Esportes

Casas de poker quebram preconceitos e movimentam milhões

No Brasil, o poker é completamente legal e reconhecido pelo Ministério do Esporte desde 2012. O mercado do poker movimenta milhões em dinheiro. Só em salário para profissionais de jogos de habilidade são pagos mais de R$ 1,2 bilhão.

No Brasil, o poker é completamente legal e reconhecido pelo Ministério do Esporte desde 2012. O mercado do poker movimenta milhões em dinheiro. Só em salário para profissionais de jogos de habilidade são pagos mais de R$ 1,2 bilhão

Texto: Adrielle Demarchi, Ana Carolina Nasato e Natália Rocha

A preparação para uma competição é a mesma. Nessas horas, preparadores físicos e psicológicos nunca são dispensáveis, afinal, são cerca de 10 horas sentado jogando. A mente vai e volta diversas vezes. Pensa. Repensa. Concentra-se. Verifica as cartas. Encara o adversário. Blefa. Tudo para não perder o prêmio em dinheiro que, geralmente, está na casa dos cinco dígitos. Sim, estamos falando de poker.

O poker vem ganhando cada vez mais adeptos nos últimos anos, mas ainda são muitos os preconceitos a quebrar. O jogo ainda é confundido com jogos de azar, principalmente por ser encontrado em muitos cassinos, junto com máquinas caça níqueis e outros jogos ilegais. Hoje em dia, as apostas durante as partidas são proibidas. O jogador vencedor ganha apenas o dinheiro arrecadado com a inscrição para os torneios.

Segundo o funcionário Rodrigo Bozzano, são muitas as pessoas que vão até a Associação Blumenauense de Carteado (ABLUC), a mais antiga de Blumenau, imaginando um local escuro, com fumaça de charutos e ilegal, mas quando conhecem melhor a associação percebem que é um lugar calmo, com bar, sofás para assistir televisão, xadrez para passar o tempo e, claro, as mesas de poker. “Muitas pessoas visitam o lugar durante uma semana, apenas assistindo aos jogos ou à televisão, para depois passarem a jogar”, conta Rodrigo.

O artigo 50 da lei das contravenções penais (Lei n° 3.688) diz que é considerado jogo de azar “o jogo em que o ganho e a perda dependem exclusiva ou principalmente da sorte”. Estudos já comprovam que o poker depende apenas 12% da sorte. A maioria do jogo se constitui de estratégia e habilidade. É preciso conhecer as regras, saber ler os adversários, saber blefar e ter uma estratégia de jogo para cada mão nova (quando o jogador recebe novas cartas). No Brasil, os jogos de azar são os das loterias, mega sena, bingo, roleta, baccarat, black jack e craps. O poker se enquadra nos jogos de habilidades, junto com o xadrez, damas, go e bridge. Hoje existem 92 milhões de praticantes nos jogos de xadrez, poker, damas, sinuca e bilhar, go/dominó e e-games, ou seja, quase metade dos brasileiros praticam alguma espécie de jogo de habilidade frequentemente. E esse número só cresce, fazendo do país um dos maiores mercados do mundo quando o assunto é poker.

Por semana, a ABLUC recebe de cinco a dez pessoas novas. Hoje são 820 associados, o que demonstra o crescimento do esporte na região. O que ajuda a quebrar um pouco do preconceito contra o jogo são os artistas. Muitos participam de torneios ou batem foto jogando com os amigos. O último torneio catarinense contou com a participação do ex-tenista Guga Kuerten, o que ajudou a trazer uma maior publicidade e desmistificação do lado negativo do esporte.

Para Rodrigo, uma das maiores novidades são as mulheres. Antes o esporte era considerado majoritariamente masculino, e ficava difícil encontrar mulheres participantes. Hoje, o número de mulheres cresceu na associação e nos torneios. Na Casa Vip Poker, em Balneário Camboriú, para atrair as mulheres aos jogos foi criado um campeonato só para elas. Além disso, as que forem acompanhar os maridos nas partidas na casa não pagam para jogar. Apesar de existir um campeonato exclusivo para as mulheres, esse é um dos poucos esportes em que elas podem jogar de igual para igual com os homens, pois não depende de força física, só intelectual.

Para quem quer jogar, mas ainda não se sente confortável indo em clubes, existem os torneios online. Augusto Jahnz joga no PokerStar, considerado o maior aplicativo de poker do mundo. Com apostas inicias, chamadas de buy in, entre 27 cents e 1.050 dólares, Augusto ainda se aventura com no máximo 10 dólares. Ele começou no esporte em 2011 com apostas fictícias, mas em 2015 resolveu começar a jogar em dólar. Com o tempo e conversando com amigos, descobriu uma casa de poker particular em Presidente Getúlio, que possui torneio todas as quintas-feiras. “O ambiente é muito bom e o nível dos jogadores também. Você paga sua inscrição, uns 30 reais, e ganha 10 mil em fichas e a premiação vai para os três primeiros. Todo o dinheiro arrecadado da inscrição volta para os vencedores, a casa de poker não ganha nada, no caso”.

Para ele, o poker ainda não é visto como um esporte pelas pessoas. Entre os praticantes já existe essa visão, pois eles se envolvem no jogo e percebem que é realmente um esporte da mente por lidar com estratégias, mas quem não joga ou nunca jogou ainda tem preconceito.

Cristian Leite pensa diferente. Jogou poker durante um ano no Ajax Poker Sports, em Blumenau, e não considera o jogo um esporte. Como ex- atleta de badminton, acredita que “esporte é o que envolve um esforço físico, a concepção mais tradicional do esporte”. Hoje não joga mais. Mesmo se não envolver dinheiro, para ele é viciante, então, como sabe que se voltar a jogar vai voltar também a apostar, passa longe das cartas. Um dos fatores que contribuiu para Cristian ter parado de jogar foi ter virado Testemunha de Jeová e ver que a Bíblia condena competição. Ele continua praticando esportes, mas não profissionalmente ou envolvendo dinheiro, pois considera errado por causa da religião.

Em Balneário Camboriú, segundo o sócio proprietário da Vip Poker Josias Matheus Hoepers, cerca de R$ 2 milhões circulam nas mesas de poker por mês. Josias conheceu o poker com 11 anos, quando o jogo ainda era apenas para pessoas selecionadas. Na época, apenas idosos costumavam jogar. Com a popularidade do Texas Hold’em, um dos estilos mais conhecidos de poker hoje em dia, pessoas mais jovens foram atraídas aos torneios. Devido à experiência, Josias percebe que atualmente o poker está mais democrático e as casas conseguem trabalhar de portas abertas, com um público maior, atingindo a classe média e alta.

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A Vip Poker abriu neste ano. (Foto: Ana Carolina Nasato)

Apesar de tudo na casa ser legalizado, Josias já teve de ir algumas vezes à delegacia para esclarecimentos, pois pessoas de fora denunciavam pensando haver algo ilegal. Para evitar tais pensamentos, na Vip Poker os jogadores evitam falar palavrões e se xingarem. Hoje em dia, o preconceito contra as casas de poker é quebrado quando o visitante coloca os pés para dentro do local.

(Infográfico interativo. Passe o mouse.)

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