Meio Ambiente

Ressaca marítima: o encontro das marés astronômica e meteorológica

Entenda como se formam as marés e em que situações as ações humanas podem influenciar na ocorrência de alagamentos, como os vistos no litoral norte catarinense no mês de setembro.

Entenda como se formam as marés e de que forma as ações humanas podem influenciar na ocorrência de alagamentos, como os vistos no litoral norte catarinense no mês de setembro.

Texto: Adrielle Demarchi, Ana Carolina Nasato e Natália Rocha

A lua, o sol e a Terra. Esses três astros em conjunto, mesmo estando tão distantes do mar, são os responsáveis pela formação das marés. A lua se move em torno da Terra, em uma órbita quase circular. Em alguns momentos durante esse movimento, ela está mais próxima da Terra, em outros mais, distante. Segundo a Lei da Atração Gravitacional de Newton, a Terra está constantemente atraindo o sol e a lua e sendo atraída por eles. Essa força de atração é a mesma tanto sobre a parte sólida, quanto sobre as partes líquida e gasosa da Terra. Ao longo do dia, em um determinado horário, a atração da lua “puxa” a Terra em sua direção, fazendo com que a massa líquida dos oceanos se mova também em direção a ela. Temos, então, a maré. Quem explica esses movimentos, que são vistos apenas como reflexos nas ondas do mar, é o meteorologista Dirceu Luís Severo.

De acordo com o meteorologista e professor da Univali Sergey de Araújo, todos os dias formam-se duas marés baixa-mar e duas preamar, ou seja, duas marés baixas e duas altas ou cheias. O efeito da maré astronômica, verdadeiro nome da atração gravitacional entre lua, sol e Terra, depende do tipo de lua daquele dia. Quando há as luas nova ou cheia, a atração da lua combinando com o sol é maior – consequentemente, as marés são mais altas, chamadas de maré de sizígia. Quando há as luas minguante ou crescente, a atração do sol e da lua é menor, então as marés são mais baixas, chamadas de quadratura, como mostram as imagens.

No mês de setembro, cidades do litoral catarinense, como Balneário Camboriú, Itajaí, Itapema e Florianópolis sofreram com alagamentos. Mas ao contrário do que se pode pensar, isso não foi consequência apenas da maré astronômica, até porque nessa região o regime de marés é do tipo micromarés, que são oscilações menores de dois metros. De acordo com Sergey, nessas cidades, as menores oscilações ficam em torno de 10cm, e as maiores em torno de 1,20m.

Os alagamentos vistos em alguns municípios catarinenses são causados pela junção de dois acontecimentos: a maré astronômica, principalmente a de sizígia, e a maré meteorológica, resultando na ressaca, que são, de fato, os alagamentos. A maré meteorológica está associada a passagens de sistemas frontais.

No caso do litoral catarinense, as chamadas frentes frias e seus núcleos de baixa pressão, que podem ser ciclones, por exemplo. “No Hemisfério Sul, os ventos dos ciclones giram no sentido horário. Então, quando um ciclone se forma próximo da costa os ventos associados a ele tendem a ‘empurrar’ a água do mar na direção do litoral. Se um ciclone ocorrer junto com o período de maré alta, a formação de ressacas é muito provável e mais intensa”, explica Dirceu. Na semana dos alagamentos, um ciclone extratropical havia passado pela Argentina e pelo Uruguai, causando impactos em Santa Catarina.

Dona Ilda Gomes, proprietária de uma das inúmeras barraquinhas de milho e churros da Avenida Atlântica, em Balneário Camboriú, estava trabalhando na hora da ressaca e define o fenômeno como “apavorante”. Ela conta que desde a manhã daquela quinta-feira, 15 de setembro, a água do mar já invadia a calçada.

Quando a avenida e as ruas transversais ficaram realmente alagadas, dona Ilda não sabia se ficava por lá cuidando da barraca ou se fechava e ia embora. “[A água] começou a subir rapidamente. Tinha muita espuma, muita sujeira, muitos galhos. Eu fiquei apavorada”, relata. Como não havia o que fazer contra a força da natureza, ela decidiu ir para casa. “Para trancar a barraca eu tive que entrar na espuma que vinha quase até o joelho. Uma espuma amarela. Acho que sal misturado com areia”. Por volta das 16h ela voltou ao local e a situação ainda era a mesma. No ponto de dona Ilda a água inundou tudo. As cadeiras de praia que ela aluga também ficaram cheias de areia.

Depois do episódio da maré, a comerciante passou o dia todo limpando a barraca. Agora, qualquer movimento diferente da maré já deixa dona Ilda em alerta. Ela fica cuidando, medindo o nível da água, o tamanho da faixa de areia. Como trabalha há apenas três meses na praia, ela se assustou com o que viu e tem medo que aconteça novamente.

O professor Sergey esclarece que a possibilidade da criação de ciclones – sistemas de baixa pressão associados à maré meteorológica que junto à maré astronômica formam as ressacas – pode aumentar com o aquecimento dos oceanos. A oceanógrafa Camila Marin explica que o aquecimento dos oceanos pode ocorrer de maneira natural, mas também pode ser incentivado em decorrência das ações humanas. “O homem tem alterado a temperatura dos oceanos através dos mesmos processos de aquecimento da atmosfera, como o aumento da emissão dos gases de efeito estufa e as mudanças no uso do solo”, observa. Ela diz que os gases do efeito estufa que aquecem a atmosfera retêm o calor que seria dissipado, aumentando a temperatura da Terra. “Assim, aumenta a temperatura do oceano também”, esclarece.

Sergey de Araújo lembra de outros fatores humanos que podem influenciar nos alagamentos causados pelas ressacas. “Quando deixamos as praias desprotegidas, retirando dunas e restingas, os danos são maiores. Obras de engenharia na orla mal feitas também aumentam o grau do impacto”, alerta.

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O efeito estufa: o fenômeno permite a existência de vida na Terra. Segundo alguns cientistas, as atividades humanas estariam afetando seu ciclo natural (Crédito: Revista Guia do Estudante)

 

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