Comportamento

Os desafios de ser pai pela primeira vez

Pais de primeira viagem relatam as dificuldades, anseios e principalmente as alegrias de ter um filho e falam sobre o novo papel do homem nas famílias

Pais de primeira viagem relatam as dificuldades, anseios e principalmente as alegrias de ter um filho e falam sobre o novo papel do homem nas famílias

Texto: Pedro Henrique Homrich

A primeira experiência de um pai pode ser tão desafiante quanto a de uma mãe. A ansiedade da espera, os receios e trabalho árduo para auxiliar no sustento do novo membro da família normalmente afetam os chamados “pais de primeira viagem”. Quando Alfeu descobriu que ia ser pai, aos 22 anos, encarou todos os medos e preocupações até a chegada de seu filho Davi. Marinheiro e morador de Florianópolis, conta que mesmo não planejada, assumiu e foi presente em todos os momentos da gravidez. É como diz aquele ditado: Não basta ser pai, tem que participar.

A história de Alfeu Almeida da Silva, no entanto, tomou um caminho inesperado. Pouco tempo após Davi completar cinco anos de idade, perdeu sua esposa vítima de câncer. “Quando descobrimos, a doença já estava em estado avançado, o que pegou todos de surpresa”. A partir daí, precisou encarar os desafios de criar uma criança por conta própria e com a ajuda de familiares.

O jovem inexperiente da época deu lugar a um pai mais presente na vida de seu filho, tanto em sua educação quanto nos momentos de lazer. “O Davi é tudo pra mim. Tenho um contato diário com ele e temos uma parceria incrível. Os pais de hoje são muito mais presentes que os de antigamente. Havia uma preocupação maior no trabalho para o sustento da família, com isso muitos momentos eram deixados de lado”.

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Alfeu e seu filho Davi, hoje com 10 anos de idade

Segundo Carina Nunes Bossardi, doutora em Psicologia pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e professora na Universidade do Vale do Itajaí (Univali), a chegada de um filho no âmbito familiar envolve um período de transição, de reajustes e adaptações. O casal deixa de ser apenas marido e mulher ou companheiros um do outro para tornarem-se pais. As funções aumentam e esse momento traz às famílias muitos sentimentos, expectativas, alegrias, dúvidas e até mesmo preocupações.

É o caso do gerente de vendas Eduardo Boz, que viu tudo mudar a partir do resultado positivo do teste de gravidez. “Foi uma loucura, uma mistura de alegria com tensão. Um susto, porque a partir daquele momento tudo mudaria em nossas vidas”. Eduardo conta que em 2012, o ano de nascimento de sua primeira filha, Beatrice, muitas coisas aconteceram. Além de trabalhar em horário comercial e ir para a faculdade pela noite, o casal já planejava a festa de casamento, que havia sido programada antes de descobrir a gravidez. “Queríamos preparar tudo e deixar tudo pronto para quando o bebê chegasse”.

Quatro anos depois, nasceu a segunda filha do casal, Annie. Eduardo conta que ficou tudo mais fácil, já que os aprendizados do primeiro filho os tornaram mais experientes. “Passamos esta segurança para o bebê, todos os medos, ansiedades e as inseguranças que tínhamos já foram vividos com o primeiro filho e superadas”.

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Eduardo e suas filhas Beatrice e Annie (Foto: Arquivo pessoal)

O pai afirma que esta geração é bem mais participativa e carinhosa do que antigamente. “Existia a ideia de que a mulher tinha que cuidar da casa e dos filhos e o homem só trabalhar. Eu por exemplo, além de trabalhar, cuido das minhas duas filhas, ajudo em casa, troco fraldas, faço dormir, realmente tudo. Tento ser sempre o mais presente possível pra elas e me superar a cada dia, e, consequentemente, elas vão levar isto adiante, todo esse nosso carinho e cuidado como exemplo. Espero que daqui pra frente seja sempre assim, para o bem das crianças que são nosso bem mais precioso”.

A psicóloga Carina ressalta que a maior participação do pai no cuidado da criança tem sido evidenciada por meio do contato direto com o filho, em que o pai se envolve em cuidados e compartilha atividades na família. “O pai também demonstra estar acessível à criança, ou seja, mostra-se presente e disponível e é aquele pai que tem responsabilidade, garantindo cuidados e recursos para a criança. Nesse sentido, compra coisas que são necessárias, mas também brinca, cuida, alimenta, disciplina e dá afeto. É importante saber não somente a quantidade de horas que o pai passa com a criança, mas a qualidade dessa interação. É essencial levar em consideração o que o pai faz com a criança e como faz”.

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Psicóloga Carina Nunes Bossardi

A figura paterna na sociedade passou por diversas mudanças nas últimas décadas, desde os cuidados e relação direta com os filhos, tanto no auxílio às tarefas de casa, papéis antes designados às mulheres. A participação do pai se tornou maior no dia a dia das crianças, o que contribuiu para uma melhor relação entre eles. Segundo Aguinaldo José da Silva Gomes e Vera da Rocha Resende, autores do artigo O Pai Presente: O Desvelar da Paternidade em Uma Família Contemporânea, o homem encontrava dificuldades para separar sua individualidade das funções de pai. Manteve-se protegido no silêncio, comprometedor de toda possibilidade de diálogo com a família, especialmente com os filhos. Foi sempre apoiado pela cultura que, sendo patriarcal, reservou-lhe lugar acima da trama doméstica constituída, sobretudo pela mulher e pela criança.

Carina afirma que, atualmente, a família passa por importantes transformações. Tudo indica que os papéis e relações maternas e paternas estão se modificando e com eles, o cuidado e as responsabilidades na criação dos filhos. “As mulheres estão ocupando cada vez mais, no contexto atual das famílias brasileiras, o papel de provedoras do sustento familiar. A inserção da mulher no mercado de trabalho tem sido apontada como um fator que levou os homens a assumirem maiores responsabilidades dentro do lar. Ainda que em escala bem menor que a esperada ou desejada, a participação e o envolvimento do pai no cuidado com os filhos e nas funções do lar estão sendo evidenciados, mesmo que a mãe ainda seja identificada como a principal responsável pelo cuidado e pelas tarefas de casa”.

De acordo com pesquisa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em parceria com a Secretaria de Políticas para as Mulheres e o Ministério do Desenvolvimento Agrário, a participação das mulheres no mercado de trabalho, com idade igual ou superior a 16 anos, cresceu de 50% no ano 2000 para 55% em 2010, enquanto a participação dos homens economicamente ativos obteve um declínio de 80% para 76% nos respectivos anos.

Segundo a psicóloga, o papel do pai vai além da função de provedor. “Mesmo que tenha atribuições diversas no cuidado com os filhos, contribui para a criação e saúde emocional de suas crianças. Nesse sentido, o papel do pai é expressivo na contribuição para o ajustamento social, controle da agressividade nas relações sociais e desempenho acadêmico. Pais afetuosos e capazes de impor regras e limites ajudam a criança a desenvolver a confiança que lhe permite tornar-se responsável e cooperativa, bem como auxiliam o desenvolvimento de habilidades sociais na idade escolar”.

Carina conclui que, diante da evidência de uma maior participação do pai com as crianças e com a família, encontra-se o desafio dos pais no que se refere à divisão ou compartilhamento de funções em prol de um desenvolvimento familiar e infantil saudável. As famílias devem configurar e ajustar suas funções profissionais e com o lar de modo a evitar uma sobrecarga de atividades e tarefas. As responsabilidades devem ser compartilhadas e distribuídas o mais equilibradamente possível.

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