Bem-Estar

Falta de acompanhamento em academias ao ar livre preocupa profissionais da saúde

As academias ao ar livre são cada vez mais utilizadas, porém a falta de profissionais instruindo a comunidade sobre como fazer os exercícios preocupa os profissionais da área da saúde.

As academias ao ar livre são cada vez mais utilizadas, porém a falta de profissionais instruindo a comunidade sobre como fazer os exercícios preocupa os profissionais da área da saúde.

Texto: Adrielle Demarchi, Ana Carolina Nasato e Natália Rocha

Gratuito e ao ar livre. Essas são palavras-chave para quem procura uma alternativa à academia convencional entre quatro paredes. Com investimentos de órgãos públicos ou privados (por meio de empresas ou do engajamento da própria comunidade), as academias ao ar livre estão ganhando cada vez mais a atenção dos moradores e conquistando novos adeptos. Com o céu, o sol e a natureza ao redor fica difícil encontrar alguém que não simpatize com a ideia de fazer exercícios em uma praça pública, e são muitos os que se deslocam de seus bairros para poder aproveitar esses privilégios. O público-alvo? A terceira idade. Por recomendações médicas, amor pelo exercício físico ou só por ir bater papo com os amigos enquanto se exercita, esse público é o que mais utiliza as academias ao ar livre hoje. É o que afirma o diretor executivo da Fundação Municipal de Desportos de Blumenau (FMD), João César Sendeski.

A técnica de saúde Iraci Deschamps, 63 anos, é uma dessas pessoas. Ela conta que o exercício físico é de suma importância e ótimo para não “encarangar” na sua idade. Jogadora de tênis nas horas vagas, Iraci adora fazer exercícios no Parque Ramiro Ruediger. “O local é nota dez. É muito limpo e bem conservado. Só não vem quem não quer” diz.

Para João Sendeski, as academias ao ar livre são importantes tanto para a melhor idade como para quem não tem condições de pagar por uma academia convencional. “Na academia ao ar livre a pessoa pode fazer praticamente todos os exercícios que faz em uma tradicional, com a vantagem de ser ao ar livre e não ter custos”, compara. A profissional de educação física Talita Felber diz que o verdadeiro objetivo dessas academias é atender aos idosos que tenham como objetivo melhorar a sua qualidade de vida diária e os movimentos do dia a dia. De acordo com ela, esses aparelhos e os movimentos que eles proporcionam já foram pensados para esse público, pois trabalham as articulações, diferente das academias tradicionais, que procuram melhora muscular e emagrecimento.

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O público alvo das academias são os idosos e muitos deles dizem nunca terem sido instruídos sobre como fazer os exercícios físicos. (Foto: Adrielle Demarchi).

Em 2013, a FMD fez um projeto com o Governo do Estado de Santa Catarina e, por meio de um convênio, foi contemplada com dez academias ao ar livre. Neste ano uma nova academia foi implantada na cidade, no bairro Água Verde. Infelizmente ainda são poucos os bairros com academias em uma cidade com mais de 300 mil habitantes. Sendeski afirma que a vontade é de construir várias academias ao ar livre pela cidade, mas a manutenção anual das onze já existentes equivale ao custo de uma nova.

Com esse alto preço para manter as academias funcionando a única alternativa é esperar por mais parcerias com os governos Estadual e Federal, pois apenas o Governo Municipal não dá conta dos custos. Iraci mora no Bairro da Velha, e como a academia que ficava na frente de sua casa foi retirada, teve de parar de ir todos os dias se exercitar. Hoje aproveita os dias em que o marido precisa ir ao centro para pegar carona até o Parque Ramiro Ruediger. Ela acredita que todos os bairros deveriam ter essas academias.

Para ter uma academia é preciso ter uma demanda e também um local para ela ser instalada. João Sendeski explica que é preciso fazer uma análise daquele terreno para ver se ele possui condições técnicas para essa instalação. Às vezes, por ser muito pequeno, ter uma descida ou um elevado, o terreno é considerado impróprio para a prática. É necessário levar tudo em consideração, até as parcerias e o engajamento da comunidade.

Santa Catarina possui hoje 71 academias ao ar livre, muitas feitas a partir do programa da Academia da Saúde. A Portaria nº 2.681, de 7 de novembro de 2013, estabelece oito eixos de ações a serem desenvolvidas nos polos do programa: práticas corporais e atividades físicas; produção do cuidado e de modos de vida saudáveis; promoção da alimentação saudável; práticas integrativas e complementares; práticas artísticas e culturais; educação em saúde; planejamento e gestão; e mobilização da comunidade.

Segundo o monitoramento feito em 2015 pelas secretarias Municipais e Estaduais da Saúde, Santa Catarina possui mais polos com promoção da alimentação saudável (93%), educação em saúde (91%) e práticas corporais (89%), esse último se enquadrando nas academias ao ar livre. Ainda são poucas academias para o estado, mas 39 obras estão em instalação e outras 37 estão para ser iniciadas.

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Em cada aparelho existe uma informação sobre a musculatura envolvida nesse exercício e recomenda que a pessoa consulte um médico e faça uma avaliação física. (Foto: Adrielle Demarchi).

Enquanto a falta de academias incomoda a população, a falta de profissionais contratados para instruir e auxiliar os praticantes preocupa os profissionais da área da saúde. No momento não existe nenhuma lei que obrigue as prefeituras a contratar profissionais de educação física para o acompanhamento dessas pessoas durante a prática dos exercícios físicos, mas o que existe é “o bom senso e o saber que é importante naquele momento ter alguém orientando adequadamente os praticantes”, como ressalta Sendeski. Ele considera necessária a supervisão de pessoas habilitadas, mas alerta que a prefeitura não possui verbas para manter esse profissional.

Só no primeiro ano das academias, os pedais tiveram de ser trocados mais de vinte vezes, por serem roubados para venda ou até para complementar outro pedal da bicicleta de uma pessoa. Essa contratação demanda, além dos recursos financeiros, concurso público. No momento, o que existe na cidade são professores voluntários cedidos pela Secretaria de Educação para a FMD. No Parque Ramiro Ruediger, que possui a principal academia ao ar livre da cidade, durante a manhã e no final do dia existem voluntários orientando a comunidade.

Para Talita, mesmo não existindo uma lei específica, existem outras que podem subsidiar essa necessidade de profissionais, pois todo ambiente projetado para a atividade física deve possuir o acompanhamento de um profissional de educação física. “É um ambiente específico para atividade física, como as academias privadas e clubes. É só uma variação de condição de ambiente”, argumenta. Para ela sempre existe uma alternativa privada, mas para isso é necessário o interesse da população ou a atenção da Secretaria da Saúde, já que essas academias são para a melhoria da saúde dos idosos e de outros grupos de pessoas que se interessam pela prática de exercícios ao ar livre.

Para suprir a falta de profissionais, nas academias ao ar livre existem instruções sobre para qual parte do corpo o exercício é recomendado e para que serve cada aparelho. Algumas públicas, em parceria com empresas privadas, até possuem instruções de quais alongamentos fazer antes e depois dos exercícios físicos, como a academia ao ar livre que fica na praça Dr. Fritz Müller, em frente à empresa Senior, no bairro Victor Konder.

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As academias ao ar livre possuem explicações sobre para que serve cada aparelho, mas não explicam como fazer os exercícios de forma correta. (Foto: Adrielle Demarchi).

No estado são poucos os profissionais efetivos que orientam os praticantes. O estudo de monitoramento realizado em 2015 não informa a quantidade de profissionais atuantes, apenas registra que 62% deles são efetivos. Outros 58% são contratados temporariamente e 27% são cedidos por outra secretaria, caso de Blumenau, onde os profissionais são cedidos pela Secretaria da Educação. A maior dificuldade encontrada pelas secretarias do Estado está na contratação desses profissionais, que segundo o monitoramento somam 56% do total de dificuldades.

Roseli Firmino vai todos os dias à academia, quando o tempo permite. Ela gosta de se exercitar para melhorar a saúde, o bem estar e a disposição. Por sorte nunca teve alguma lesão durante os exercícios. Sônia, por sua vez, conta que se lesionou uma vez por forçar muito o exercício. As duas nunca tiveram orientações sobre como utilizar os aparelhos na academia do Parque Ramiro Ruediger.

A fisioterapeuta Fernanda Zanol atenta para a importância da prescrição e acompanhamento de um profissional habilitado. “É ele que vai orientar qual a melhor atividade física de acordo com as necessidades de cada pessoa” ressalta. Os exercícios não devem ser apenas realizados, mas também bem executados, com qualidade nos movimentos e evitando sobrecargas. Para ela é preciso delimitar a frequência de treinamento, a velocidade de execução, a amplitude de movimento e a boa postura para se ter sucesso na atividade praticada.

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Muitos aliam os exercícios nos aparelhos com caminhadas no Parque Ramiro Ruediger. (Foto: Adrielle Demarchi).

Os idosos, quando não possuem essas orientações, ficam mais suscetíveis a quedas e lesões. Talita explica que eles não possuem mais a mesma consciência corporal e coordenação da juventude. Os riscos podem ser os mais diversos, como dores, estiramentos musculares, tendinites, lesão por stress, piora da postura, entre outros citados por Fernanda. E se essa pessoa se lesionar e voltar a se exercitar, possui grandes chances de se machucar novamente e até pior a lesão que já possui.

Hoje a grande luta entre a justiça e os profissionais da saúde é que se tenha esse acompanhamento, mas as prefeituras não dão conta dos custos que vêm com a contratação. O jeito é encontrar alternativas privadas e investir em parcerias com a comunidade. O importante é pensar sempre na comunidade e continuar com o projeto da FMD para a construção de mais academias ao ar livre na cidade.

Veja se em Blumenau existe alguma academia ao ar livre perto da sua casa:

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