio a força dela, que é uma das minhas maiores inspirações. Também acompanho o trabalho da Tiffany Wonderfull, Lolly Henderson e Kammylla Outback”, explica. Ela, criada por André Santiago, de 23 anos, também se espelha em cantoras renomadas como Adele, Lady Gaga e Beyonce. Alice é natural de Florianópolis.

De acordo com Alice, há aproximadamente dois anos surgiu a ideia de se tornar uma drag. Ela ainda conta que a inspiração em grandes artistas e personalidades fez com que aprendesse como se montar. “Com o passar do tempo fui me aprimorando com técnicas de maquiagens, conceitos corporais e de moda”, conclui.

Produção, trabalho e preconceito

Montada, Megan LaVie cumpriu o seu objetivo. Ela brilhou, deu cor às coisas ao seu redor e demonstrou atitude a cada passo dado nas proximidades do Teatro Carlos Gomes, em Blumenau. Contudo, o cenário se ofuscou com tamanha personalidade. Ela subiu, desceu, deitou, correu. Megan saiu do chão, pulou. Tudo isso, em cima de um Angel Boot, de 15 centímetros; com um corselet apertadíssimo; uma picu loira glamourosa; uma make poderosa; e um look babadeiro. Na noite de 11 de março e madrugada seguinte, a drag queen criada pelo blumenause Gabriel de Souza, de 18 anos, mostrou um pouco da sua arte em uma sessão de fotos pela cidade.

De acordo com Gabriel, ser drag queen é um misto de muitas sensações. “É muito mais um ato político do que ser apenas bonita. O mundo drag é onde você pode exagerar, buscando exteriorizar aquilo preso dentro de você, que está fragilizado e oculto por culpa da sociedade em que vivemos. Mas também não é só militância. É diversão, é sentir-se bem, é olhar no espelho depois de pronta e se sentir a própria Beyoncé. É poder expressar a sua forma favorita de arte”, destaca.

A transformação de Gabriel em Megan acontece em meio a algumas dificuldades.  O jovem afirma que precisou se assumir duas vezes, uma como homossexual e outra como drag queen. “Ter o apoio da família é algo mais difícil do que parece. Eles [família] não veem nenhum problema em eu ser gay, mas como drag…”, conta. Porém, o que vem de fora de casa é o que mais machuca. “Preconceito é algo com que eu lido todos os dias. Nunca sofri agressões físicas, mas as psicológicas são terríveis”, lamenta.

Ele ainda aconselha aqueles que estão dando início a uma persona. “Conheça a si mesmo e desconstrua-se antes de fazer isso com os outros. Se você estiver pleno consigo, vai estar realizado, e isso vai ajudar a ter coragem pra enfrentar o mundo machista, lgbtfóbico e opressor”. Mas, apesar do preconceito, Gabriel garante que a maior dificuldade de uma drag queen é ter o seu trabalho reconhecido. “É complicado ficar horas se montando e se preparando pra expor a sua arte e não ter reconhecimento. Mesmo assim, dou tempo ao tempo e agradeço o que a vida está me proporcionando”, garante.

Atualmente, enquanto busca a visibilidade de Megan LaVie, Gabriel trabalha em uma lavação de automóveis. Ganhar a vida como drag queen ainda não é uma realidade para o jovem. “Todo o dinheiro que ganho eu uso pra investir na minha carreira. Eu gostaria muito de poder ganhar a minha vida fazendo drag. É, literalmente, o meu maior sonho no momento”, relata. Ele reitera que seu esforço é grande. “Lavar carros das 7h às 18h, de segunda a sábado, não é fácil não, viu?… Mas a cada boleto pago, cada produto adquirido, cada passo que eu dou é um sorriso orgulhoso a mais para a minha lista”, conclui.

Há dois anos, Megan LaVie vem ganhando mais vida. Gabriel, mesmo cansado da rotina exaustiva, persiste e se monta para apresentar sua persona. “Eu amo estar em público. No fundo, eu sempre soube que nasci para chamar a atenção”, comenta. Megan já pisou nos palcos do Colméia, evento cultural promovido pelo Teatro Carlos Gomes, e também se apresentou em casas noturnas da região. “Canto, danço, dublo… Estou me aprimorando”, explica. “A arte drag é flexível, adaptável, não tem regras. É libertadora, e nada pode me prender novamente”, se emociona.

Glossário

Angel Boot – Estilo de sapato.

Babadeiro – Expressão usada como adjetivo sinônimo de poderoso, exclusivo, prestigiado.

Corselet – Acessório que diminui centímetros de cintura. Cobre a cintura até a linha abaixo do seio.

Cover – Apresentar imitações de artistas famosos.

DJ – Significa disc jockey. Remete à reprodução e mixagem de músicas.

Drag – Ato de vestir-se como uma mulher.

Hostess – Mulher que recebe socialmente convidados em uma festa ou cerimônia.

LGBT – Remete a Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais e Transgêneros.

Look – Roupa.

Make – Maquiagem.

Montada – Produzida, arrumada.

Out of drag – O criador fora da personagem.

Persona – Figura ou imagem que um indivíduo incorpora e apresenta aos demais.

Picu – Peruca.

Queen – Rainha, em Inglês.

Rolezinho – Passeio.

Stand up comedy – Do inglês, fazer comédia em pé para algum público.

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