Comportamento

Bem-vindo aos 30: os desafios e os sonhos dos novos “trintões”

Os recém chegados à terceira década de vida contam os desafios desta nova fase da vida, desejos e experiências de quem nunca parou de sonhar

Os recém chegados à terceira década de vida contam os desafios desta nova fase, além dos desejos e experiências de quem nunca parou de sonhar

Texto: Pedro Henrique Homrich

“Não me arrependo de nenhum erro cometido, pois se não fossem eles jamais teria aprendido o que é errar”. Esta frase foi tirada de um dos filmes mais queridos das tardes brasileiras, De Repente 30, que conta a história de uma jovem de 13 anos que, após fazer um pedido, acorda com 30 anos de idade e vê as responsabilidades e modo de vida mudarem drasticamente de um dia para o outro. Não desta mesma forma, claro, porém esta história se mostra familiar para muitos jovens, que não veem o tempo passar e, sem perceber, precisam encarar desafios e frustrações da vida adulta.

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Quando o desejo de Jenna se realiza, a garota de 13 anos acorda 17 anos mais velha, e precisa compreender tudo que aconteceu em sua vida. (Foto: Reprodução)

Quem nunca se deparou com aqueles questionamentos aos 20 e poucos anos, sobre quais os objetivos, planos e sonhos a serem realizados até a chegada da terceira década de vida. Existe até um nome conhecido para esta fase, a chamada “Síndrome dos 20 e tantos anos”. Fase de transição, em que o jovem busca realizar todos os sonhos e desejos pendentes até os 30 anos, quando almeja a completa estabilidade emocional e financeira.

Existem casos que fogem um pouco deste pensamento, tanto por vontade própria quanto por ironia do destino. Muitos “trintões”, ao preferir o conforto e segurança da casa dos pais, passam a fazer parte da conhecida “geração canguru”. A última pesquisa realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostra que 25%, ou seja, um em cada quatro jovens de 25 a 34 anos, ainda moram com os pais. Além do comodismo, diversos fatores como apego aos familiares, custo habitacional e até desemprego levam os jovens a permanecerem na casa de seus pais. Porém, o mais curioso é que em diversas situações isso acontece de forma voluntária, considerando que muitos jovens possuem renda fixa e condições para se manterem sozinhos.

É o caso da jornalista Amanda Weber, que completou 30 anos recentemente. Casada há dois anos e bem sucedida em sua profissão, vive com seus pais e afirma que vê mais pontos positivos do que negativos nisso. “Eu penso que nós nunca ficamos totalmente independente dos pais. Até hoje eles me ajudam muito, mesmo correndo atrás do meu próprio dinheiro desde os 16. O único ponto negativo que existe em morar com eles é a questão da privacidade, mas quanto a isso são bem tranquilos. Minha mãe entende a situação porque ela passou pelo mesmo. Ela também tinha seus pais morando junto quando casaram, e como trabalhava o dia inteiro, era minha vó que cuidava da casa. Além disso ela gosta de ter a gente por perto”, ressalta Amanda.

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A jornalista conta que nos seus 20 e poucos anos de idade vivia mais do que sonhava. “Meu lema era: Deixa a vida me levar, vida leva eu. Claro que como todos os outros jovens tinha o sonho de viajar para fora, algo que consegui realizar. Além disso me imaginava casada até os 30 e com a carreira estabelecida. Ambas as coisas se concretizaram. Tudo isso só reforça o que meu pai Normélio sempre diz: temos que subir escadas na vida”, conclui Amanda.

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Amanda (à direita), seu irmão e seu pai Normélio (Foto: Arquivo pessoal)

Quem também começou a trabalhar cedo foi a empresária Regiani Rezini Bastiani, que também comemorou seu 30º aniversário este mês. “Desde meus 16 anos já trabalhava fora e com meu salário comprava tudo o que eu precisava. Fiz três semestres de faculdade, minha carteira de motorista, tudo com o dinheiro conquistado e sem ajuda dos meus pais. Porém, dependia deles para ter casa, comida, roupa lavada. Então só me tornei independente deles depois que casei, aos 24 anos”.

Regiani conta que sonhava em ter um negócio próprio, ser livre de horários, de chefes. Ela e seu marido montaram uma distribuidora que durou quatro anos e meio. “Sonhávamos em expandir nosso negócio, mas este ano, recebemos proposta melhor e mudamos nosso sonho. Hoje estamos iniciando outro ciclo, mais tranquilo, com menos ambição, porém mais qualidade de vida. Temos mais tempo livre pra aproveitar nossa filha de 2 anos. Aliás, ela também foi um sonho meu que realizei nesse período”.

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Regiani e sua família (Foto: Arquivo pessoal)

A funcionária pública Aline Maia encarou cedo as dificuldades de se sustentar por conta própria. Com 19 anos, foi morar com seu namorado na época, trabalhava para pagar tanto a faculdade quanto as contas de casa. “Foi uma época muito difícil, era necessário contar cada centavo. Apesar do relacionamento não ter dado certo, o choque de realidade me fez dar mais valor às coisas, amadurecer. Após um período morando sozinha, voltei a morar com minha mãe e hoje sou muito feliz por poder ajudá-la e claro, sabendo que posso contar com ela também”.

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A jovem se vê economicamente estabilizada ao lado da mãe (Foto: Arquivo pessoal)

Aline afirma que os jovens são educados a escolherem sua profissão cedo demais. “Se eu pudesse voltar no tempo, teria esperado para decidir com mais calma. Meu único sonho era me formar, e mesmo que não tenha sido a profissão que eu idealizava aos 20, consegui dar este passo. Penso que não devemos nos basear em planos rígidos, precisamos ser mais livres para fazer nossas escolhas. As pessoas acham que com 30 já estão velhas, algo que não acontece, pois temos muito ainda a viver e conquistar”.

A afirmação de Aline é explicada pela psicóloga e também professora da Universidade do Vale do Itajaí (Univali) Marina Corbetta Benedet. “Com o passar do tempo mudamos nosso pensamento, perspectiva, agregamos conhecimentos, adquirimos experiência e muitos desses objetivos permanecem os mesmos. Quando isso acontece, perde-se a energia, a força e a vontade de buscá-los posteriormente. O que era almejado aos 20 e poucos anos pode perder totalmente o sentido aos 30”.

A psicóloga diz que o bloqueio ao autoconhecimento também pode afetar na busca pelas reais necessidades das pessoas. “Nós vivemos em um mundo em que se evita o contato consigo mesmo, a busca pelo próprio entendimento. As pessoas tendem a achar que o consumo supre tais necessidades justamente por não haver um exercício de reflexão sobre si mesmo, do que realmente é importante para cada um. Isso é normal na fase dos 20, onde os jovens olham mais para o mundo do que para si. Quando chega os 30 é que se percebe o que foi  conquistado e descobre-se que aquilo muitas vezes não traz a completa felicidade”.

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Psicóloga Marina Corbetta Benedet (Foto: Arquivo pessoal)

Em outra perspectiva, afirma que aos 20 existe uma demanda sobre a pessoa, do que se espera ou acha que ela precisa. “É uma questão cultural imposta nesta fase, sobre qual seria o mundo perfeito para estes jovens. Ao comprar a ideia, podem se frustrar no futuro por não dar conta de tantos projetos ou por perceber que não era realmente o seu desejo, mas sim algo imposto por outras pessoas”.

A psicóloga conclui que também vivemos num mundo que exige um padrão de sucesso aos cidadãos. “Por muitos já considerarem velha uma pessoa de 60 anos e a expectativa de vida estar entre os 70 e 80, os 30 seriam praticamente o meio do caminho. Nesta idade se deparam com o pensamento do que eles vão fazer e quanto tempo têm de sobra para alcançar e construir seus objetivos daqui pra frente”.

Amanda, Regiani e Aline não pararam de sonhar. Novos objetivos e sonhos são almejados com esta nova década de vida iniciada. “O que espero para os próximos anos é ter minha própria casa, ser mãe e continuar a crescer na carreira, conquistando cada vez mais espaço na minha profissão”, afirma a jornalista. Regiani pretente viajar muito, fazer cruzeiros e conhecer a Disney. “Quero dar um bom estudo pra minha filha, fazer curso de inglês e colocar próteses de silicone. Resumindo, quero desfrutar da vida, conhecer lugares, me divertir com minha família. Não penso em adquirir bens materiais, quero ganhar o suficiente pra viver bem”.

Aline também planeja casar e ter filhos. “Acho que na questão da carreira, o dinheiro é apenas conseqüência de um bom trabalho, quando ele é feito com amor, ética e determinação. Quero sustentar minha família de forma confortável e dar aos meus filhos uma educação com o poder de transformar o mundo. Além disso, a auto-estima é minha maior aliada para que eu chegue aos 40 me sentindo tão jovem quando hoje aos 30. O envelhecimento físico é apenas uma lembrança de que devemos cuidar mais da alma do que do corpo em si”.

Diferente da personagem Jenna Rink (Jennifer Garner), de De Repente 30, que viu sua rotina e modo de vida mudarem de um dia pro outro, o amadurecimento do ser humano deve acontecer de forma gradativa e livre. Pode ser que os planos de Amanda e Aline mudem de direção em 10 anos, assim como ocorreu desde os 20, porém, todas as experiências devem ser tratadas como aprendizado. Parafraseando o senhor Normélio, pai de Amanda, devemos subir escadas na vida, mas acima disso, lutarmos para alcançar nossos reais objetivos.

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