Meio Ambiente

Restinga, uma inconveniência necessária

Apesar do caos causado pela ressaca na praia do Gravatá, nem todas as áreas de Navegantes sofreram danos milionários. A que se deve isso?

Texto: Daniel Schiavoni, Maria Zucco e Thomas Falconi

Dia de sol em Navegantes. Guarda-sóis, isopores, brinquedos e toalhas começam a preencher a faixa de areia logo de manhã cedo. Chegam as famílias com as crianças no colo, todos de chinelos e atentos ao chão. “Esse mato machuca demais, não sei pra quê isso ainda”. A vegetação castiga os descalços e rala as canelas dos banhistas, que aos poucos vão aprendendo a importância daquela “inconveniência”.

No final do último outubro a prefeitura se viu obrigada a declarar estado de emergência após uma ressaca que atingiu grande parte das cidades litorâneas da região. As construções que beiravam a Praia do Gravatá foram carregadas pelo mar e invadiram a Avenida Beira Mar, cancha de bocha, academia popular, parquinho e deck. Tudo foi destruído pela força das águas. No entanto, o bairro Meia-Praia, a poucos quilômetros dali, não viu nem de perto tamanho desastre. Teria tido o mar misericórdia pela região?

O setor público mantém um projeto de recuperação da orla de Navegantes no bairro, uma Área de Preservação Permanente conserva a vegetação culpada pelos pequenos empecilhos aos banhistas, ou restinga. De acordo com a oceanógrafa Débora Ortiz Lugli Bernardes, do Laboratório de Estudos de Ecossistemas Costeiros da Univali, essas plantas são responsáveis por fixar o sedimento das dunas e sua retirada faz com que a areia das praias fique mais suscetível a deslocamentos pelo vento ou até pelas águas.

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Ela conta que o projeto colocado em prática na cidade de Navegantes foi elaborado com base nas metodologias propostas por pesquisadores renomados na área de recuperação de praias e dunas. No caso, o poder público mesclou as necessidades de preservação com a demanda causada pelo grande movimento atraído pela praia. A opção foi por decks que têm um impacto mais ameno na vegetação.

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A oceanógrafa afirma que o problema da praia do Gravatá é a série de construções irregulares que foram executadas na região. As casas, prédios e vias foram construídas em cima do sistema de dunas, ao invés de serem colocados atrás dele, o que preservaria a barreira natural. Complementa que a praia não entra no projeto de preservação devido aos altos custos e a dimensão das ações necessárias.

“Enquanto a população não compreender a importância dos ecossistemas costeiros, e efetivamente ordenar e fiscalizar os diversos usos neste espaço, a situação observada atualmente em todas as praias não mudará. Quem tem que mudar o comportamento é o ser humano, somente assim ele terá condições de cobrar do poder público a efetiva aplicação das ferramentas disponíveis para o desenvolvimento de políticas que considerem a manutenção dos ambientes naturais durante o processo de desenvolvimento econômico e social do municípios litorâneos”.

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