Meio Ambiente

Uma manhã de limpeza no cartão-postal de Balneário Camboriú

O terceiro mutirão de limpeza na Ilha das Cabras reuniu mais de 70 voluntários e recolheu mais de meia tonelada de lixo

O terceiro mutirão de limpeza na Ilha das Cabras reuniu mais de 70 voluntários e recolheu mais de meia tonelada de lixo

Texto: Carolina Santana, Any Costa e Gustavo Vasconcelos                                
Fotos: Any Costa e Carolina Santana

Oito e meia da manhã de um sábado, com previsão de nebulosidade e chuva. Mas o que encontramos quando chegamos à Praia Central, em Balneário Camboriú – mais precisamente em frente ao Posto de Salva Vidas da Rua 1400 –, foi um céu claro e ensolarado. O sol brilhava forte e, mesmo com protetor solar, as queimaduras foram inevitáveis. Cerca de 30 pessoas aguardavam, conosco, as instruções dos organizadores e salva-vidas e os barcos que nos levaria à Ilha das Cabras.

Esperamos um pouco e logo recebemos as instruções do organizador Klaus Kaiser. Ele explicou como iria funcionar a ida até a ilha, que seria feita em barcos com seis a oito pessoas, todas de colete. “Irá demorar torno de uma hora para levarmos todos, mas será tudo com segurança”, garantiu. Ele também pediu cuidado nos costões e com os fios elétricos na ilha, que a deixam iluminada durante o ano todo. Além disso, informou que receberíamos sacos de lixo quando chegarmos lá e assim poderíamos começar a limpeza. Os salva vidas Paulo Bonfim e Thiago Bruno, também passaram algumas instruções e informaram que sempre haveria salva-vidas com a gente, para o caso de alguma emergência.

Após a reunião com todos os voluntários, ficamos esperando, ansiosos, os barcos. Era a primeira vez que a contadora Thais Silveira participaria de um mutirão e esperava que a limpeza fosse promissora. Além disso, era uma boa oportunidade para ela conhecer a ilha. “A gente mora aqui, mas nunca foi até lá”, revela. Para o agente de viagens André Toppel, a importância do evento é a conscientização, além da possibilidade que os próprios cidadãos terão para fazer alguma coisa pela cidade. Aline Leschnitzer é designer e ressalta a importância do evento, por conta de Balneário Camboriú ser uma cidade com muitos turistas e com bastante lixo no chão e na praia. “É interessante para manter a ilha mais tempo funcionando, digamos”, acredita.

Foto editada
Voluntários recebendo instruções de como proceder durante a limpeza. (Foto: Carolina Santana)

Nós também esperamos ansiosos a chegada dos barcos. Alguns voluntários já tinham se deslocado para a ilha a nado ou de stand up. Alguns foram também de jet ski com os salva-vidas. Como nossa equipe estava com o equipamento fotográfico, preferimos não arriscar nos molharmos tanto e preferimos ir de barco. E logo chegou o nosso transporte. Tivemos que entrar no mar e passar a arrebentação para conseguir embarcar. Nossos tênis e roupas ficaram encharcados, porém a câmera permaneceu seca. O barco levou sete pessoas, incluindo o remador. Era um barquinho a remo, que em certo momento foi puxado por um dos jet skis. Para desembarcar, também tivemos de nos molhar um pouco. Por precaução conseguimos uma sacola plástica com uma das moças que estavam com a gente no barco e protegemos a câmera com ela.

A ilha

A ida foi rápida. A distância da faixa de areia da praia até a ilha é de 600 metros, e levamos entre cinco a dez minutos para chegarmos lá. Assim como a contadora Thais, nunca tínhamos visitando o local, e ver a cidade desse novo ângulo foi incrível. Enquanto os outros voluntários chegavam, aproveitamos para fotografar o local e também tirar algumas fotos nossas para depois mostrar para amigos e familiares. Afinal, não é todo dia que se visita a ilha, que é um dos principais cartões-postais de Balneário Camboriú e é tombada como área de preservação.

A ilha não é tão grande. Facilmente se anda por toda a sua extensão. A maior parte dela é coberta por árvores e grama, mas também há muitas partes de pedras. No local onde desembarcamos há uma clareira, onde, naquele dia, alguns turistas acampavam. Décio dos Santos, Ricardo Pauli e Márcio Klock contam que sempre acampam na ilha, por causa da calmaria que ela proporciona. Eles afirma, que sempre recolhem seu lixo, mas dizem que já viram gente jogando lixo e vandalizando a ilha.

A voluntária Elen Taruhm lembrou da época em que havia um passeio de pedalinho até a ilha. De acordo com ela, o cenário era diferente. Por conta das pessoas que andavam por lá, não havia tantas partes verdes. “A gente vinha, passeava, e cada vez eu via que tinha menos vegetação, porque o pessoal pisa e acaba com as mudinhas. E agora temos mais verde. Estou adorando”, compara.

Foto editada(2)
Foram recolhidos mais de meia tonelada de lixo na ação. (Foto: Carolina Santana)

A ilha também serviu de moradia, durante 12 anos, para Marciano Cavalheiro, que faleceu em 2011, e morou lá de 1965 até 1977. O nome da mesma é por causa do senhor Marciano, que criava cabras no local. A casa onde ele morava, que tinha cerca de 40 metros quadrados, foi incendiada em 2014. O Corpo de Bombeiros, que apagou o fogo, acredita que tenha sido ato de vandalismo.

Atualmente, a ilha ainda recebe alguns visitantes. Da mesma forma que nós chegamos até lá, eles vão de barcos que saem da Barra Sul e até, na maioria das vezes, chegam nadando ou remando no stand up, assim como um casal que chegou enquanto limpávamos a ilha.

A limpeza

Na metade da manhã, todos os mais de 70 voluntários já se encontravam na ilha e a limpeza começou. Foram formados grupos de pessoas, que seguiam cada um para um lado. Um grande número se reuniu numa parte de costão, onde havia muitos restos de construção, como pedaços de telhas e porcelanato. Garrafas de plástico, isopores, pedaços de madeiras, roupas e até garrafas de bebida alcoólica foram achados na ilha. Um poste de iluminação que estava caído também foi retirado do local.

Durante o mutirão, os guarda-vidas encontraram outra coisa, que não era lixo. Um dos salva-vidas, que estava cuidado para que nada de ruim acontecesse, trouxe até a ilha uma tartaruga morta. Logo em seguida ele trouxe outra, menor que a primeira. De acordo com ele, há duas causas possíveis para a morte: elas podem ter ficado presas em alguma rede de pescadores e morreram afogadas, ou ingeriram algum lixo achando que era comida. Uma das voluntárias examinou as tartarugas e constatou que haviam morrido há pouco tempo e que estavam com o abdômen inchado, que poderia ser de água ou de lixo, confirmando as teorias do salva-vidas. Segundo os salva-vidas, elas seriam levadas até a areia e encaminhadas para o Projeto Tamar – que atua na preservação das tartarugas-marinhas.

Tartarugas encontradas sem vida próximo a ilha. (Foto: Carolina Santana)

Os voluntários aproveitaram e aprovaram o mutirão. As irmãs Mônica e Simone Paris, que fazem parte do grupo Forasteiros – viajantes que têm como intuito preservar o meio ambiente por onde passa – acharam importante a iniciativa. Giovana Pansera, estudante, achou que ia ter mais lixo no local. “Até agora eu achei um chinelo e isopor, mas está sendo uma experiência bem diferente ver o balneário do olhar da ilha”, comenta. Lucas Gotardo, vereador na cidade e que também estava auxiliando no mutirão, acredita que o importante seja a conscientização. “Precisamos fazer as pessoas entenderem que deixar lixo nesses locais prejudica muito o meio ambiente, e que evitem de fazer essas práticas”, argumenta. De acordo com ele, foi achado bastante lixo, mas em quantidade inferior da que foi encontrada no mutirão anterior. “Esperamos que da próxima vez que nós viermos aqui, não tenha mais lixo”, prevê.

Mais de meia tonelada de lixo foi recolhida e reunida no meio da ilha, próximo ao local onde desembarcamos. Com a ajuda dos voluntários ele foi levado para perto do mar, onde houve o carregamento para o barco. Depois, foi transferido para um barco maior, que transportou todo o lixo até a areia da praia. De acordo com Klaus, um dos organizadores do evento, um caminhão, cedido pela Secretaria de Obras da Prefeitura de Balneário Camboriú, iria levar o lixo para o local de descarte correto.

A nossa volta até a orla da praia foi mais emocionante do que a ida. Às 13h a maré já havia subido e o mar ficou um pouco mais agressivo do que às 10h – horário da nossa ida. O objetivo era usarmos o mesmo barco que nos levou para irmos até um barco maior, que nos deixaria perto da faixa de areia. Mas por causa da agitação do mar não conseguimos trocar de barco, e o barco maior foi nos levando –  que era mais rápido, porém balançava mais. Quando chegamos na arrebentação das ondas, o remador nos informou que naquele instante seriam as ondas que nos levariam até a praia, o que nos encharcou. Mas nosso equipamento ficou intacto – com ajuda de três sacos plásticos protegemos com sucesso nossa Nikon 5100. Apesar da aventura, a experiência valeu a pena.

Foto editada(4)
Mais de 70 voluntários auxiliaram na limpeza da ilha. (Foto: Carolina Santana)
Terceira edição

Esta foi a terceira edição do mutirão de limpeza na Ilha das Cabras. As anteriores aconteceram em 2012 e 2014. Os organizadores Klaus Kaiser e Sidnei Orsi contaram que na primeira edição foram recolhidos mais de uma tonelada de lixo. Na época, ainda havia uma casa e foram recolhidos um fogão, uma cama, um colchão e muitas outros utensílios.

A origem do lixo, de acordo com Sidnei, é por causa de quem frequenta a ilha e não leva o lixo embora ou, por aqueles resíduos que são trazidos pelo mar. O lixo que é jogado na Praia Central também acaba parando na ilha. Para Klaus, as ações serviram para conscientizar, e já houve diminuição no lixo encontrado. “Isso é importante: a conscientização. A melhor coisa que tem é a gente vir até aqui e não ter nada para levar. Só curtir a ilha”, conclui.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s