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De situações perigosas a constrangedoras: histórias de quem trabalha como motoboy

Apesar de ser um emprego considerado de alta periculosidade pela lei, muitos motoqueiros ainda não recebem o benefício obrigatório da profissão

Apesar de ser um emprego considerado de alta periculosidade pela Lei, muitos motoqueiros ainda não recebem o benefício obrigatório da profissão. Conheça também algumas situações que esses trabalhadores passam na hora de fazer as entregas

Texto: Adrielle Demarchi, Ana Carolina Nasato e Natália Rocha

A campainha toca.

– Quem é, filho? Vá olhar para mim.

– Não é ninguém mãe, é só o carteiro.

Esta cena já foi vivenciada algumas vezes por Rafael Faustino, que trabalha há 12 anos nos Correios. Durante o dia, ele entrega cartas, mas há quatro anos, à noite, é motoboy de uma pizzaria. Rafael conta que várias vezes já se sentiu “invisível” por causa do jeito que é recebido por alguns clientes na hora das entregas. “Teve uma vez em que eu fiquei muito constrangido, fui entregar um registro na casa de uma figura pública, muito conhecida na minha cidade, e ele veio me atender só de cueca. Eu não conseguia nem olhar para os lados, fiquei estático, sem jeito, muito envergonhado”. Rafael diz que essa não foi a única vez que foi recebido assim. Tanto nas entregas das cartas, como nas pizzas, várias vezes já foi recebido por pessoas vestindo apenas roupas íntimas, pijamas e, inclusive, só de toalha.

Apesar de saber que tem uma profissão considerada perigosa, Rafael diz que sempre foi muito cauteloso ao dirigir no trabalho e utiliza os equipamentos de segurança necessários para os entregadores segundo a lei. Ao invés de andar em alta velocidade e fazer manobras arriscadas para ganhar tempo nas entregas, procurou estudar bem o mapa de Rio do Sul, cidade onde trabalha, e assim não tem problemas para encontrar o destino delas. Mesmo não se considerando imprudente no trânsito, Rafael conta que, de vez em quando, passa por contratempos na profissão. “Há uns anos, os Correios tinham um contrato com a Celesc e a gente entregava as contas de luz. Certo dia estava entregando uma fatura em uma localidade do interior da cidade de Vidal Ramos e pro meu azar furou o pneu da moto, tive que procurar uma casa naquele lugar afastado e bater na porta das pessoas mesmo, pra pedir ajuda”.

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Infográfico: Gazeta do Povo/2009 – Curitiba – PR

Fábio Patrício é motoboy há nove anos. Também trabalha nos Correios durante o dia e, à noite, faz entrega de comidas. Atualmente, faz entrega de comidas italianas, mas já trabalhou para outros restaurantes também. Para ele, não existe motoboy que não passe por situações de perigo constantemente. “Toda noite que trabalho escapo de me acidentar”.

Recentemente, no dia 1º de novembro, ligaram na empresa em que ele trabalha pedindo duas pizzas em frente a uma suposta localidade. Ele, por conhecer muito bem a cidade, não lembrava de haver estabelecimentos no local solicitado. Foi então que resolveu ir descaracterizado até lá para dar uma olhada antes que caísse em uma armadilha. Quando chegou, reparou que, realmente, não havia nenhuma residência, apenas duas pessoas dentro de um carro em um local escuro, sem iluminação pública. Fábio acredita que era uma emboscada.

Outra história, essa um tanto constrangedora, que marcou a vida do motoboy, foi em uma entrega de comida em que chegou ao endereço do cliente e começou a buzinar. Como ninguém o atendeu, entrou no cercado da casa para bater na porta e viu uma mulher fazendo strip-tease para um cara.

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Fábio Patrício no trabalho. (Foto: acervo pessoal)

Sobre as condições de trabalho dos entregadores, ele reconhece que não são boas, tendo como base os serviços que já teve. “Nosso trabalho é pouco reconhecido economicamente, somos a imagem da empresa que vai até o cliente e mesmo assim, às vezes, temos que engolir desaforos”. Ele ainda completa falando que existe também o desrespeito no trânsito por parte das pessoas que o chamam de louco pela forma com que dirige, mas quando pedem uma comida querem que chegue o mais rápido possível.

Alexandre Greibeler também se considera um motoboy cauteloso. Não coloca sua vida em risco. Ele trabalha há seis anos fazendo entrega de documentos na Secretaria de Segurança Pública de Balneário Camboriú e, há três anos, à noite em uma pizzaria. Nos dois trabalhos é contratado, não ganha adicional pelas entregas. “Eu sei que têm muitas empresas que fazem entregas de alimentos bonificam os funcionários que entregam mais quantidades, acho errado isso, porque os motoqueiros acabam colocando a vida em risco para ganhar um troco a mais”.

Ele concorda com Fábio, que existe desrespeito na profissão. Já ficou algumas vezes constrangido ao fazer entregas em condomínios de luxo de Balneário Camboriú devido ao tratamento que recebeu dos próprios porteiros dos prédios. “Às vezes, eles ligam para o apartamento que pediu a pizza avisando que ela chegou, o morador confirma que é dele e, mesmo assim, os porteiros ficam desconfiados. Ficam mandando a gente tirar o capacete, esperar longe, se está chovendo nem pode ficar em um local protegido”.

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Alexandre Greibeler. (Foto: acervo pessoal)

Profissão de Risco

A lei que regulamenta a atividade dos motoboys é a Lei número 12.009, de 29 de Julho de 2009. Lá estão estabelecidas algumas normas, como idade que o profissional precisa ter para exercer a profissão (21 anos), os equipamentos de segurança que ele deve vestir, o tempo que precisa ter de habilitação para poder trabalhar no ramo, os documentos necessários para apresentar a empresa (certidões negativas de varas criminais, atestado de residência, cédula de identificação do contribuinte, carteira de identidade, documentos da moto se for própria), entre outras especificações que regulamentam a profissão.

Outra exigência que está bem clara no corpo da Lei é que os motoboys tenham instalado o protetor de motor chamado mata-cachorro no chassi do veículo, o aparador de linha antena corta-pipas nos termos de regulamentação do Contran, o colete refletivo e o capacete. O agente de trânsito Eliseu Oliveira diz que várias vezes abordou entregadores sem alguns desses equipamentos na cidade de Balneário Camboriú e precisou notificar o condutor da moto. Outro tipo de autuação corriqueira, principalmente na temporada, é a de motoboys que não possuem o tempo necessário de carteira de motorista para poder trabalhar.

A advogada trabalhista Bruna Fernandes conta que, em 2011, surgiu um projeto de lei sobre o adicional de periculosidade para este tipo de atividade, um valor a mais pago aos trabalhadores que realizam atividades perigosas e que impliquem risco acentuado em virtude de exposição permanente a inflamáveis, explosivos ou energia elétrica, roubos ou outras espécies de violência física nas atividades profissionais de segurança pessoal ou patrimonial. Em 2014, então, a Lei 12.997, de 18 de junho, acrescentou ao parágrafo 4o da CLT como perigosas as atividades de trabalhador com motocicleta e tornou-se obrigatório perante a lei que a empresa contratante pague esse acréscimo aos seus motoboys.

Os entregadores entrevistados, Rafael e Fábio, dizem que não recebem verdadeiramente esse adicional no salários dos Correios, onde são contratados. Rafael explica que, antes dessa lei da periculosidade surgir, todos que trabalhavam na empresa governamental, seja de moto ou até a pé, recebiam um outro adicional, o de atividade distribuição e coleta. Há quase três anos, quando surgiu a obrigatoriedade de receberem o adicional de periculosidade também, deixaram de receber o primeiro, ou seja, recebem o mesmo valor que antigamente, mas com outra designação. “A empresa alega que já paga o adicional, não precisa pagar duas vezes. Até consta no contra-cheque os dois adicionais, porém o adicional de atividade de distribuição e coleta vem para nós como crédito e depois vem descontado do salário final. Legalmente, são dois adicionais distintos e por isso foi ingressado uma ação contra os Correios, tudo indica que vamos ganhar essa causa”.

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Por se tratar de um veículo mais frágil, os motociclistas estão mais expostos aos riscos do trânsito. (Foto: Ana Carolina Nasato)


Como surgiu a profissão?

O termo “motoboy” surgiu no Brasil, com a junção das palavras moto e boy (garoto), da língua inglesa. Mas a primeira ideia da profissão como entrega surgiu na Inglaterra no século XX. Eram entregadores do exército britânico que faziam serviços importantes para o sistema de informação militar durante os períodos das duas grandes Guerras Mundiais. No Brasil, o serviço surgiu primeiramente em São Paulo, como uma busca de amenizar o trânsito que já era caótico na década de 80 na metrópole. Logo, outras cidades do Brasil também adotaram a ideia. Nas cidades do Litoral Norte de Santa Catarina, o serviço dos motoqueiros é imprescindível hoje em dia, principalmente na época da temporada, em que há muito trânsito.

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