Economia

Aposentados retornam ao mercado de trabalho por necessidade financeira

Pesquisa aponta que muitos aposentados voltam a trabalhar para ter uma renda extra, pois o salário da aposentadoria serve apenas para necessidades básicas. Sem o dinheiro complementar, sonho de adquirir bens fica de lado.

Pesquisa aponta que muitos aposentados voltam a trabalhar para ter uma renda extra, pois o salário da aposentadoria serve apenas para necessidades básicas. Sem o dinheiro complementar, sonho de adquirir bens fica de lado. 

Texto: Adrielle Demarchi, Ana Carolina Nasato e Natália Rocha

Funcionária de hotel, agência de viagens, supermercado e professora. Foram essas as funções que Dalva Terezinha Rocha, de 60 anos, exerceu durante os 31 anos que trabalhou, até se aposentar aos 56. De todos os cargos que teve, o que tomou como profissão foi o de professora, atuando nas redes públicas das cidades de Balneário Camboriú e Camboriú. Em 2000, começou a fazer o curso de Pedagogia. Quatro anos depois estava formada, mas já trabalhava na área da educação desde o começo da faculdade. Dalva fez, ainda, duas especializações, uma em Educação Especial e outra em Educação Infantil. Em 2012, com idade e tempo de serviço de acordo com as regras da previdência da época, se aposentou. Esse fato, no entanto, para Dalva não foi sinônimo de descanso, como é para muitos, pois ela ainda queria adquirir alguns bens, e com apenas o salário de aposentada não conseguiria. Já em 2013, ela esperou abrir chamada pública para professora, em Balneário Camboriú, e está trabalhando até hoje em caráter temporário, sem assinar a carteira.

Uma pesquisa feita pelo Serviço de Proteção ao Crédito (SPC Brasil) e Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL), em setembro deste ano, mostrou que um número elevado de brasileiros continua trabalhando mesmo depois de se aposentar. O principal fator que leva os aposentados a tomarem essa decisão é a necessidade financeira. De acordo com o levantamento, 46,95% das pessoas dizem que a principal justificativa é o complemento de renda, porque o salário da aposentadoria não é suficiente para pagar contas.

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Fonte: Pesquisa SPC e CNDL/Infográfico: Natália Rocha

Dilva da Silva, de 61 anos, voltou a trabalhar logo que se aposentou para poder acrescentar o salário à aposentadoria, mas nunca assinou a carteira novamente. Por 25 anos, ela foi funcionária de uma tecelagem em Rio do Sul. Na época, segundo ela, esse era o tempo de contribuição necessário para poder pedir a aposentadoria, devido à insalubridade da função, tanto que Dilva se aposentou aos 39 anos. Ela diz que como era muito nova não poderia ficar em casa. O dono da tecelagem até queria que ela continuasse trabalhando lá, mas ela saiu de Rio do Sul e foi morar em Itapema. Na nova cidade começou a trabalhar no supermercado do irmão para ganhar uma renda extra. Durante três anos ela atuou em várias funções, de repositora a boca de caixa.

Depois que saiu do mercado, Dilva começou a fazer faxinas. Até o ano passado ela trabalhava todos os dias. Neste ano ela diminuiu a carga de trabalho e tem apenas dois clientes: uma senhora, para quem limpa a casa uma vez por semana, com o salário de R$100 por faxina, e um senhor que mora em Passo Fundo e tem um apartamento em Itapema. Dilva é responsável por manter a casa limpa e arejada durante o ano e fazer uma faxina mais geral durante a temporada para que o dono possa alugá-la. Deste senhor ela recebe R$ 200,00 por mês e R$ 1000,00 no final do ano.

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Quando se aposentou, Dilva descobriu um câncer, por isso, já que tinha tempo de contribuição suficiente, não quis continuar trabalhando na tecelagem. (Foto: Acervo pessoal)

Com a renda extra, Dilva conseguiu comprar uma casa e, aos poucos, está adquirindo e construindo algumas coisas que faltam para a nova residência, como portão, muro e pintura. Ela conta que se não trabalhasse hoje jamais conseguiria comprar a casa ou qualquer outro bem, pois como o salário que recebe da aposentadoria não aumenta conforme os anos, sua renda fica defasada. A aposentadoria, hoje, é usada para pagar contas básicas como luz, água, telefone, comida e, uma vez ou outra, uma roupa nova. A mesma situação vive Dalva. Como continuou no mercado de trabalho, conseguiu comprar um carro e reformar a casa. Agora ela quer trabalhar até o ano que vem para poder fazer uma cirurgia e um tratamento dentário.

Como aponta a pesquisa feita pelo SPC e CNDL, a maioria dos aposentados precisa de uma renda extra para arcar com outras despesas além das comuns. O economista James Piazza recomenda que as pessoas invistam em poupança, previdência privada ou adquiram algum imóvel que possa alugar no futuro. Segundo ele, muitos jovens não se preparam para a aposentadoria, época em que existem mais gastos tanto com medicamentos, por exemplo, como com água e luz, pois a pessoa passa a ficar mais tempo em casa. Dalva construiu no mesmo terreno onde mora duas casas para alugar. Apesar de já ter essa renda extra, ela justifica que continua trabalhando porque quando se aposentou seu salário diminuiu mais do que a metade, e se não tivesse a renda dos alugueis não pediria a aposentadoria porque não iria conseguir se sustentar.

Uma proposta de reforma na Previdência Social  será enviada, em breve, para votação no Congresso Nacional. Sabe-se que o Governo já definiu fixar idade mínima de 65 anos para requerer a aposentadoria, tanto no setor público quanto no privado. Serão incluídos nas novas regras da reforma homens com menos de 50 anos e mulheres com idade abaixo de 45. James concorda que a reforma é necessária por acreditar que a Previdência está falida. Ele estima que em 2060, se o Brasil continuar com a mesma expectativa de vida, será um país idoso e com menos contribuintes, porque os jovens, que sustentariam o regime de hoje, diminuirão. Centrais sindicais como a Central Única dos Trabalhadores (CUT), por outro lado, são contra as novas regras. Em uma cartilha organizada pela CUT intitulada “Previdência: Seu direito está em risco”, a Central afirma que a Previdência não está falida, pelo contrário.

Como as possíveis mudanças na aposentadoria não afetam Dalva e Dilva, o que lhes resta, agora, é planejar os anos futuros de descanso, pois as duas não pretendem trabalhar por muito mais tempo. Dalva diz que quando parar de trabalhar de vez quer viver para ela.

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