Cidades

Entenda o projeto que pretende transporte integrado de Bombinhas a Piçarras

O projeto InovAmfri tem como principal objetivo planejar o desenvolvimento econômico e social da região de maneira inovadora e sustentável

O projeto InovAmfri tem como principal objetivo planejar o desenvolvimento econômico e social da região de maneira inovadora e sustentável

Texto: Bruno Golembiewski, Elizabeth Figueredo e Fernanda Vieira

Com o crescimento dos centros urbanos, pensar em mobilidade urbana é algo muito importante e desafiador. O projeto InovAmfri propõe mudanças na mobilidade da região e tem como principal projeto um sistema integrado de transporte público que inicie em Bombinhas e vá até Balneário Piçarras.

Na sede da Amfri – Associação dos Municípios da Foz do Rio Itajaí, no bairro São Vicente, em Itajaí, João Luiz Demantova, Gerente do InovAmfri, explicou detalhes do projeto, que tem como principal objetivo planejar o desenvolvimento econômico e social da região da Foz do Rio Itajaí-Açu de forma sustentável e com base na inovação. Muito seguro do assunto em suas explicações, ele não consultou nenhum papel para detalhar o projeto.

O InovAmfri surgiu de uma constatação de que a região da Amfri tem um crescimento populacional bem maior que outras do Estado, de cerca 3,6% ao ano, contra 1,6%, média do Estado. Segundo João, em 20 anos, a população irá dobrar. Os onze municípios da associação (Balneário Piçarras, Bombinhas, Camboriú, Balneário Camboriú, Ilhota, Itajaí, Itapema, Luiz Alves, Navegantes, Penha e Porto) hoje somam 680 mil habitantes. Em 2036, se for seguido ritmo dos dados acima, a população chegará a 1 milhão e 300 mil.

img_0612
João Luiz Demantova (Foto: Bruno Golembiewski)

Para João, é muito importante um alinhamento das políticas públicas numa mesma direção, tal qual o planejamento de crescimento regional para que a região se torne uma metrópole desigualitária daqui a 20 anos, com áreas muito valorizadas e outras abandonadas. Ele compara com outras metrópoles brasileiras, como São Paulo, em que existem áreas muito nobres e outras sem nenhuma perspectiva de desenvolvimento. “Vamos ser uma única cidade conurbada*, em que não se sente a mudança de município do ponto de vista de moradia. Não podemos ter municípios pujantes e outros municípios degradados. Não podemos permitir que isso aconteça”, enfatiza.

O projeto foi pensado em três eixos de planejamento, que englobam três principais desafios dos municípios nos próximos anos: Desenvolvimento Econômico Regional, Gestão Pública de Qualidade e Mobilidade Urbana. “Se conseguirmos equalizar isto, nós vamos ter uma região altamente desenvolvida nos próximos 20 anos”, garante.

O terceiro eixo do InovAmfri é o da Mobilidade Urbana. Neste eixo são propostas três ações:

  • Plano regional de mobilidade urbana integrada que vá de acordo com os planos municipais e um estudo de como são os deslocamentos regionais;
  • Estudo do sistema do transporte coletivo regional ideal: qual o modelo; como vai funcionar; por onde vai passar para permitir que o cidadão saia de Bombinhas e chegue a Piçarras utilizando um único sistema de transporte, embora com vários modais diferenciados, mas com tarifas integradas.
  • EVTE – Estudo de Viabilidade Técnica e Econômica do projeto que vai avaliar a viabilidade econômica da implantação desse modelo. Quanto vai custar; qual o número de usuários que o sistema tem que ter para ser equilibrado; qual o valor da tarifa que tem que ser cobrado; aonde existem as fontes de financiamento.

Professor Doutor e Coordenador do curso de Arquitetura e Urbanismo da Univali, Jânio Vicente Rech explica que a primeira fase do projeto, desenvolvida e já concluída, considerou o levantamento de dados dos municípios e que a segunda proposta, em desenvolvimento, leva em conta a conexão entre estas cidades, principalmente viagens pendulares, as que tratam dos deslocamentos entre casa/escola/casa e casa/trabalho/casa.

Para o professor, é possível a implantação do projeto, desde que todas as partes participem. As principais barreiras dizem respeito a participação da população e a conscientização da importância do uso do transporte público. Essa conscientização poderá ser feita, somente considerando que o transporte seja de qualidade, ou seja, que possibilite um rápido deslocamento, um  nível de conforto compatível e preço justo. “Os atores envolvidos no processo, como a comunidade, as empresas de transporte público que detém as concessões, devem estar representadas e ouvidos seus anseios, para que as propostas tenham apoio incondicional”.

Jânio explica que as demandas existentes e futuras, tais quais as características físicas da região são dados fundamentais na especificação dos modais. “O transporte público urbano, principalmente na região conturbada entre Navegantes, Itajaí, Balneário Camboriú e Camboriú poderia acontecer com o Veículo Leve sobre Trilhos – VLT, juntamente com ônibus. Nos municípios com pequena demanda, o ônibus suportaria a demanda existente. Já na conexão entre os principais municípios, talvez um trem (monorail) com maior capacidade e velocidade poderia ser uma solução a médio/longo prazo”, sugere.

Fundador da Cicloação – Associação dos Usuários de Bicicleta de Itajaí, Jorge Andriani, 56 anos, tem a bicicleta como seu principal meio de transporte.  Ele vê com bons olhos o projeto da Amfri, não só na questão do transporte público, mas também na estrutura da cidade. “São soluções pertinentes a todos os modais, desde calçadas para pedestres, as vias ciclísticas e para o trânsito de veículos pequenos, caminhões de entrega e os de container”, afirma. Para Jorge, os gestores públicos que vão assumir vários municípios da região têm de iniciar logo as medidas. “O que não poderá acontecer é, todo este planejamento feito, ficar parado. Tem que iniciar pelas ações mais simples e baratas para que possamos sair deste caos”, sugere.

Pedro Floriano dos Santos, 57 anos, Professor e Gerente de Extensão e Cultura da Univali, utiliza a bicicleta como principal meio de transporte há sete anos, apesar de ser um ciclista a vida toda. Para Pedro, a cidade é pensada somente para o carro, desconsidera o ciclista e o pedestre. As calçadas são horríveis e existem poucas ciclovias, que não são conectadas. Para ele, o trânsito de Itajaí é violento e perigoso, tanto pelo número de caminhões que circulam em virtude do porto, mas também pela quantidade de veículos na cidade, que, segundo dados do DETRAN, passa dos 150 mil.

Tanto Pedro quanto Jorge apontam o péssimo sistema de transporte público como o culpado pelo grande número de veículos, pois não incentiva as pessoas a usá-lo. “Um transporte integrado de forma ágil que atenda a toda esta região, vai fazer com que menos carros circulem, pois com a péssima qualidade do transporte público que temos, muitos ainda preferem fazer o trecho com seu próprio carro”, explica Jorge.

O professor afirma ainda que não se pensa mobilidade urbana integrando as cidades. Ele sugere que todas as maneiras de deslocamento sejam pensadas de maneira conjunta, incluindo os veículos, o transporte público, os ciclistas e pedestres. Outro ponto de destaque é a acessibilidade, pouco pensada na cidade. “Temos que pensar a cidade para a pessoa e não para o carro. Só se pensa em como fazer as pessoas chegarem mais rápido ao seu trabalho, seu local de estudo e sua moradia, só pela ótica de quem dirige. Mudando essa ótica, muda-se e transforma-se a cidade, permitindo inclusive outros modelos”.

img_0653
Na Av. João Abraão Francisco, ao lado da Univali, os ciclistas usam as calçadas pois não existem ciclovias (Foto: Bruno Golembiewski)

Jorge pensa que a educação é dos pontos principais para um trânsito melhor. Para ele a criação de mais ciclovias, ciclofaixas e outras melhorias na cidade não são suficientes se as pessoas não estão educadas para estar no trânsito. “Ao longo dos anos vimos que a vida fica cada vez mais corrida e com isso nos tornamos mais egoístas e nosso estresse se reflete no local onde não conseguimos ir em frente, ou seja, o trânsito”, explica.

Para melhorar a educação e o comportamento das pessoas no trânsito, Jorge sugere um investimento maciço em divulgação de campanhas de consciência e educação. E não só para os adultos, tem que começar cedo: “Paralelo a isto, temos que colocar em prática o que diz nosso Código de Trânsito em relação a uma matéria interdisciplinar nas escolas, desde o primeiro ano até o último ano do ensino superior”, sugere.

Mudanças de governo

Depois das eleições, o principal desafio da Amfri em relação a troca de governos nos munícipios é a consolidação do projeto, para que ele seja executado independente das gestões administrativas. Para que isso aconteça, eles buscaram ver outros cases internacionais, como o da cidade de Portland, nos EUA. João afirma que o projeto tem que ser amplamente divulgado para a população, para que quando houver este entendimento, as pessoas percebam que o projeto é delas também.  “Isso passa ser um compromisso independente dos partidos e prefeitos”, completa.

Após as eleições municipais, foram convidados os prefeitos eleitos a tomar conhecimento do InovAmfri, e, de acordo com João, todos responderam positivamente, se comprometendo com as causas propostas. Ele defende que o projeto é extremamente atrativo porque traz muitas melhorias com baixo custo, já que uma parte da verba virá do Governo do Estado, que tem interesse no funcionamento para que possa aplicar em outras regiões de Santa Catarina. Os responsáveis da Amfri estão fazendo estudos para buscar as fontes de renda para a realização de todas essas ideias.

O recém-eleito prefeito de Balneário Camboriú, Fabrício Oliveira, garantiu o retorno do município a Amfri e disse que a preocupação deve ser o desenvolvimento integrado e igualitário dos 11 municípios da região. Ele vê na possibilidade de discutir as necessidades da região de maneira ampla e coletiva algo muito importante. “Alguns assuntos os municípios não podem resolver de maneira isolada, precisam planejar em conjunto, como os temas de mobilidade urbana, segurança pública, captação de água e, sobretudo na vocação da região, por isso, a importância do InovAmfri”, justificou.

Entenda mais dos outros dois eixos

Os dois primeiros eixos do InovAmfri são o Desenvolvimento Econômico Regional e a Gestão Pública de Qualidade. Cada eixo está dividido em três ações. A primeira ação será o Master Plan (Plano Conceitual) do Distrito de Inovação, que será como uma nova cidade no bairro Itaipava, em Itajaí, com objetivo de abrigar empresas de alta tecnologia para poder gerar empregos e possibilitar o desenvolvimento da região. Este plano consiste no planejamento do funcionamento da sede e o conhecimento do impacto ambiental para obter a liberação para o início das obras.

No eixo da Gestão, a primeira ação será o curso de formação de líderes públicos, com 40 funcionários efetivos dos municípios e mais 10 alunos de ensino superior da cidade que passariam por um treinamento para poder pensar nas políticas públicas e nos próximos desafios da cidade. De início as ações serão voltadas ao turismo e saúde, que segundo o gerente, é a maior demanda do Estado. Será implantado um sistema, um aplicativo para celular e computadores, e também totens para integrar e informar melhor onde se encontram os especialistas e os medicamentos.

O que poderá ser visto nos próximos anos

O projeto InovAmfri se encerra em março do ano que vem quando serão entregues aos prefeitos os planos de ação. É uma parceria da Amfri com o Governo do Estado, que já tem R$ 8 milhões do Estado investidos e mais R$ 800 mil de cada um dos municípios para fazer todas as ações de planejamento.

img_0614
Sede da Amfri, no Bairro São Vicente, em Itajaí (Foto: Bruno Golembiewski)

A curto prazo, em 2017, eles planejam que os líderes públicos já estejam formados, o sistema digital de saúde aplicado e plano de transporte integrado já elaborado. Para 2020, o distrito de inovação em implantação, com as primeiras indústrias se instalando no local. Já em 2024, a previsão é de o sistema de transporte integrado estar em pleno funcionamento.

Segundo João, o papel da Amfri se encerra num primeiro momento na entrega dos planos, em março de 2017. A participação deles na próxima fase depende dos municípios, que podem querer ou não a Amfri envolvida diretamente nos processos. A ideia é que indiretamente eles sejam o fórum de discussão das ações.

*Conurbação é um termo usado para designar um fenômeno urbano que acontece a partir da união de duas ou mais cidades/municípios, constituindo uma única malha urbana, como se fosse somente uma única cidade. (Fonte: Brasil Escola)

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s