Política

Memórias de uma guerra quase esquecida

Os 84 anos da Revolução Constitucionalista de 1932 não são lembranças recorrentes entre os catarinenses. Mas para uma família de São Paulo, as histórias de um ex-combatente continuam vivas.

Texto: Daniel Schiavoni

Desde que me entendo por gente, meu pai guarda uma maleta preta em cima do armário. De tempos em tempos, ele pegava a valise, colocava em cima da mesa da cozinha e esparramava as fotografias e papéis que guardava lá dentro. Eram os objetos dos meus avós, a quem nunca conheci por um capricho da vida. Entre tantos documentos, uma cadernetinha era a que mais me chamava a atenção: o diário de guerra de meu avô.

Nem toda gente se lembra, mas em 1932 o Estado de São Paulo se levantou em armas contra o governo Getúlio Vargas, para que fosse convocada uma nova constituinte. Foi a chamada Revolução Constitucionalista, o maior conflito militar brasileiro do século XX, no qual meu avô, Alfredo Schiavoni, tomou parte. “Para a maior parte do Brasil, 32 foi só uma revolta sufocada rapidamente pelo governo Vargas. No entanto, teve uma importância enorme para São Paulo e para a formação da identidade paulista”, contextualiza a historiadora Denise Cardoso.

Denise explica que, apesar dos ideais republicanos, o movimento de 32 tinha um caráter reacionário. “Havia dois grupos diferentes ali: um pessoal mais republicano, que buscava uma constituição para frear as ambições ditatoriais de Vargas, e outro mais conservador, das elites paulistas que desejavam recobrar o poder que tinham na chamada ‘República do Café com Leite’”. O documentário “32, a Guerra Civil”, expõe ainda que existiam grupos que defendiam até mesmo o separatismo de São Paulo em relação ao Brasil.

Para o meu avô, a guerra era tudo o que ele não precisava naquele momento. “Na época, a mãe dele estava doente. Os irmãos todos já não moravam em São Paulo, e ela dependia dele”, revela Vicente, meu pai. Mas o dever chamava e, seja por acreditar na causa paulista ou por honrar a farda que vestia, Alfredo embarcou no trem para Ribeirão Preto com colegas de exército e voluntários que nunca tinham dado um tiro sequer.

Os paulistas estavam crentes de que poderiam vencer a batalha contra Getúlio. De acordo com o Centro de Pesquisa e Documentação da História Contemporânea do Brasil (CPDOC), São Paulo esperava uma adesão massiva dos estados do Rio Grande do Sul, Minas Gerais e Mato Grosso, o que não aconteceu.

Mesmo sem o apoio dos demais estados, o engajamento popular no esforço de guerra foi impressionante. “A população começou uma campanha chamada ‘Doe ouro por São Paulo’, em que as pessoas davam suas joias e alianças para comprar armamentos e comida para os soldados”, comenta Denise. As mulheres, impedidas de lutar, trabalhavam na confecção de fardas e na assistência médica dos feridos.

Apesar da empolgação, o esforço foi em vão: os paulistas, mal-equipados e em menor número, acabaram cercados pelas forças nacionais e se renderam no dia 2 de outubro de 1932. São Paulo contabilizou pouco mais de 2 mil mortos, enquanto as forças getulistas tiveram 1050 baixas. Alfredo nunca aceitou bem essa derrota. “Ah, ele não gostava de falar sobre isso. Achava vergonhosa a forma como tudo acabou”, recorda Vicente.

Mas nem Alfredo e nem os paulistas sairiam completamente derrotados dali. Meu avô foi preso e levado para a cidade de Monte Santo de Minas, no sul de Minas Gerais. Lá, ele passou cerca de dois meses encarcerado, recebendo a comida levada por voluntários locais. Uma das voluntárias era Durvalina, com quem se casou e que viria a ser minha avó.

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Durvalina e Alfredo (Acervo pessoal)

São Paulo não foi capaz de derrubar o getulismo, mas conseguiu a tão sonhada constituinte pouco tempo depois. “Em 1933, o Getúlio convocou novas eleições e, em 34, foi promulgada a nova constituição. São Paulo também voltou a ter um governador paulista e civil, uma das exigências dos revoltosos”, conclui Denise.

Até hoje o Estado de São Paulo carrega lembranças do conflito. O Obelisco Mausoléu aos Heróis de 32, situado numa das entradas do Parque do Ibirapuera, deixa cravada em pedra a sigla M.M.D.C. – iniciais dos nomes de Martins, Miragaia, Dráusio e Camargo, estudantes mortos no começo das tensões – e as cinzas de 634 soldados paulistas. Enquanto isso, as histórias dos outros milhares de Alfredos que viveram essa época perdem-se na oralidade. Ou então escondem-se em maletas pretas guardadas em cima de armários.

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