Arte e Cultura

A vida de quem conserta instrumentos de corda

Entre ferramentas, madeiras e notas: conheça a história de Renatinho e Moacir, profissionais que há anos trabalham na manutenção de violões, guitarras e similares

Entre ferramentas, madeiras e notas: conheça a história de Renatinho e Moacir, profissionais que há anos trabalham na manutenção de violões, guitarras e similares

Texto: Bruno Golembiewski, Elizabeth Figueredo e Fernanda Vieira

Um pequeno aviso na fachada indica que a morada é mais do que o lar de uma família itajaiense. Os serviços de luthier e um telefone para contato revelam a profissão de Renato Lucindo, 41, “Renatinho”, como é chamado. Num quartinho nos fundos da casa no bairro Dom Bosco, ele passa suas manhãs consertando instrumentos de corda, como violões, violas, guitarras, baixos, banjos e cavaquinhos.

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Com muita calma e cuidado, Renatinho abre uma guitarra de aproximadamente 17 mil reais (Foto: Bruno Golembiewski)

Desde 2004, ele trabalha profissionalmente com lutheria. É músico e trabalhava com produção musical até então. Naquela altura já regulava instrumentos de alunos e amigos, mas, quando saiu da área da produção, resolveu se especializar e importou peças dos Estados Unidos para montar sua oficina. Durante um ano, ia para Curitiba uma vez por mês, onde o amigo e também luthier Tom Di Castelli o ensinava. Comprava instrumentos simples e trabalhava em cima deles para se aperfeiçoar, muito antes de mexer nos dos outros.

Em meio aos prédios de umas das transversais da Av. Brasil, uma casa parece elemento estranho escondida entre os edifícios. Belas árvores cobrem a residência, muito aconchegante e agradável. Por coincidência, também nos fundos dela, está a oficina de Moacir Corrêa, 49, luthier há mais de 27 anos na cidade de Balneário Camboriú.

Moa, como é conhecido, dedica suas tardes às revisões, regulagens e manutenções de instrumentos de corda. Com semblante calmo e sereno, explica cada detalhe com muita propriedade. As quase três décadas dedicadas à lutheria foram construídas na base de muito estudo, dedicação e reconhecimento. “Quando comecei ninguém fazia isso na região, a ideia era fazer um trabalho de qualidade e ter vários parceiros, os músicos, numa relação de confiança”, conta.

Na época, para resolver problemas em instrumentos seus ou de alunos, tinha de ir a Curitiba. “Não havia ninguém na região que fizesse esse serviço”. A partir disso, resolveu arriscar para se tornar um luthier. Começou a assinar revistas especializadas e teve contato com os primeiros artigos sobre luthieria. Depois disso, adquiriu apostilas, fitas, fez estudos sobre madeiras, ressonâncias e outros elementos. Moa também aprendeu muito em conversas com outros luthiers, como Di Castelli, o mesmo que ensinou Renatinho. Depois de seis anos trabalhando nos próprios instrumentos, percebeu que era capaz de oferecer o serviço a outras pessoas. “Tudo o que eu aplico, eu já testei antes”, garante.

As questões ambientais são as que mais afetam os instrumentos. A oscilação de temperatura faz com que a madeira trabalhe, ou seja, expanda ou diminua de tamanho. Outro aspecto que faz o metal e a madeira mudarem é a umidade. Climas mais secos e úmidos vividos durante as estações do ano afetam as partes do instrumento: cordas, corpo de madeira e trastes de metal. Para Moa, um bom luthier deve ter conhecimento básico “pelo menos” de botânica, química, física e eletrônica, pra compreender os elementos que compõem a construção e a conservação de um instrumento musical, já que, a maioria deles é composta por madeira, metais, tintas, colas, componentes eletrônicos e medidas exatas. Até mesmo a maneira como o músico utiliza o instrumento, com mais força ou menos força, ou se mora perto da praia, que tem maresia, fazem diferença. “Cada instrumento tem sua história e as oscilações aparecem de maneira diferente. Nenhum conserto é igual a outro”, explica.

Segundo Renatinho, o serviço mais comum de um luthier é a remoção das cordas e a manutenção dos trastes, o que ele chama de Fretwork. Após a remoção do braço, ele alinha os trastes, faz o corte e a regulagem da altura da ponte conforme a curvatura do braço. Também faz os apertos nas tarraxas e a regulagem de oitavas para que o instrumento afine em qualquer ponto. Por fim, o cuidado com a altura dos captadores, manutenção da parte elétrica e blindagem para tirar o ruído estático, aquele som contínuo que sai de alguns instrumentos ligados a um amplificador. “Músicos profissionais em geral trazem instrumentos de seis em seis meses para a regulagem. O instrumento é como um carro, precisa de manutenção e revisão de tempos em tempos”, compara.

O termo lutheria, do francês lutherie, é a arte da construção e reparo de instrumentos de cordas, entretanto nenhum dos dois constrói violões ou algo do gênero. Não que eles não tenham tentado. Renatinho chegou a construir, por um breve período, porém sem sucesso. Apesar disso, considerou uma experiência interessante. Ele se juntou com um parceiro que fazia esculturas no corpo dos instrumentos. Ele montava o braço e as partes elétricas enquanto o amigo inovava no design externo. “O custo era muito grande, pois comprávamos madeiras de lei e todas as outras peças de qualidade, e, na hora de vender, não valia a pena financeiramente. Não dá para competir com as grandes marcas e com a produção em grande escala”, lembra.

Já Moacir conta que, quando começou a trabalhar com lutheria, sua principal ideia era fabricar instrumentos. Após um imenso trabalho de pesquisa, de custos das matérias-primas, materiais e operacionais, sondando outros fabricantes, percebeu que não valeria a pena. A China já começava a ser um grande produtor de instrumentos, fazendo da disputa com os produtores asiáticos uma batalha difícil de vencer.

Ambos contam que a produção em grande escala faz os instrumentos serem trabalhados com menos cuidado e com a regulagem equivocada. “A maioria dos instrumentos vêm de fora, e às vezes ficam até um ano parados, com sua estrutura errada ou até comprometida”, explica Moa. Ele e Renatinho recomendam que assim que o instrumento saia da loja para as mãos do músico, ele deve ser levado ao luthier de confiança da pessoa. Moa elenca dois fatores primordiais: o luthier poderá identificar defeitos de fabricação que o instrumento possa ter e, depois, deixará o instrumento na sua melhor condição. “É imprescindível se tu queres o instrumento respondendo o melhor dele”, complementa Renatinho.

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Mesa de Moacir: “As pessoas até acham, mas não é nada glamorosa a oficina de um luthier”
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Mesa de Renatinho: “É um grande investimento adquirir todas as ferramentes para fazer um trabalho de qualidade”

O luthier de Itajaí trabalha em média em dois instrumentos por dia. Faz uma divulgação simples, por indicação dos clientes e cartão nas lojas de música: “90% dos instrumentos novos que vêm para mim são indicados pelas lojas”. Para Renatinho, o trabalho corresponde a 70% da renda de sua família. Ele busca sempre se atualizar, indo a eventos e assinando revistas especializadas. No final do ano, vai para os Estados Unidos comprar uma nova ferramenta para melhorar seu serviço.

Moacir já vive exclusivamente da lutheria há seis anos. Ele atende cerca de 50 pessoas por mês, mas garante ser impossível dar um dado preciso. Durante a entrevista, ele recebeu dois visitantes para entregar instrumentos. Ele cataloga todos clientes para ter um histórico dos instrumentos e acompanhar as alterações com mais precisão. “São 2000 clientes catalogados, alguns de mais de 20 anos”.

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Na oficina de Moa haviam mais de 20 instrumentos já consertados ou à espera de seus cuidados (Foto: Bruno Golembiewski)

Assim como Renatinho, Moa está sempre em busca de novidades. De acordo com ele, as grandes empresas tendem a introduzir todos os anos pequenas novidades nos instrumentos, boas ou não, e o luthier tem de estar sempre atento. “Estou sempre tentando melhorar meu trabalho, tenho de estudar muito para poder explorar todas as possibilidades. Tenho liberdade para sugerir coisas, sempre respeitando a vontade do cliente. Faz parte do meu trabalho também auxiliar”, finaliza.

Violões assinados por luthiers

Oito violões postados lado a lado. Todos os instrumentistas de roupas e sapatos pretos executam, tal qual uma orquestra, diversas composições. Em duplas ou em trios, emitem sons sincronizados que juntos compõem o tema proposto. Ritmo, destreza dos movimentos e sincronia são fundamentais para a boa execução dos temas.

A Camerata de Violões de Itajaí surgiu em 2008 através de um grupo de estudos de alunos do Conservatório de Música Popular Cidade de Itajaí. Formada por oito violonistas, tem como objetivo levar um repertório diversificado para o público e explorar essa formação, que é umas das mais ricas para performances de violão. O grupo, que faz parte da Associação de Violão de Itajaí, se apresentou pela região durante todo o mês de setembro.

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A Camerata de Violões de Itajaí se apresentou no último Festival Cultural Univali, no final de setembro (Foto: Bruno Golembiewski)

Dos oito integrantes da Camerata, seis possuem violões construídos por luthiers. “A grande diferente é a construção. Numa fábrica [os instrumentos] são feitos por máquinas, já o Luthier vai fazer cada detalhe com o maior cuidado e dedicação. Eu garanto que um instrumento feito por Luthier é outro nível de desempenho, de resposta e sonoridade”, explica Renatinho.

Os temas executados pelo conjunto itajaiense são divididos em “vozes” diferentes entre os violonistas. Dependendo de quantas vozes a composição possui, eles se dividem em duplas ou trios para preencher as partes da música: melodia, baixo e harmonia. “Um violão pode fazer estas três partes sozinho, só que na camerata é outra proposta, nós dividimos tudo entre oito violões”, explica Thiago Campos, membro da Camerata.

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Josias possui um violão de mais de 50 anos (Foto: Elizabeth Figueredo)

Thiago, 30, investiu o que pôde na compra de um violão de qualidade. Em 2011, comprou do violonista Cristo Miguel de La Cruz um violão construído por um importante luthier do México, Agustín Hernandez. O luthier vive na cidade de Parancho, onde existem cerca de 300 luthiers. Thiago pagou cerca de R$ 4 mil pelo instrumento. “É outra coisa tocar um instrumento desse tipo”, revela. Nesta apresentação, ele estava com um violão emprestado, do luthier Jô Nunes. No vídeo abaixo ele fala sobre as madeiras do instrumento:

Há um ano e meio, Josias Pimentel, 20, comprou seu violão. Feito por Romeu Di Giorgio, de São Paulo, o instrumento vem de uma família italiana de luthiers que chegou ao Brasil no século XX. Josias explica que a idade do instrumento pouco influencia, desde que ele seja sempre regulado e determinadas peças, como os trastes, sejam trocadas. “Meu violão foi construído em 1965, e continua com uma sonoridade fantástica. É outro nível a sonoridade, a nitidez do som, o timbre”. Ele diz ainda que, para quem se apresenta no formato de Camerata, violões artesanais são ideais.

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Violões feitos por um luthier projetam melhor o som, o que é ideal para apresentações desse tipo, na qual os instrumentos não são amplificados  (Foto: Elizabeth Figueredo)

Eliezer Patissi, 24, comenta a dificuldade de encontrar luthiers de confiança. A indicação de amigos e o prestigio do trabalho é fundamental. Ele tem um violão assinado por Samuel Carvalho, de São Paulo, importante nome brasileiro. O instrumento foi construído em 2007 e é o número 355 de sua série. Eliezer afirma que todos os grandes violonistas possuem instrumentos construídos por luthiers e que os R$ 6 mil, valor que pagou no seu, consiste no preço de um instrumento intermediário, mas que já permite um desempenho incrível. O principal destaque apontado é a sonoridade. “A sonoridade é muito diferente, este é um violão feito para concerto, a projeção do som é diferente, muito mais alta”, finaliza.

2 comentários

  1. Muito bom , inclusive sou amigo de Moa e Renatinho, excelente profissionais.
    Parabéns aos dois amigos, também sou beneficiado, pois sou músico e vizinho desses profissionais.

  2. Parabenizo ao Bruno, Elizabeth e Fernanda pela excelente matéria que ao divulgar os trabalhos desses profissionsais, estão valorizando-os com todos os méritos. Apesar de não conhecer pessoal o Renatinho. Sou músico, e a mais de dez anos confio meus instrumentos ao mestre Moa que com sua competência, os deixam sempre maravilhosos. Obrigado a esses grandes profissionais.

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