Cidades

Ensino Médio Inovador oferece aulas em turno integral e levanta discussão sobre reforma

As notas do Enem 2015 por escola, divulgadas recentemente pelo MEC, fazem especialistas refletirem sobre a reforma que o governo pretende fazer no ensino médio

As notas do Enem 2015 por escola, divulgadas recentemente pelo MEC, fazem especialistas refletirem sobre a reforma que o governo pretende fazer no ensino médio, guiando-se por um modelo bem parecido e que já acontece em algumas escolas catarinenses e por todo Brasil, o Ensino Médio Inovador

Texto: Adrielle Demarchi, Ana Carolina Nasato e Natália Rocha

Quando toca o último sinal, muitos alunos que cursam o ensino médio se animam. É hora de ir para casa depois de um período de estudos. Alguns aproveitam o contraturno escolar para fazer cursos, estudar as matérias do dia ou para descansar; já outros têm um compromisso fixo: trabalhar. Essa realidade é um pouco distante da vivida por alunos de escolas que adotaram o Ensino Médio Inovador (ProEMI), um programa do governo que oferece ensino integral. O objetivo do governo com o programa é que os estudantes tenham um currículo mais dinâmico e integrado, para isso, são ministradas aulas que vão além das disciplinas comuns, como matemática e português. O programa foi implantado em 2010 em Santa Catarina.

Atualmente, Santa Catarina tem 155 escolas com o Ensino Médio Inovador, com mais de 15.000 alunos atendidos.

Em Itajaí, a Escola Estadual Básica Nereu Ramos adotou esse formato de ensino logo quando ele foi implantado, há seis anos. A diretora Beatriz Reynaud, que na época ainda não exercia essa função, conta que a proposta veio do Ministério da Educação (MEC), via Governo do Estado. Para conhecer o programa, alguns professores foram até o Rio de Janeiro fazer um treinamento para poder explicar aos outros como funcionaria. Desde então, a escola oferece o ensino inovador durante o dia e o ensino regular à noite. Por três dias na semana, os alunos chegam à escola pela manhã e só vão embora no meio da tarde. Não há opção de cursar o ensino médio durante o dia sem participar de todas as atividades do ProEMI, pois há apenas uma matriz para esses alunos.

Neste ano, aproximadamente 400 alunos cursam o ensino inovador na Nereu Ramos. Quanto ao estudo, os alunos têm mais de uma aula de cada disciplina. “No ensino regular, eles têm duas aulas de cada matéria e três de matemática e português. No inovador, eles passam a ter três de cada matéria e quatro de matemática e português”, explica Beatriz. Além das disciplinas comuns, os alunos fazem também uma aula de atividades culturais e esportivas. Essa extensão do tempo na escola permite aos estudantes aprenderem mais sobre os assuntos ensinados e reforçar o que já foi mostrado na aula pela manhã. Quanto à socialização, o aluno cria um vínculo muito maior com o professor e com os colegas e adquire responsabilidades.

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A partir desses oito macrocampos, são desenvolvidas atividades integradoras que articular as dimensões do trabalho, da ciência, da cultura e da tecnologia. (Arte: Natália Rocha)

As atividades da escola são trabalhadas em forma de projetos. Todas as quintas-feiras os professores que dão aula para os alunos do ProEMI e os professores orientadores de convivência e de leitura fazem uma reunião para decidir qual será a programação da semana seguinte. Com a extensão do período do colégio, os alunos têm a possibilidade de fazer saídas de campo e viagens. A aluna do segundo ano Sara da Rocha Nascimento percebe que no ProEMI os alunos conseguem focar mais nos estudos por passar um tempo relativamente grande dentro da escola e não em casa, onde poderiam ficar ociosos.

Outra escola da região que implantou o Ensino Médio Inovador foi a Escola Estadual Básica Professora Francisca Alves Gevaerd, em Balneário Camboriú. Há quatro anos com o programa, o esquema de aulas na Gevaerd é praticamente o mesmo da Nereu Ramos, com a diferença dos dias que os alunos ficam em período integral no colégio: segunda, terça e quinta-feira. Nesses dias, as aulas começam às 7h45min e acabam às 16h30min. A aluna Milena Moura Rosa, do segundo ano, não vê problema em ficar praticamente o dia todo na escola. Ela gosta, principalmente, do fato de ter oportunidade de aprender e ter contato com matérias diferentes das comuns.

Em setembro de 2016, o MEC divulgou que pretende fazer uma reforma no ensino médio atual (o tradicional) nos próximos anos. Contemplam essa mudança a implantação do ensino integral e a readequação da matriz de disciplinas que são ensinadas atualmente. Para a diretora da Nereu Ramos, o ensino integral proporciona ao aluno um maior aproveitamento de seu tempo na escola. “Eu posso fazer um comparativo com o nosso [ensino] noturno. Trabalhar com o nosso noturno 40 minutos em cada sala com duas aulas [por semana, de cada matéria] é muito superficial”. Ela fala também que o aluno cria um vínculo com a instituição e acaba considerando o colégio como a segunda casa dele. Em contrapartida, aponta como problema manter o aluno na escola, pois nessa faixa etária do ensino médio, muitos adolescentes precisam trabalhar para ajudar em casa. Outro fator que pode dificultar a implantação do ensino integral, segunda ela, é fazer com que o aluno tenha vontade de ficar na escola e que ele se acostume com a rotina, pois o ensino fundamental nas escolas públicas tem horários comuns, de meio período.

A doutora em Educação Científica e Tecnológica Cirlei de Sena Correa acredita que um dos fatores que dificulta a implantação do ensino integral é a estrutura das escolas. “Certamente, a maioria dos espaços físicos das escolas não está preparado para ser uma escola de período integral”. Por outro lado, ela cita os novos colégios que estão sendo construídos, com estruturas melhores.

Segundo a Agência de Desenvolvimento Regional (ADR) da região, estão sendo construídas cinco novas unidades e ampliadas outras três. A diretora da escola Nereu Ramos diz que hoje a escola está totalmente equipada, com laboratórios, salas suficientes e quadra esportiva. Quanto à reforma do ensino médio, Cirlei diz que a escola necessita de mudança. “O modelo de escola que temos data do século XII. Grades curriculares, como o próprio nome sugere, conduzem-nos a prisões. Precisamos de liberdade para tratar o conhecimento”. Ela, que estuda o ProEMI, vê vantagens em todo programa e cita as atividades artísticas e esportivas e a presença de professores orientadores durante todo dia, à disposição do aluno, como exemplos.

Uma das maiores preocupações dos gestores e professores tanto de escolas com Ensino Médio Inovador quanto as com ensino tradicional é preparar o aluno para o vestibular e o ingresso na universidade. O Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) tem como fim avaliar o desempenho de estudantes do ensino médio e selecioná-los para as bolsas universitárias oferecidas pelo governo. No mês de setembro deste ano, o Ministério da Educação divulgou as notas por escola do Enem 2015 e um dos resultados que mais chamou atenção foi o fato de as escolas particulares ocuparem os primeiros lugares neste ranking; escolas essas que, geralmente, oferecem aulas de reforço e até ensino integral. As escolas públicas que têm também o ensino integral por meio do Ensino Médio Inovador, entretanto, apresentaram resultados bem inferiores. A escola Gevaerd ficou na 11463º posição, com uma média das quatro áreas de conhecimento e redação de 484.26. A Escola Estadual Básica Adelaide Konder, em Navegantes, que também tem o Ensino Inovador, ficou em uma posição um pouco melhor, em 9281º lugar, com 498.35 de média.

Cirlei afirma que, nesses casos das notas do Enem, o ensino público só terá qualidade, e fará diferença no nível de aprendizagem dos alunos a ponto de eles se saírem bem no exame, se os pressupostos da Base Nacional Curricular Comum para o ensino médio realmente forem cumpridos. “Para isso, todos devem se comprometer com a educação: governo, escola e família”.

A aluna Bianca Gomes Rodrigues, da turma do terceiro ano da escola Gevaerd, conta que já fez o Enem e achou a parte de química bem complicada porque nunca havia estudado aquele conteúdo no colégio. A preparação que a escola faz para o exame, na opinião dela, não ajuda muito. “O que eles falam é o que a gente já sabe, que a redação é difícil, que é o que mais vale nota. Não é uma coisa que ajuda a gente”. Por isso, Bianca decidiu fazer um cursinho pré-vestibular. Ela quer cursar farmácia ou estética.

A medida provisória que mudará o ensino médio prevê uma Política de Fomento de Escolas em Tempo Integral, que, segundo o próprio site do ministério, deve ocorrer de forma gradual. Ainda de acordo com informações divulgadas pelo site do MEC, está previsto um investimento do Governo Federal de R$ 1,5 bilhão até 2018, o que corresponde a R$ 2 mil por aluno. É, justamente, nesse ponto que está uma das maiores reclamações das escolas Nereu Ramos e Gevaerd: a falta de verba.

A professora da escola Gevaerd Karina Sodré é contra o ensino inovador. O fator que a levou pensar assim foi a falta de investimento do governo no programa. Ela cita ausência de laboratórios, espaços essenciais para unir teoria e prática, e salas para aulas de dança e teatro, que também são ministradas na escola. “Ou você faz direito ou você não faz”. O gerente regional de educação de Itajaí, Balneário Camboriú e Navegantes, Ken Ichi Becherer, explica que o ProEMI é mantido pelo MEC. Todo ano, o ministério envia às escolas uma planilha para ser preenchida com os projetos que serão desenvolvidos durante o ano. Nesta planilha, deve haver também todos os materiais que serão usados nos projetos. Depois de preenchida, o MEC avalia; se aprovada, a escola recebe o valor necessário para os trabalhos, porém, desde o ano passado o MEC não abriu esta adesão e não repassou as verbas. Ele acredita que isso aconteça pela falta de dinheiro do Governo Federal.

As argumentações e fatos em relação ao Ensino Médio Inovador, de período integral, são inúmeros; as mudanças maiores ainda, mas o principal de tudo, os resultados, são inegáveis.

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