Arte e Cultura

Dia da Consciência Negra será marcado por concurso cultural em Itajaí

Comemoração acontece no dia 20 de outubro, data marcada pela morte do herói negro Zumbi dos Palmares e contará com várias atividades na cidade

Comemoração acontece no dia 20 de novembro, data marcada pela morte do herói negro Zumbi dos Palmares e contará com várias atividades na cidade 

Texto: Andressa Magalhães, Bianca Pereira e Daniella Machado

Desde a emancipação da cidade de Itajaí, em 1860, africanos e afrodescendentes estão presentes na história do município. Naquela época, mesmo sendo tratados como escravos e mercadoria, podiam ser vendidos e comprados a qualquer momento por donos de fazenda, eles construíram famílias e enraizaram suas origens por aqui.

De acordo com o Livro “Negros em Itajahy – Da invisibilidade à visibilidade: Mais de 150 anos de história” do historiador José Bento Rosa da Silva, há registros que comprovam todo o trabalho exercido pelos africanos e afrodescendentes bem antes da emancipação. Eles trabalhavam na lavoura, nas madeireiras, como marinheiros, carpinteiros e até pedreiros. Inclusive, há registros de um pedreiro chamado Simeão que, a pedido do Coronel Agostinho Alves Ramos, construiu, em 1835, a primeira igreja de cal e pedra da cidade. Hoje, algumas destas paredes construídas por ele ainda fazem parte da Igreja Imaculada Conceição, no centro de Itajaí.

No século XIX, os negros ainda eram escravizados em todo o território brasileiro. Apesar de muito contribuírem para o crescimento das cidades e da população, só em 13 de maio de 1888 aconteceu a abolição e eles foram libertados. Mesmo assim, nem tudo foi fácil. A liberdade que tanto almejaram demorou a ser conquistada. Nos primeiros anos, eles eram discriminados e excluídos da sociedade. Por conta disso, mal conseguiam trabalho ou lugares para viver. Mas isso não fez com que eles desistissem e perdessem a vontade de lutar por seu espaço.

Além de suas histórias, os negros trouxeram para o Brasil sua cultura, culinária, costumes e crenças. Hoje, mais de 54% da população brasileira é composta por negros. Em Itajaí, esse percentual ultrapassa os 15%, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Apesar de menos rigorosa, a luta dos negros é realizada até os dias atuais. Para conscientizar a população brasileira sobre a importância deste povo para a nossa história, um dia simbólico foi criado. O Dia da Consciência Negra é comemorado no dia 20 de novembro desde o ano de 2003, quando a Lei Federal n° 10.639 entrou em vigor. Essa data marca a morte do herói negro Zumbi dos Palmares, que lutava pela liberdade da sua gente no ano de 1695.

Alexsandra Souza, 20 anos, é negra e participa do Movimento Frente Negra promovido pela Univali. Ela acredita que o Dia da Consciência Negra deve ser lembrado não só no dia 20 de novembro, mas em todos os dias do ano. “Que ele não seja só no dia 20. Que as pessoas não tenham que se envergonhar por ser negro. Que possamos escrever a nossa história e não ser empregado do herói”, salienta.

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Zumbi dos Palmares morreu enquanto lutava por libertação (Foto: Reprodução)

Em Itajaí, a Consciência Negra é abordada de diversas formas com atividades artísticas, concursos culturais, palestras de conscientização à população e aulas do ensino público e privado para ensinar sobre as contribuições que os africanos trouxeram para o país. Além disso, desde 2011 o concurso A Mais Bela Negra de Itajaí voltou a ser realizado na cidade, com o intuito de eleger a representante da comunidade negra.

História do Concurso

Há 64 anos, em 1952, a cidade de Itajaí tinha como diversão um lugar certo: os clubes da cidade. Lá, a população se encontrava para dançar, se divertir e participar de concursos de beleza. Mas, nestes clubes, os negros não tinham vez. “A comunidade negra não podia entrar nos clubes para dançar, por isso foi criado um clube especifico, o Sociedade Cultural e Beneficente Sebastião Lucas”, explica a coordenadora de Promoção da Igualdade Racial, Gênero e Pessoa com Deficiência, Graziela Cristina Gonçalves.

Dentro dos clubes existentes era realizado um concurso de beleza para escolher a representante da localidade. Sabendo disso, presidentes do Sebastião Lucas, que envolvia a comunidade negra da cidade, decidiram incluir no clube alguns concursos também. O primeiro foi A Mais Bela Negra do Sebastião Lucas, depois a Rainha do clube, e por fim, A Mais Bela Negra de Itajaí. Este último durou cerca de vinte edições.

A realização dele despertou o interesse de outras cidades para realizar o concurso também, como o caso de Tijucas, Florianópolis e a cidade de Treze de Maio. Com tantas candidatas, uma etapa estadual do concurso foi criada para escolher a Mais Bela Negra de Santa Catarina. “Minha tia chegou a ficar em segundo ou terceiro lugar, não me recordo ao certo, mas foi uma vitória pra gente”, comenta Graziela.

Com os passar dos anos, realizar o concurso estava fora do orçamento do clube, por isso a decisão de cancelar o projeto foi necessária. Foram mais de vinte anos sem o concurso que voltou a ser realizado após a inclusão do Conselho Municipal da Comunidade Negra, que em 2011 reativou o concurso em conjunto com a Prefeitura Municipal de Itajaí, por meio da Secretaria de Relações Institucionais e Temáticas.

O concurso passou a ser cultural e não só um concurso de beleza, como era anteriormente. “É escolhida a representante da comunidade negra para os festejos da Consciência Negra. Além de ter um outro fundo, que é chamar atenção da mídia, das empresas e do mundo da moda para explorar também a beleza negra”, salienta Graziela.

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Candidatas participam de palestras sobre o dia da Consciência Negra (Foto: Victor Schneider)

Neste ano, o concurso será realizado no dia 20 de novembro – alusivo ao Dia da Consciência Negra. As candidatas que vão participar da disputa têm de 18 a 30 anos, estatura mínima de 1,60 e residem em Itajaí. Não é necessário ser muito alta e magra como em outros concursos de beleza, neste concurso qualquer menina/mulher negra pode participar. Também não há uma seleção de candidatas, todas que se interessam e se inscrevem, participam automaticamente.

Além disso, as candidatas participam de palestras para entender o porquê da existência do concurso. “Muitas vêm por conta da beleza, mas após a eleição elas são representantes da comunidade negra. Então, elas têm que se portar, defender, estudar e conhecer a cultura para depois defender e representar a comunidade negra na cidade”, explica Graziela.

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Em 2015, Gabriela passou a coroa para Jéssica da Silva (Foto: Victor Schneider)

Gabriela Laura Cunha, 21 anos, se inscreveu para participar do concurso no ano de 2014 através de indicações de amigos e familiares. Sem acreditar, a moradora do bairro São Judas venceu às demais candidatas e foi eleita a representação da comunidade negra de 2014. “Eu me senti muito feliz e honrada por vencer o concurso”, conta Gabriela.

Após a vitória, diversas oportunidades apareceram para ela. Entrevistas em programas de TV da região, convites para estampar marcas de roupa, fotos, palestras e eventos voltados para a cultura negra. “Esse tipo de concurso é muito importante para a valorização da mulher negra. Além de falar sobre a nossa cultura, ele nos proporciona mais visibilidade”, explica.

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Gabriela Cunha foi eleita A Mais Bela Negra no ano de 2014 (Foto: Victor Schneider)

Todos os anos, a Secretaria de Relações Institucionais e Temáticas recebe uma enxurrada de comentários preconceituosos sobre o concurso. Em sua grande maioria, eles vêm acompanhado de “por quê não tem um concurso para eleger a mais bela branca?”. Mas, Graziela Gonçalves explica que a maioria das pessoas que criticam são ignorantes e não questionam para saber exatamente o motivo, é mais para gerar burburinhos provenientes do racismo. “A gente faz essa provocação para que as pessoas entendam que é um concurso cultural. As mulheres negras podem e devem participar dos outros concursos, mas esse, além de beleza, é um concurso cultural. É pra movimentar esse mês de novembro e dar um foco para as atividades da Consciência Negra”.

Outro fator que a coordenadora comenta é o fato do mesmo questionamento não existir em outros concursos culturais. “Eu acho engraçado que não se tem esse mesmo comentário para a rainha da Oktoberfest, porque se eu fosse uma mulher negra de 1,75 de altura e fosse me inscrever, eu não ia poder. Não porque está inscrito que não pode, mas porque todos os requisitos eu não iria cumprir. Por exemplo, falar alemão, eu não sei. Danças típicas, também não! É a minha origem étnica que me eliminaria. Aqueles requisitos ali me eliminariam. Então, quem é que pode? Mulheres brancas de origem germânica. Sendo assim, é um concurso cultural também”, comenta.

Miss Brasil 2016

Após trinta anos de concurso, o ano de 2016 coroou uma mulher negra no Miss Brasil. A eleita foi Raíssa Santana, candidata do estado do Paraná que desfilou toda sua simpatia, beleza e graciosidade na passarela do evento. Esse ano, o concurso também chamou atenção pela representatividade. Ao todo, seis candidatas negras estavam inscritas no concurso.

Para Gabriela, vencedora do concurso A Mais Bela Negra 2014, uma mulher negra representar o país no Miss Universo é gratificante e demonstra a diversidade de etnias que é o Brasil. “Isso mostra que também temos condições e podemos estar entre as mulheres mais bonitas do país, e que devemos ainda mais lutar por respeito e mais espaço na mídia”, conclui.

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Raíssa é a segunda mulher negra da história a vencer o Miss Brasil (Foto: Divulgação/Be Motion)

Boa parte da população brasileira ficou surpresa com a coroação e sentiu-se orgulhosa pelo feito. Mas, nos comentários de portais e principalmente nas redes sociais, foi que os comentários preconceituosos ganharam força. E Raíssa respondeu à altura:

“Tem que ter negra, tem que ter loira, ruiva, mestiça, um pouco de tudo!”

                                                                                                                        – Fonte: Revista Donna.

Graziela enxerga esses comentários como o estranhamento do diferencial, já que o padrão de beleza estipulado no Brasil antigamente era o padrão europeu. A mulher bonita tinha que ser loira, alta, magra e de olhos claros. As baixinhas, gordinhas, ruivas, morenas, negras, indígenas, asiáticas não eram reconhecidas como padrão de beleza nacional. “Ela é brasileira, é bonita, participou do concurso e ganhou. Ela representa todas as mulheres brasileiras, igual se fosse uma branca ganhando, também nos representaria”, ressalta.

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