Opinião

Convivendo com o racismo

Em uma sociedade dissimulada, admitir que a discriminação existe é fundamental para ampliar o debate sobre questões raciais.

Em uma sociedade dissimulada, admitir que a discriminação existe é fundamental para ampliar o debate sobre questões raciais

Texto: Miriany Pimentel

“Ele está com você?”, nunca pensei que essa uma frase me indignaria tanto. Numa tarde ensolarada de domingo, saí com um amigo para passear no Parque da Atalaia, em Itajaí. Tudo corria muito bem, até o momento que percebi olhares “diferentes” vindo em nossa direção.  A pessoa de riso fácil, ao meu lado, chegou na cidade há pouco mais de dois anos, seu país de origem é o Haiti.

Meu amigo não conhecia o parque e ficou encantado com a beleza natural do lugar, o canto dos pássaros e o verde da mata.  Mas eu, frequentadora assídua do lugar, percebi algo que não havia notado antes, a hostilidade. Nesse dia, senti na pele o preconceito impregnado na sociedade. Bem, ser questionada a respeito de quem estava comigo não foi nada em comparação à expressão que surgiu no rosto da pessoa quando respondi:

– Sim, ele está me acompanhando.

Uma expressão de desprezo e repúdio que eu nunca vou esquecer. A atitude dessa pessoa me fez refletir sobre o tratamento que damos às pessoas de raças e etnias diferentes da nossa.

Em um país em que 109,8 milhões de pessoas se declaram negras, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), ou seja, 53,6% da população, situações como a citada acima parecem não fazer sentido. Mas, ao conversar com pessoas afrodescendentes, de outros países e até mesmo de outros estados, constatamos que a discriminação e o racismo nos rodeiam diariamente.

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Nem a Princesa Isabel e a Lei Áurea em 1888, nem a Lei nº 7.716/1989  chamada de Injúria Racial; nem em 2003, quando o aniversário da morte de Zumbi dos Palmares virou feriado; nem mesmo o Estatuto da Igualdade Racial, em 2010, acabaram com o racismo.

“No comércio já entrei em lojas e não fui atendida pelo vendedor”. O desabafo é de Mayara da Cruz Gomes Xavier (28), descendente de angolanos. O tratamento diferenciado sentido por Mayara não é apenas no comércio. Com formação em Relações Internacionais, ela sofreu na época que estudava. “A universidade é bem segregacionista, muitas pessoas me ignoravam. Senti que esse tratamento começou a mudar um pouco quando comprei um notebook ‘Sony Vaio’, na época top de linha”.

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“O Racismo está tão enraizado na nossa cultura que quando a gente vê já aconteceu”, Mayara Xavier – Foto: Arquivo Pessoal

Após 128 anos do fim do período escravocrata no país, muitos negros ainda sofrem com racismo, preconceito e demais formas de discriminação referentes à cor da pele. Para tanto, colocar o tema em rodas de debate é fundamental para conhecermos essa realidade, que para muitos parece distante. A segunda aplicação das provas do Enem, realizada em dezembro, trouxe o tema para discussão. O tema de redação “Caminhos para combater o racismo no Brasil” é sinal que as autoridades estão assumindo que há de fato a pratica do racismo pela sociedade.

O antropólogo e professor Kabengele Munanga em seu livro O negro do Brasil de hoje faz referência à pratica do racismo e suas características. Para o autor, o brasileiro não se considera racista ou preconceituoso. Segundo ele, a sociedade precisa entender a realidade mista do Brasil e não se espelhar em outros países. “Se colocarmos as questões: ‘quem somos, de onde viemos e por onde vamos’, vamos ver que o Brasil nasceu do encontro das culturas, das civilizações, dos povos indígenas, africanos que foram deportados e dos próprios imigrantes europeus de várias origens”, conclui o antropólogo.

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Por uma sociedade em que genótipos, fenótipos e esterótipos não tenham importância.   Foto: Miriany Pimentel

“Por quê? Se somos todos iguais e vamos para o mesmo lugar”. Bredson Augustin (25) não cansa de repetir a frase ao falar sobre racismo. Para o haitiano, a barreira na comunicação não é nada perto da discriminação e preconceito que sofre diariamente. Na rua, na escola, no trabalho, o racismo é sentido por ele em muitos lugares, as ações vêm dos próprios colegas. “No trabalho não posso parar para descansar que já dizem para o patrão que eu não trabalho, que sou preguiço porque sou haitiano”.

A maneira de falar e estado de origem também são causas de intolerância apontados por Natália Faustino (16). Piadinhas na sala de aula sobre o sotaque e o cabelo deixaram a baiana triste com as ofensas. “Eles riem do meu jeito de falar e um menino me chamou de cabelo de bruxa”.

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“Colegas de classe não cansam de ser preconceituosos”, Natália Faustino – Foto: Arquivo Pessoal

Racismo é crime, se essa nomenclatura não inibe as práticas de intolerância nos espaços públicos, tampouco na internet. O anonimato dos meios digitais facilita ainda mais essa ação. Recentemente, algumas pessoas conhecidas da população, como a jornalista Maria Júlia Coutinho, as cantoras Preta Gil e Ludimilla foram alvos de racismo na web.

Para especialistas, o racismo pode ser resolvido através da educação, mas alertam que essa evolução é lenta. “É um processo longo. Vai demorar. E a solução tem de passar pela educação e pela inclusão social, afinal, agora as condições de partida não são idênticas para brancos e negros”, afirma a antropóloga Lilia Moritz Schwarcz, autora de vários livros sobre o tema.

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