Comportamento

Como funciona um IML? A realidade do instituto em Balneário Camboriú

Entenda como é feito o procedimento da necrópsia e quais as principais causas de morte na região

Texto: Nicolle Machado, Beatriz Ferreira e Pedro Henrique Homrich

Um chamado da polícia faz com que os dois auxiliares do Instituto Médico Legal, em Balneário Camboriú, se desloquem até Barra Velha para buscar um cadáver. Minutos depois, do outro lado do instituto, na Marginal oeste, passava um guincho levando um carro batido com placas de Barra Velha.

Esse tipo de caso é um dos mais comuns de se ver no IML. Em média, são seis casos de atropelamento todo o mês que resultam em morte. O médico legista, Sebastião Westphal, afirma que a maioria dos atropelamentos envolvem andarilhos, o que dificulta na identificação.

O primeiro procedimento quando o corpo chega no instituto é a identificação. “Se não houver documentação, nós pegamos as impressões digitais e fazemos uma pesquisa na base nacional. A partir daí entramos em contato com algum familiar para fazer o reconhecimento” explica Westphal. O reconhecimento do corpo pode ser feito pela família, caso o corpo esteja em boas condições. Para os cadáveres que já se encontram em estado de putrefação, o reconhecimento é feito a partir das vestes e até mesmo exames de DNA para comprovar o parentesco.

O prazo máximo para os corpos permanecerem em uma das quatro gavetas da sala de necropsia é de 30 dias. Se dentro desse prazo não houver identificação, o corpo é doado para universidades fazerem estudos ou enterrado como indigente. Porém, mesmo depois, em alguns casos é possível fazer a identificação.

O médico legista lembra de um caso curioso que aconteceu. “Em 2014 houve um atropelamento e chegou um cadáver aqui sem identificação. Fizemos o procedimento e não conseguimos identificá-lo dentro de 30 dias e o homem foi enterrado como indigente. Aí, em outubro deste ano, a mãe desse homem, que é do estado do Paraná, veio procurá-lo porque estava desaparecido. Foi feito o reconhecimento através das fotos que tiramos e também das vestes e constatado que era, de fato, o filho dela”.

Há 27 anos nessa área, o especialista afirma que ainda é possível se comover. “Quando é com criança, principalmente, não tem como não se comover. Há muitos casos que são complicados”. Um dos casos marcantes que o especialista presenciou foi em 1997. “Eu lembro que esse caso mobilizou a cidade inteira, foi o de um avião particular, de importantes empresário de São Paulo, que caiu na Barra do Rio porque não conseguiu pousar no aeroporto. Se não me engano, eram três pessoas mais o piloto. Foi quase um mês de busca, uma grande estrutura para o resgate e quando encontraram os corpos já estavam em estado de decomposição, claro, não tanto quanto se estivessem na superfície”.

Só neste ano foram analisados 288 cadáveres no IML de Balneário Camboriú e 135 cadáveres no de Itajaí. Há cerca de dois anos a sala de necropsia do Instituto Médico Legal de Itajaí está desativada e foi transferida para a de Balneário Camboriú, que abriga, portanto, os cadáveres das duas cidades e regiões próximas.

Em 2015, dos 233 cadáveres analisados, apenas 20 foram considerados sem identificação. De acordo com o gráfico abaixo, é possível ver o grande número de mortes por arma de fogo (por acidente 15 e por homicídio 51) que ocorreram no último ano. “Homicídios por arma de fogo têm muita relação com tráfico de drogas aqui da nossa região”, analisa o médico legista.

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Estrutura e procedimento

A sala de necropsia possui uma maca principal e outra auxiliar, quatro gavetas mantidas a -6°C para comportar os cadáveres, além de diversos utensílios, que ficam expostos, para examinar o corpo como: tesouras cirúrgicas, pinças, martelo para cirurgia óssea, afastadores e até mesmo uma concha de cozinha. “A concha nós utilizamos para retirar o sangue. Por exemplo, quando houve um tiro no tórax, precisamos desse utensílio para retirar o excesso de sangue que fica nessa região”. Outros instrumentos como serras ficam guardados para casos em que é preciso serrar o osso.

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Foto: Nicolle Machado

“Nós só examinamos o corpo se houver uma guia de solicitação de necropsia emitida pela delegacia”. Com a emissão dessa guia, o médico e os auxiliares procuram sinais que podem ter levado a vítima à morte, como marcas de tiro, lesões em alguma região específica. Além disso, tatuagens e cicatrizes que o paciente tiver também são anotadas para ajudar na identificação.

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Foto: Nicolle Machado

O exame passa depois para o órgão atingido, que é retirado para uma análise mais precisa. Após examinar, os órgãos são colocados novamente no corpo para ser fechado.Com a identificação do corpo e o relatório que indica a causa da morte, a família pode emitir a certidão de óbito.

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