Arte e Cultura

Escola João Boos abre as portas para o Ensino Médio Inovador

A educação lida com pessoas, por isso deve se inovar constantemente. A diretora Rosinei, que está há 20 anos trabalhando com a educação acredita que o papel dos educadores é apresentar as ferramentas para os acadêmicos, mostrar as opções e trabalhar de forma mais humanitária. Ela descrê que utilizar o ensino médio para preparação ao vestibular seja saudável, pois como medir a capacidade intelectual das pessoas com uma única prova? A qual nem é específica ao curso almejado. Assim é preciso estipular a um aluno que ama matemática, todavia não consegue escrever com domínio que é necessário redigir um excelente texto, caso contrário não conseguirá a vaga em exatas.

Projeto criado pelo Ministério de Educação (MEC) chegou ao município de Guabiruba (SC) há quatro anos, mas ainda precisa de ajustes.

Texto: Beatriz Ferreira

A educação lida com pessoas, por isso deve se renovar constantemente. A diretora da Escola de Educação Básica Professor João Boos, localizado em Guabiruba, Rosinei Ana Cugik dos Reis, acredita que o papel dos educadores é apresentar as ferramentas para os acadêmicos, mostrar as opções e trabalhar de maneira mais humanitária. A diretora, que atua na área da Educação há 20 anos, afirma que utilizar o ensino médio como preparação para o vestibular não seja saudável. “Como medir a capacidade intelectual das pessoas com uma única prova, a qual nem é específica para o curso almejado?”, questiona. Ela exemplifica: o aluno com maior facilidade em matemática, porém com dificuldade em dissertação, torna-se obrigado a redigir um excelente texto, caso contrário não conseguirá uma vaga na universidade.   

O Ministério da Educação (MEC) criou o programa Ensino Médio Inovador (EMI) em 2009, com a proposta de tornar o currículo mais dinâmico, a partir dos oito macrocampos: Cultura Corporal; Cultura e Artes; Cultura Digital; Acompanhamento Pedagógico; Iniciação Científica e Pesquisa;  Comunicação e uso de Mídias; Participação Estudantil e  Leitura e Letramento. Foram contempladas algumas escolas, entre elas a Escola João Boos, onde o projeto foi iniciado em 2012, logo após a municipalização do ensino fundamental em Guabiruba. Desde então, a escola trabalha apenas com o ensino médio. Como o EMI é opcional, o ensino médio regular também é ofertado.

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Alunos do ensino médio fazem varal de poesia e textos opinativos

O diferencial são as disciplinas básicas, Português e Matemática, com carga horária mais extensa; cinco aulas de Inglês, que são mais interativas, incluindo conversação; projetos acadêmicos semestrais, como a confecção da cápsula do tempo, com suas perspectivas de futuro; almoço nos dias de contraturno, visitas, palestras, debates e viagens de estudo. Atualmente existem três turmas do EMI, duas de primeiro e uma de terceiro ano. As aulas ocorrem de segunda a sexta no período matutino e em duas tardes definidas pela escola. 

O projeto tem verba destinada à realização de suas atividades, o que funciona apenas na teoria. O professor de Língua Portuguesa, André de Melo afirma que neste ano houve ainda mais dificuldades, pois a escola não recebeu até agora a verba para projetos e viagens de estudo. A diretora Rosinei, que esteve à frente do projeto no ano de 2012 e novamente em 2016, diz não ter visto a entrada de caixa. Ela informa que a verba de 2012 entrou em 2013 e o valor referente a 2013 chegou em 2014. Depois disso, não houve mais apoio financeiro do governo, conforme havia sido prometido. No final do mês de setembro o Ministério da Educação anunciou que em 2017 o orçamento para o Ensino Inovador será de 300 milhões. Segue áudio referente à notícia:

Conteúdo na íntegra: http://portal.mec.gov.br/index.php?option=com_content&view=article&id=39771


Semanalmente são realizadas reuniões para planejar as aulas do EMI. O curso inclui sessões de cinema, com filmes previamente selecionados pelos professores, e o constante acompanhamento de uma orientadora pedagógica, que faz a mediação com os pais dos alunos. Neste semestre os acadêmicos irão confeccionar a cápsula do tempo, com a seguinte proposta “O que serei em 2020?”. De acordo com a diretora, o objetivo é incentivar os alunos a trabalhar suas perspectivas de vida.

Taiane está no primeiro ano do ensino médio e sonha em cursar Psicologia. Ela resolveu ingressar no Ensino Inovador por causa das aulas extras de conversação em inglês e música. Eloísa, que também está no primeiro ano, não vê diferença entre o ensino inovador e o regular. Angélica, por sua vez, ingressou neste sistema com a expectativa de um melhor aprendizado, mas agora percebe como diferencial apenas o número maior de aulas. Ela concorda que alguns alunos têm descaso pela educação, mas também observa que alguns professores deixam a desejar no método de ensino. 

“Minha opinião de que os alunos deveriam ser habituados a estar em tempo integral na escola desde pequenos, aí sim seria mais fácil de inserir essa ideia na cabeça dos estudantes. O problema é que eles não valorizam e não se dão conta do quão importante é a educação em suas vidas”. Geison Paitra, professor de Informática, acredita que é possível melhorar o aproveitamento do ensino por parte dos estudantes.

Desde o início deste ano letivo a escola conseguiu adaptar salas para o uso de laboratórios de Química, Física e aulas de Música. “O esforço da direção escolar, equipe pedagógica e professores do João Boos é grande para tornar a escola um ambiente mais agradável de estudar. No entanto, o descaso do governo estadual é muito maior”, avalia o professor André. 

À espera da reforma

Telhas que já não se encontram mais à venda, pois são muito antigas. Aparelhos de ar condicionado que nunca foram ligados, pois a fiação também é muito antiga e já está sofrendo curto-circuito. Foi o que aconteceu no início deste ano, porque o colégio apresenta muitas infiltrações devido às chuvas que inundam as salas de aula. Os banheiros entupidos, pois o sistema hidráulico está com problemas. Necessidades básicas são direito de todos, ainda mais no ambiente escolar, que é conhecido como a segunda casa dos jovens devido ao tempo que estes passam lá.

Imagine você, ter que passar de quatro a sete horas num ambiente onde há vazamento de esgoto. No colégio João Boos esta é a atual realidade dos alunos e educadores. Matérias em diversos veículos de comunicação já foram publicadas, a questão já foi levada ao Congresso Legislativo Estadual, onde a reforma foi aprovada, porém faz dez anos que a promessa se perpetua.

A prefeitura de Guabiruba se ofereceu para auxiliar com a reforma necessária, porém esta não foi legalizada pelo governo, porque o colégio é estadual. A oferta de um empresário para realizar a reforma, tendo como contrapartida a isenção de impostos, também foi recusada.

Conforme a diretora Rosinei, em reuniões no Congresso a estimativa para reconstruir a escola é de R$ 7 milhões, com mão de obra terceirizada. Todavia, ainda não existe sequer um projeto, não há nada no papel. Os alunos, revoltados com a situação, já foram às ruas inúmeras vezes para protestar por seus direitos. No início deste ano letivo, Rosinei solicitou ajuda, e, juntos, educadores, colaboradores e educandos deram novos ares ao colégio, que antes estava com as paredes e carteiras pichadas, sujas, e o canteiro estragado. Agora tudo está em ordem. “Podemos ter problemas e estar com falta de recursos, mas a nossa casa sempre deve permanecer limpa e organizada”, ressalta a diretora.

As diferentes formas de educar

Um jovem pedreiro está no ensino médio. Ele sabe o que quer e gosta de exercer sua função. Frequentemente oferece auxílio à escola para reparos necessários, afinal é prazeroso para o mesmo contribuir com o que sabe de melhor, porém não tem qualquer estímulo para os estudos.  Este é o caso de um dos alunos da Escola João Boos. Ele está no primeiro ano do ensino médio após algumas reprovações, afinal não tem vontade de estudar, porém precisa aguardar a maioridade para se ausentar do colégio. A diretora Rosinei, diz compreender as escolhas deste rapaz. De acordo com ela, somos únicos, e se o jovem não se adapta a esse método de aprendizado, o que se pode fazer é respeitá-lo.

Assim como ele, outros jovens não se encaixam no sistema educacional. Segundo a professora Katia Franklin da Silva, mestre em Educação, os métodos de ensino de que dispomos estão baseados na perda das certezas e na relativização do conhecimento que alcançam quase todos os setores de nossa cultura. “Somos desejosos de uma eficácia social e profissional imediatas e percebemos que professores e alunos sofrem as consequências disso. Esse é o resultado da transformação da educação em um processo de gestão econômica e política onde predomina a eficiência em pouco tempo e com poucos recursos, a performatividade”, analisa Katia.

Não somente os jovens anseiam por mudança. O professor André diz ser difícil acreditar no sucesso completo de um sistema cuja principal peça dessa engrenagem, que é o professor, tenha que trabalhar 40 horas cheias, às vezes até 60 horas, para sua sobrevivência. “Vivemos tempos de mais quantidade e menos qualidade. Apesar disso, valorizo minha profissão, mas acredito que poderia fazer muito mais se não trabalhasse em três turnos”, pondera o professor.

Enquanto houver interessados em reivindicar seus direitos e fazer a diferença, o colégio será um ambiente que oportuniza aprendizado além dos vestibulares, construindo valores. Na Escola João Boos, o grêmio estudantil, que é presidido por Dalvan Wilian Cavichioli e Adrian William da Silva, conseguiu dar voz aos estudantes realizando ações como campanha do agasalho, festa junina e gincana escolar, em que angariaram os caixotes para confeccionar as hortas verticais que estão espalhadas pela escola. Dalvan diz acreditar que o colégio está mudando para melhor com o incentivo da direção e o apoio dos professores e alunos.

Taiane, Eloísa e Angélica, as três alunas entrevistadas que fazem parte do Ensino Inovador, disseram que as mudanças requisitadas à direção escolar ainda não saíram do papel, mas reconhecem os esforços da coordenação. Por mais que ainda falte a reforma física, o primeiro passo foi dado – a reforma didática, a principal responsável pela construção de um mundo melhor.

Galeria de fotos

A seguir, alguns links relacionados a reforma na educação, e o que alguns pensadores conceituam sobre o tema:

Qual é o seu jeito de aprender?

O valor da mudança: Viviane Mosé em TEDx Sudeste

Por que a escola precisa mudar?

Mário Sérgio Cortella: Qual é o papel da escola

Nossa escola em (re)construção: o que os jovens têm a dizer sobre a escola?

Felicidade é aqui e agora: Clóvis de Barros Filho em TEDx São Paulo

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