Esportes

A hora de abandonar as chuteiras

Após a aposentadoria, o glamour das quatro linhas dá lugar a incertezas; uma nova profissão terá que ser descoberta muitas vezes sem nenhuma preparação técnica e intelectual
Após certa idade, o instrumento de trabalho não tem mais serventia (Foto: Elyson Gums)

Depois da aposentadoria, o glamour das quatro linhas dá lugar a incertezas. Uma nova profissão terá de ser descoberta, muitas vezes sem nenhuma preparação técnica e intelectual.  

Texto: Elyson Gums, Helena Moreira, Kerolaine Rinaldi, Rodrigo Rodrigues

Quando Jairo Lenzi ouviu o último apito, estava caído no gramado. Se chocou com um zagueiro do América (RN) e foi ao chão. Cabeça baixa, fazendo careta e com as mãos no joelho. Um pequeno grupo, formado por camisas alvinegras e rubras, se aproximou. O catarinense foi carregado para fora e não terminou aquele Ceará 3 x 2 América. Naquele momento ele não sabia, mas aquele também seria seu último lance no futebol profissional.

 Ainda faltavam três meses para o fim do contrato e nem sinal de pensar em aposentadoria. Mas para o departamento financeiro, o ponta-direita já não era mais funcionário da empresa Ceará Futebol Clube. Só pagavam a quem jogava. A lembrança de Jairo é de que quem não era relacionado não recebia. Vários jogadores menos importantes no elenco principal trabalhavam por um salário mínimo.

“Falei pra torcida: pô, os caras não querem me pagar… Eles foram lá pressionar. ‘Oh, paga o Lenzi aí!’ ”, lembra. Durante uma manhã de treino, ele não participou das atividades, por estar lesionado e esperou a diretoria. O sol já estava se pondo e os cartolas não davam as caras.

Ouviu uma voz pela grade do CT: “Jairo, os caras tão saindo pela outra porta, corre lá senão eles vão embora!”. Depois de perseguir os diretores do Ceará, Jairo pendurou as chuteiras de vez em 2001. Pegou o avião com a família para Barra Velha, sua cidade natal.

Quando Eládio Cardoso ouviu o último apito, ainda na década de 70, também estava lesionado, mas em situação mais crítica. O goleiro, então no Caxias de Joinville, saltou para dividir uma bola com um atacante do Marcílio Dias. O joelho do marcilista atingiu o dorso de Eládio, que deixou logo o campo de jogo, conduzido ao hospital.

Voltou de lá sem um dos rins, tamanha a força da pancada. E sem contrato. Detalhes separavam o catarinense da Portuguesa (SP). Mas quando encontrou os dirigentes da Lusa… “Os caras me falaram que todos os valores que estavam acertados seriam cortados pela metade. Eu estava com 25 anos, mas me desiludi e não quis mais jogar futebol”, lamenta Eládio.

Estudos viraram necessidade

Enquanto ainda eram atletas, os dois jogadores sentaram em bancos de escola. Depois de aposentados, pararam de atuar diretamente em equipes de futebol e se dedicaram a outras carreiras. De acordo com eles, o pensamento em uma futura profissão é raro entre atletas de futebol.

Nos anos 90, Jairo Lenzi formou-se técnico em contabilidade, em Criciúma. Era um “plano B”, para o caso de a carreira não deslanchar. Não foi o caso: o início de carreira promissor no Marcílio Dias o levou ao Criciúma, onde conquistou a Copa do Brasil sob o comando de Felipão. No Tigre, fez boa participação na Libertadores. Quase foi para a Seleção e rodou por diversos times grandes do Brasil. Os números ficaram para depois.

Eládio jogou futebol quando o esporte não era completamente profissional. Trabalhava em um emprego “de verdade” durante o expediente e treinava no contraturno, assim como a maioria dos colegas, na época.

Transferiu-se para o Caxias porque Joinville tinha a única faculdade de Educação Física do Estado. Continuou trabalhando, jogando futebol e estudando. Guarda do mundo acadêmico um de seus legados. “Tinha um amigo meu no Caxias, o Silvinho, que não queria estudar, falava que era muito velho…”, recorda.

Ele ia de carro com o amigo emburrado ao Colégio Sena Madureira, todos os dias. “Uma vez falei pra ele: ‘ô Silvinho, vamos no cinema?’ Ele respondeu: ‘Eládio, tu sabes que não posso, hoje tenho aula…’. E foi aí que eu parei de levar ele pra estudar. O Silvinho foi de ônibus e se formou, fala disso até hoje”, conta.

Seguindo a carreira de jogador, o arqueiro tornou-se referência do Joinville Esporte Clube, equipe fundada em 1976 após fusão do América e do Caxias de Eládio.

Eládio nunca exerceu a profissão de professor de Educação Física. Foi, por algum tempo, preparador físico e treinador do Clube Náutico Marcílio Dias. Depois, tornou-se cronista esportivo, por convites de rádios e TVs, na década de 80, e até hoje exerce a atividade.

O importante é buscar conhecimento para garantir uma aposentadoria segura, seja no futebol, seja em outras áreas. Mas em sempre o caminho são os bancos das faculdades. Jairo Lenzi, apesar de ter formação em contabilidade, trabalhou plantando arroz depois de voltar a Barra Velha.

César Prates atuou em grandes clubes do Brasil (Foto: Divulgação/Atlético Mineiro)

A nova carreira de César Prates também não passou pelo ensino formal. Ele pluga o cabo na guitarra semiacústica, afina o instrumento e toca alguns acordes antes do culto. Cercado por uma banda composta de baixo, teclado e bateria, começa a tocar a música e a louvar. É acompanhado por um pequeno grupo de pessoas do outro lado do palco e pelos fiéis, que erguem o braço direito e acompanham a música.

Depois, todos se sentam. César tira o microfone do pedestal e começa a “ministrar”, ou seja, inspirar os fiéis, agora sentados e concentrados nas palavras. Logo depois de pendurar as chuteiras, virou pastor e dá aulas de futebol para crianças na Fundação Municipal de Esportes de Balneário Camboriú (FMEBC).

O ex-lateral de Internacional, Corinthians e Sporting (Portugal) vê a religião como uma das responsáveis por prepará-lo para a vida depois do futebol. “Depressão, separação, alcoolismo, drogas e muitas outras situações constrangedoras aparecem por não terem se preparado com uma ocupação do espaço que o futebol e sua glória lhes davam. A decadência do reconhecimento machuca muitos ex-jogadores. Glória Deus estes sintomas não fazem nem fizeram parte do meu estilo de vida pós-jogador de futebol”, declara César.

Recomeçando na meia idade

Muitas vezes, com pouca bagagem intelectual, atletas fracassam nas novas investidas pós-carreira. Não são todos como Ronaldo e Neymar, que possuem empresas consolidadas e lucrativas. Se quem se prepara para migrar para outra área já sofre e o sucesso é pouco provável, quem não se qualifica normalmente dá com os burros na água.

“O jogador de futebol não está psicologicamente preparado para encerrar a carreira. Futebol foi a minha vida por 20 anos. Quando parei, eu sonhava com os estádios”, revela Jairo, em acordo com Eládio e César, que veem poucos jogadores buscando alternativas ao futebol para depois da carreira.

Na última edição da Série A do Campeonato Brasileiro, apenas 14 jogadores alcançaram o nível de educação superior. O número corresponde a 2% dos jogadores inscritos na competição. Apenas cinco deles concluíram seus cursos. O caso mais clássico na história do futebol brasileiro é o Dr. Sócrates, médico e jogador de futebol. Recentemente, Ruy Cabeção virou notícia por ter iniciado o curso de Direito.

Arte por: Helena Moreira e Kerolaine Rinaldi

O senador Romário (PSB), outro que mudou radicalmente de carreira, propôs aposentadoria especial para atletas profissionais. O projeto foi encaminhado ao plenário em janeiro de 2016, mas pode ser prejudicado pela reforma da Previdência.

Atletas profissionais podem se aposentar normalmente pelo INSS, comprovando tempo de serviço e recebendo os benefícios de qualquer cidadão comum. Entretanto, é prática corriqueira entre os times de futebol pagar salários baixos na Carteira de Trabalho e complementar os vencimentos com bonificações, como luvas e direitos de imagem.

Apesar de tudo, são raros os jogadores que têm êxito em empreendimentos além da carreira. Ronaldo e Neymar são exceções no mundo dos empresários bem sucedidos que são ex-jogadores. Zé Elias, ex-volante do Corinthians, foi preso por não pagar pensão. O ex-atacante Müller, que atuou em grandes clubes e na Seleção Brasileira faliu e chegou a morar de favor na casa de ex-atletas, e por aí vai.

Na última partida como profissional, o apito do juiz que termina um jogo é o mesmo que determina o início de uma nova vida.

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