Política

Escola de luta: O ambiente e as motivações das ocupações em Santa Catarina

Depois mais de mil escolas ocupadas por todo o Brasil, secundaristas de Santa Catarina decidiram aderir o movimento que luta contra a PEC 241 e as mudanças no Ensino Médio propostos pelo Governo Temer

Depois mais de mil escolas ocupadas por todo o Brasil, secundaristas de Santa Catarina decidiram aderir o movimento que luta contra a PEC 241 e as mudanças no Ensino Médio propostos pelo Governo Temer

Texto: Daniel Schiavoni, Maria Zucco e Thomas Falconi

Instituto Federal Catarinense de Araquari. Debaixo do letreiro que identifica o lugar, uma faixa avisa que a escola está ocupada. Ao contrário do que parte das publicações sobre o movimento dá a entender, o lugar estava impecável: mesmo com pelo menos uma centena de alunos presentes na escola na hora em que visitamos o prédio, a limpeza e boa conservação eram evidentes. Antes de começar a entrevista, alguns alunos notavam que a lâmpada fosforescente do pátio precisava ser trocada. Estava começando a piscar. Dava pra ouvir algumas conversas à medida que entrava no lugar da entrevista. Alguns falavam de política, outros conversavam sobre amenidades. Todos pareciam perfeitamente confortáveis em andar pelos corredores da escola. O lugar pertence a eles.

Por todo lado, os cartazes mostram os alvos da luta: a PEC 241 e a MP 746. Grenda Menezes, aluna secundarista, contou que o tema já era comentado pelos estudantes muito antes da ocupação. “Quando surgiu a PEC, todo mundo começou a falar sobre isso na escola. O pessoal falava na aula e tal”. Grenda conta que uma palestra organizada pelo Sindicato dos Servidores Públicos ajudou a esclarecer o que significavam essas siglas que afetariam diretamente a vida os estudantes. “Nós organizamos uma assembleia para debater. Convidamos todos os estudantes do Ensino Médio e reunimos cerca de 200 alunos. Na Assembleia, nós fizemos slides para explicar o que era a PEC e a MP, assistimos o documentário A Revolta dos Pinguins (que mostra a luta dos estudantes secundaristas no Chile) e debatemos qual seria a melhor maneira de protestarmos”. Ao fim da assembleia, votaram pela ocupação.

Alunos votam pela manutenção da ocupação (foto: Erika Amaral)
Alunos votam pela manutenção da ocupação (Foto: Erika Amaral)

Os dois assuntos são complexos e delicados. Enquanto a PEC 241 (apelidada de “PEC do fim do mundo” por seus opositores) propõe um teto para os investimentos públicos nos próximos 20 anos, podendo significar cortes profundos na Educação, a MP 746 impõe uma mudança brusca na forma como se organiza o Ensino Médio no Brasil.

No começo da ocupação, os estudantes enfrentaram alguns conflitos. O instituto envolve não apenas as salas de ensino médio, mas também graduações e licenciaturas. Para evitar que tanto os alunos quanto funcionários saíssem prejudicados, os ocupantes negociaram com a gestão do IFC as condições para a ocupação “Os servidores têm acesso às suas salas. Os alunos da fábrica de software, que são bolsistas, também continuam com suas atividades, uma vez que dependem das bolsas. A gente não queria prejudicar ninguém”, explica Grenda. Ela conta que até alguns pais foram contra a ocupação no começo. “No primeiro dia, alguns pais vieram reclamar. Queriam que os filhos tivessem aula normal. Mas nós estamos abertos a todos, prontos para conversar e mostrar o porquê somos contra e a importância disso”.

No IFC de Araquari, alunos das graduações também aderiram à ocupação. Apesar de não terem paralisado as aulas, alguns centros acadêmicos declararam apoio. A aluna de Medicina Veterinária, Erika Amaral, conta que os universitários não possuem a mesma clareza sobre as medidas que despertaram a luta dos secundaristas. “Perto do ensino médio, a gente estava engatinhando na questão de entender o que era a PEC”. Ela explica que os alunos da graduação começaram a organizar reuniões em seus cursos para debater essas pautas e que, diante disso, parte dos estudantes resolveu aderir à ocupação. Para Erika, ocupar as escolas é a única forma de fazer a voz do movimento estudantil, que carece de representatividade, ser ouvida. “Em nenhum momento nenhum partido ou político nos procurou. Acho, inclusive, que esse é um dos principais motivos das ocupações. Não fomos procurados por ninguém e não acho que seremos”, afirma.

Mesmo debaixo de chuva, os alunos faziam fila para votar pela ocupação. (foto: Erika Amaral)
Mesmo debaixo de chuva, os alunos faziam fila para votar pela ocupação. (foto: Erika Amaral)

A falta de diálogo e clareza sobre os rumos propostos para a educação no Brasil, contidos na MP 746, revolta também quem trabalha e pesquisa na área da Educação. Para Gicele Cervi, professora e coordenadora do Grupo de Pesquisa Políticas de Educação na Contemporaneidade da FURB, a Medida Provisória 746 passa por cima de todo um debate sobre o sistema de ensino no país. “O Brasil perde o movimento da história dos últimos 20 anos. Perde o acúmulo de discussão, a participação na tomada de decisão, a possibilidade de enfrentar com honestidade e dignidade os problemas das escolas brasileiras”. Além de apontar autoritarismo no ato de propor uma mudança tão grande na educação por meio de uma medida provisória, Gicele denuncia uma desprofissionalização acentuada que seria gerada pelo fim da obrigatoriedade da licenciatura para os professores. Apesar de tudo, ela tem esperança na luta dos alunos. “Gosto da força e da coragem e parece que muitos jovens brasileiros estão vivendo isso. Fico muito orgulhosa por aqueles que lutam. Vejo que é uma reação justa e apoio. Que cresça a ocupação, o debate e a luta”.

Enquanto saía do IFC de Araquari, alguns alunos filmavam um colega fazendo uma passagem de vídeo aos moldes do telejornalismo. Estavam produzindo um documentário sobre a ocupação. Os estudantes podem até perder a luta contra a PEC e a MP 746, mas já asseguraram a maior das vitórias: eles são os protagonistas da sua própria batalha.

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