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Desenho animado: conheça o processo de criação das animações para TV e cinema

Com o mercado em crescimento, Brasil já exporta programação infantil para centenas de países, tanto no formato de séries de animação quanto de longa metragem

Com o mercado em crescimento, Brasil já exporta programação infantil para centenas de países, tanto no formato de séries de animação quanto de longa metragem

Texto: Andressa Magalhães, Bianca Pereira e Daniella Machado

João Gabriel de Sousa, 11 anos, tem como uma de suas diversões favoritas assistir a desenhos animados. Fã do canal Cartoon Network desde os três anos de idade, ele divide as tarefas da escola e os ensaios da Banda Filarmônica de Itajaí (BFI) com a programação do canal. Um dos seus desenhos favoritos é “Apenas Um Show”, que conta histórias engraçadas envolvendo o pássaro Mordecai e o guaxinim Rigb. Ele acredita que o desenho conta histórias de aventura, ação e, às vezes, até romance. “Eu acho legal porque envolve um monte de coisa. O desenho prende a gente na TV”.

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João assiste desenhos todas as tardes (Foto: Reprodução)

Assim como João, diversas crianças e jovens costumam assistir desenhos animados na TV e no cinema. São diversos personagens, cenários criativos, coloridos, monstros, brinquedos que falam, heróis, lições de vida e histórias mirabolantes.  Mas, você sabe como é feito um desenho animado? A equipe da Agência Prefixo levou essa pergunta ao João e ele não demorou muito para dizer a resposta que já estava na ponta da língua: “Primeiro eles desenham, depois é animado pelo computador e no fim é dublado”.

O garoto, que deseja ser designer de games para lidar com esse processo de animação e computadorização no futuro, não estava errado. Segundo o animador Thomaz Martins, o processo para elaboração de um desenho animado é demorado, já que são feitas várias etapas até desenvolver um desenho completo. “A animação é uma ilusão!”, comenta.

Thomaz é formado em Design de Animação pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e sempre foi apaixonado por desenho animado. “Segundo histórias dos meus pais, eu assistia aos filmes e seriados com um olhar diferente, não só por repeti-los infinitas vezes mas por tentar sempre interpretar o que o personagem estava sentindo. ‘Olha, mãe, olha como a Fera tá olhando pra Bela’, eu dizia com o controle remoto na mão e o vídeo pausado até que eu conseguisse analisar toda a expressão desenhada”, ressalta.

Esse não foi o único motivo da escolha da profissão. O morador de Florianópolis esclarece que nunca tinha parado para pensar que era possível ser um animador, um designer de animação. O processo até a escolha do curso levou tempo, envolveu medos e riscos. “Nos anos 90, a produção de animação no Brasil era limitadíssima, a maioria voltada pra publicidade, e só os filmes da Turma da Monica conseguiam chamar a atenção. Sempre achei que trabalhar com animação não era sequer uma opção para mim”, explica. Foi quando a UFSC incluiu em sua grade de cursos, o primeiro curso de animação do estado. “Poucos meses antes de eu prestar vestibular começou a se ouvir sobre a promessa do mercado de animação no país e eu, sem informação nenhuma, me arrisquei a ser parte da primeira turma de animação”.

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E foi aí que tudo começou. Durante seis anos de curso, Thomaz aprendeu todas as práticas e ferramentas para construir os personagens e fazer a animação. “Vi o crescimento e a solidificação desse setor, e tenho orgulho de dizer que faço parte disso”, avalia.

O processo

A criação de um desenho animado envolve vários processos e uma equipe técnica que possui cada um a sua função. E toda elas são de extrema importância para um ótimo resultado final. Primeiro é feita uma reunião até que surja a ideia original. Depois, um roteiro, o desenho de personagens e cenários. “O personagem é desenhado em diversas vistas e ângulos e poses para que o animador que vai animar a cena depois saiba exatamente como ele deve aparecer em cena”, explica Thomaz. Depois são feitas gravação de vozes com atores em estúdio de som, storyboard e animatic (rascunho da cena) e após a aprovação desta etapa, a equipe de animadores começa a animação dos personagens. Aí é feita a pós-produção, ou seja, o uso de efeitos especiais como fumaça, água, fogo, tratamento de cor, mixagem de som com trilha sonora e efeitos sonoros.

Por ser um processo linear, uma etapa depende da outra dentro na produção de uma animação. Por conta disso, é necessário uma equipe unida que entenda todo o processo e consiga trabalhar com prazos. Cada produção tem seu próprio cronograma e nível de exigência. Na etapa de animação, a meta é que cada animador entregue por dia 6 segundos de cena. “Parece uma quantidade baixa, mas muitas vezes essa meta não consegue ser alcançada devido à intenção da cena ou à quantidade de personagens presentes”, comenta Thomaz.

Tudo acontece em sequência. Enquanto os animadores animam o episódio 1, o diretor de arte está preparando o material para o episódio 2 e o roteirista já está escrevendo o episódio 3.”Pensando no processo inteiro, desde a concepção da ideia até a entrega do primeiro episódio completo, pode-se levar mais de ano. Mais tarde, quando ‘o trem já esta nos trilhos’, muitos problemas estão resolvidos e parte do material pode ser reaproveitada. Então, da escrita do roteiro até a entrega do episódio completo, o tempo de produção deve variar entre três a cinco meses. (Isso para séries com episódios de 11 minutos)”, explica Thomaz.

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Os desenhos animados, tanto em longa-metragem (filmes) quanto as séries de animação (TV), fazem um truque de mostrar em sequência algumas dezenas de desenhos estáticos por segundo. Na realidade, não existe movimento no papel e nem na tela. É um truque que os animadores utilizam para mostrar em sequência algumas dezenas de desenhos estáticos por segundo. Esses desenhos variam de acordo com a plataforma de exibição, mas um longa-metragem, por exemplo, tem em média 24 desenhos para cada segundo de vídeo.

Um desenho animado pode ser feito em diversas técnicas. Alguns designers fazem o desenho em papel, outros utilizam a computação gráfica, captura de movimentos de atores reais, bonecos fotografados e outras variações. A técnica com a qual Thomaz trabalha atualmente é o 2D digital, também chamado de Cut-out. “Essa é a técnica mais utilizada para produções seriadas quando o tempo de trabalho precisa ser otimizado pra alcançar a grande escala de episódios”, explica.

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Para produções infantis, é necessário levar em conta a preocupação pedagógica em cima do roteiro. “Uma vez que a criança que assiste ao filme exibido ainda está em processo de construção moral e ideológica, é muito grande a responsabilidade de mostrar na animação o que é certo e o que é errado. Acontece de cenas serem cortadas devido a intenção da mesma parecer agressiva demais ou por existir ali espaço para uma má interpretação pela criança”, afirma.

Para dar vida a ilustração que estava estática, é preciso meses de planejamento, roteiro, desenhos de concept de personagem e cenário. O mais trabalhoso, segundo Thomaz, são os movimentos dados aos personagens nos primeiros testes de animação. É a partir dali que o trabalho vai criando forma. Para chegar a esse ponto, muito estudo precisa ser feito junto com criador e roteirista visando responder questões que são essenciais para passar o comportamento esperado em tela. “Como ela deve se mexer? Como será que ela pula? O caminhar dela é rápido ou mais contido? Como demostrar em cena que ela é curiosa?”. Por conta desses detalhes que vão além da descrição do roteiro, leva-se um tempo até que o animador “conheça” a personagem e consiga movimentá-la de acordo com a identidade proposta. “É importante fazer uma história com personagens carismáticos tendo em vista que, pelo menos no Brasil, a maior parte do lucro do setor vem da venda de produtos licenciados! Ninguém vai comprar uma lancheira com o seu personagem estampado se ele não for querido”, explica.

Veja como dar vida ao personagem:

“Mesmo que se tenha um público alvo em mente na hora de criar o projeto, é importante criar uma história que seja universal e não regional, que possa ser interessante para os mais variados grupos de espectadores e que apresente uma diversidade de personagens que permita identificação de quem está assistindo” – Thomaz Martins 

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