Comportamento

Como é o convívio dos homossexuais com as agressões psicológicas e físicas

Ameaças verbais e agressões físicas por pessoas preconceituosas estão constantemente na rotina dos homossexuais

Ameaças verbais e agressões físicas por pessoas preconceituosas estão constantemente na rotina dos homossexuais 

Texto: Andressa Magalhães, Bianca Pereira e Daniella Machado

Século XXI… nada de novo. Para não dizer que nada mudou, é possível notar que muitas pessoas vêm chamando de opinião alguns discursos de ódio. “Ah, é tudo mimimi” e dessa forma percebemos como o preconceito está enraizado em nossas culturas.

Homofobia é composta por dois termos distintos: “homo”, o prefixo de homossexual; e o grego “phobos”, que significa “medo”, “aversão” ou “fobia”. Em que momento da sociedade foi estabelecido que uma forma de afeto seria punida se houvesse demonstração? Existem pessoas que “justificam” tal ato usando a frase “na minha época não tinha isso”. Sim, existia. A diferença é que antigamente as pessoas não tinham tanta abertura para simplesmente serem elas.

Nos dias atuais é possível notar que as pessoas se sentem mais à vontade para expor o que sentem, mas ainda existem muitos empecilhos. Só que da mesma forma que homossexuais se sentem mais livres, existe uma parte da população que ainda não aceita e acha que a melhor forma de agir é a violência.

15208023_1175437142538482_1195934695_n
Foto: Andressa Magalhães

Recentemente o jornalista Rodrigo Oliveira, 27 anos, se deparou com uma situação de extrema ignorância e ódio quando um vizinho partiu com violência sobre ele. “Eu estava em frente a minha casa acompanhado de outro menino que havia conhecido e mais dois casais de amigos. Conversávamos sobre coisas banais e vez ou outra trocávamos beijos como qualquer jovem. Em meio ao nosso diálogo, ouvi um barulho no portão. Ao olhar para ver o que era fui surpreendido pelo meu vizinho armado de um pedaço de corrente na mão e dizendo que iria acabar com a pouca vergonha na porta da casa dele. Tentei dialogar, mas fui golpeado com uma corrente nas costas e ao tentar me virar, fui mais uma vez golpeado com um pontapé no peito. Chamei a policia, mas a mesma não mostrou interesse em prestar o socorro. O agressor alegou que estávamos fazendo bagunça na porta da casa dele e o policial disse que ‘o tamanho da correntada correspondia ao tamanho da bagunça que estávamos fazendo’. Liguei para minha mãe que é advogada e ela foi ate lá para resolver a situação e quando soube do que o policial tinha dito, o mesmo negou dizendo que eu e meus amigos (que estavam de testemunhas) havíamos ouvido errado. E em meio a essa afronta, segui com o processo”

O repórter e estudante de jornalismo da Univali, Geraldo Genovez, 20 anos, relata que teve dificuldades quando se assumiu para a família. “Minha família inteira é evangélica e não foi nada fácil me assumir. Com 18 anos eu contei para todos, de uma vez só. De cara, o meu pai foi o único a aceitar e me tratar normal. A minha mãe deixou claro que não queria que eu fosse assim, mas sempre me defendeu. Minhas primas e parentes mais novos também me apararam. O que me doeu mais foi à reação de alguns tios, que queriam me ‘exorcizar’ e não deixam mais eu frequentar as suas casas. Hoje eu posso dizer, com toda certeza, que eu fiz muito bem em me assumir. É muito bom ser quem eu sou e não ter vergonha de ser assim. Não me importo mais com quem acha errado, porque eu sou extremamente feliz sendo gay. Valeu a pena contar a verdade, apesar de tudo”.

Uma das coisas que mais afeta as pessoas nesses casos é a relação com a família. “Acredito que o que mais me marca é o fim de ano. Não posso passar o Natal com a família porque alguns não me aceitam. No primeiro ano passei sozinho. Depois passei a comemorar o Natal e virada de ano com o meu namorado”. Agressão verbal infelizmente acaba se tornando algo comum no dia-a-dia. São tantos insultos que às vezes o melhor é fingir que não escutou e seguir. “Agressão verbal é tão comum pra mim quanto almoçar ou tomar banho. Todos os dias eu ouço pelo menos um xingamento ou comentário de mal gosto por eu ser gay. Eu guardei minha tristeza por muito tempo, mas agora eu já sei lidar melhor com isso”, revela Geraldo.

Os discursos de ódio parecem não ser suficientes e muitas vezes as pessoas acabam sofrendo psicologicamente com a violência, já que esses discursos acabam sendo propagados por pessoas com cargos importantes na sociedade. “Já apanhei no banheiro da rodoviária de Balneário Camboriú uma vez. Eu ficava com um menino e ele me deixou na rodoviária depois de uma festa pra eu ir pra casa. Nos despedimos com um selinho e um cara viu. Comprei a minha passagem e fui ao banheiro antes de entrar no ônibus. O cara me seguiu e me bateu, me deixando com um olho roxo e dois ossos da costela fraturados. Pedi ajuda para um funcionário da rodoviária e ele só riu. Liguei para a polícia, mas ninguém veio”. Ainda assim, Geraldo não se deixou abalar e afirma “eu costumo dizer que só comecei a viver depois que me assumi. Até então, eu não era eu. Eu era quem os outros queriam que eu fosse”.

15175522_1175437335871796_289072264_n
Foto: Andressa Magalhães

A estudante de Relações Públicas da Univali Mariana Ferreira, 23 anos, explica que sofreu preconceito não apenas por estar demonstrando afeto. “Sofri preconceito pela maneira que a menina se vestia. É oferecido um meio termo de liberdade, porque até nas rodas de amigos (LGBT) acontece preconceito, como se para você se encaixar e ser respeitada você precisa andar de ‘fato como uma lésbica’, padronizando que para ser lésbica tem que ser masculina”.

Estamos em tempos de revoluções e mudanças, mas é necessário que nossa mente acompanhe essas mudanças. É preciso parar de querer padronizar tudo e justificar atos violentos com religião. Uma das coisas, talvez, mais absurdas desse meio é a aceitação em cima de lésbicas sendo tratadas como objeto sexual e dois homens se beijando ser contra a moral.

15211543_1175437475871782_1053508428_n.jpg
Foto: Andressa Magalhães

O estudante de Publicidade e Propaganda da UEMG, Matheus Ramos, 20 anos, passou por momentos difíceis com seus pais. A aceitação que não vinha acabou gerando momentos complicados na vida dele e algumas vezes ele pensou até em tirar a própria vida. Com o tempo Matheus foi enfrentando seus medos e entrou para a faculdade onde conseguiu encontrar-se e também melhorar seu relacionamento com os pais. “Ah, meu relacionamento com eles atualmente é bom. É 8 sabe, não é 10. Não tem aquela aceitação, mas também não busco mais isso. Eu vivo por mim”.  Ele acredita que quando saiu de casa, ele e os pais amadureceram, talvez não muito nesse quesito. “Eu até mostrei o menino que eu estava ficando para ela e ela disse que não aceitava e que não era para eu apresentar. Então eu disse que não iria ficar sozinho para sempre. Acredito que ela parou para pensar sobre”.

A homofobia ataca de todos os lados e formas. Muitas vezes ela não precisa estar clara. Morgana Pereira, 19 anos, conta que por ter uma aparência mais masculina sofre muito, principalmente quando vai ao banheiro feminino. “Nunca fui agredida, apenas recebi ameaças”. Em relação aos pais ela explica: “No começo acho que foi um choque para meus pais, mas eles aceitaram super bem e hoje nossa convivência é até melhor. Me aceitam e me apoiam”.

Em meio a tanta violência e ódio ainda é possível encontrar pessoas que não passaram por essa situação como o caso de T. S., que mesmo morando em uma cidade pequena nunca sofreu nenhum tipo de violência, tanto física como verbal. Em relação aos pais ela explica que “eles meio que desconfiavam, mas nunca disse nada para eles. Mas quando eu quis apresentar minha namorada, então me assumi”, finaliza.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s