Cidades

Cidade alemã? Qual a real influência germânica em Blumenau

Blumenau reforça sua cultura alemã e esconde passado indígena e escravocrata. A cidade também foi colonizada por outros países que não ganharam espaço na história da cidade.

Blumenau reforça sua cultura alemã e esconde passado indígena e escravocrata. A cidade também foi colonizada por outros países que não ganharam espaço na história da cidade.

Texto: Adrielle Demarchi, Ana Carolina Nasato e Natália Rocha
*A contribuição do historiador José Roberto Severino foi acrescentada no dia 13/10

Outubro, mês de celebrar a cultura blumenauense com a festa alemã conhecida como a maior das Américas, a Oktoberfest. Uma festa desse tamanho não poderia ter outra origem que não a cultura predominante da cidade, a alemã. Quem visita a cidade, se encanta com as casas enxaimel, com as cervejarias artesanais, os cristais e os riachos cristalinos do Bairro Nova Rússia. A Oktoberfest é famosa no Brasil inteiro, mas será que ela realmente transmite a cultura da cidade para o país? Blumenau foi colonizada por várias nacionalidades além da alemã, como os italianos, russos e poloneses, além dos índios, quase todos esquecidos pela história e pelas pessoas. Os índios que povoavam a região eram do grupo Xokleng, “que acabaram assassinados, expulsos ou controlados nos limites das fronteiras estabelecidas pelos volantes de bugreiros atuantes ao longo do século XIX e início do XX”, conta o historiador José Roberto Severino. A historiadora Sueli Petry conta que na cidade a língua alemã era comum, se falava, rezava e cantava em alemão, por isso a predominância dessa nacionalidade sobre as outras.

Devido a Segunda Guerra Mundial, muito da cultura alemã se perdeu, principalmente com a proibição de falar o idioma alemão. Segundo livros do Arquivo Histórico José Ferreira da Silva, em Blumenau, em 1939 existiam 472 estrangeiros na cidade, sendo 385 alemães. Wilson Shaade, tradicional de família alemã, diz que a cultura sempre se renova, não apenas em Blumenau, no caso da germânica, mas na própria Alemanha. Para ele, o que afetou a cidade foi a guerra e o fato de muitas famílias terem de esconder suas origens.

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A Oktoberfest é a festa mais famosa de Blumenau. Pessoas do mundo inteiro prestigiam a festa. (Foto: Oktoberfest/Divulgação).

Magali Moser, em sua dissertação para o mestrado em Jornalismo chamada “Forjado: a participação da imprensa na imposição da identidade germânica em Blumenau”, levanta questionamentos como o de quantas pessoas realmente falam e compreendem os dialetos que querem ser vistos como alemães. Para ela, os turistas da Alemanha já não compreendem mais o alemão falado em Blumenau, que hoje está repleto de expressões abrasileiradas. “A cidade vende uma imagem ligada à ‘cultura alemã’, mas muito disso é pastiche (cópia)”. Magali conta que a ocupação e extermínio indígena são ignorados, como também a mão-de-obra escrava. Para ela, índios, negros e outras culturas que fogem do estereótipo europeu da cidade são marginalizados ou silenciados, infelizmente com o respaldo da imprensa.

O alemão nascido e criado em Santa Catarina e vivendo atualmente na Alemanha, Julio Garbers, acha interessante a diferença entre a língua portuguesa e a língua alemã. O Brasil, mesmo sendo muito maior territorialmente que a Alemanha, não possui dialetos, apenas sotaques. Na Alemanha existem muitos dialetos e o ensinado nas escolas como ‘correto’ é o hochdeutsch. “Os alemães mais velhos, que só sabem se comunicar através do seu dialeto, têm dificuldade para se comunicar com uma pessoa de outra região. Eu, por exemplo, moro na região sul da Alemanha e conheço um pouco do dialeto, mas não compreendo praticamente nada do dialeto bávaro”. Em Santa Catarina, Julio sentiu um pouco de dificuldade para compreender certas palavras e expressões que são do próprio dialeto da cidade de Pomerode, considerada a mais alemã do Brasil, e de Blumenau, que não existem na Alemanha.

Essa construção de Blumenau como cidade alemã iniciou, de forma organizada, na década de 60 pelo poder público que se fortaleceu na época. Eles, que antes tinham proibido a cultura alemã durante a guerra, agora recorreram a ela para fazer da cidade um local turístico, conta Sueli. E nesse turismo, o que mais ganhou destaque mundial da cidade foi a Oktoberfest, que Sueli reforça que não é nada mais que uma reinvenção da festa originária de Munique, na Alemanha. A historiadora conta que em Blumenau as pessoas se vestem de alemão, mas dançam e pulam como brasileiros. Em Munique, as pessoas ficam apenas sentadas nas mesas bebendo cerveja. Para Julio, a cultura de Blumenau tem uma influência muito forte da região da Baviera. “Os costumes, estilo de moda característico da Oktober, alimentação e assim por diante, são todas características do sul da Alemanha, em especial da Baviera. Esses costumes não são vistos em outras regiões da Alemanha ou são extremamente raros”.

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A prefeitura de Blumenau é referência em arquitetura típica alemã. (Foto: Adrielle Demarchi).

Isso não quer dizer que a cidade não seja alemã. “Essa germanidade é construída, mas sempre existiu”, reforça Sueli. As outras culturas e nacionalidades são retratadas em livros e artigos. Em 1968, foram criadas várias comissões como a da saúde, da educação e a do turismo, que começou a divulgar a cidade dando ênfase nos monumentos, arquitetura, cristais e também criando a festa da cerveja. A partir desse momento, Blumenau se torna conhecida como uma cidade tipicamente alemã no Brasil e, segundo Magali, se aproveita desse rótulo para lucrar. “Não dá para entender essa negação da brasilidade sem compreender os interesses das indústrias, do turismo, da publicidade, das associações empresariais, dos aspectos identitários. Tudo isso está muito conectado”. Para Julio, a cidade também é germânica, mas ela modificou e adaptou a cultura que os imigrantes alemães trouxeram na época para o Brasil com o estilo de vida brasileiro. “Vejo muito mais semelhanças dos blumenauenses com qualquer outro catarinense do que com os bávaros, o que é um processo natural e óbvio em função da distância entre os dois países. Na sua maioria os blumenauenses são mais abertos que os alemães e demonstram mais as suas emoções”.

Cantor no grupo de coral Os Velhos Camaradas, Wilson ainda preserva a música e os trajes típicos da Alemanha. Wilson diz que faz mais de 100 anos que a sua família veio da Alemanha para morar em Blumenau. No coral, de 30 pessoas, apenas um não fala alemão, mas sabe cantar na língua estrangeira. Ele conta que em Blumenau existem vários grupos que se reúnem e falam somente em alemão, mas que com o tempo o idioma foi se adaptando às expressões brasileiras e se modificando. Sueli diz que os grupos de corais das igrejas católica e evangélica cantavam somente em alemão e que até a década de 30 todos os colégios ensinavam a língua obrigatoriamente.

Desde a Primeira e Segunda Guerra Mundial a cultura germânica já vem perdendo forças na região. Para ela, hoje, com as novas gerações se mesclando e com as migrações do Norte e Nordeste, além dos haitianos que são muito cultos e falam várias línguas, há uma mistura ainda maior entre as culturas e tradições, que se juntam para construir uma nova. Sueli diz que passamos por um momento de transição e ninguém sabe como será o futuro, mas ela acredita que seja de uma maior diminuição da cultura conhecida como alemã hoje. Mesmo com essas transições, Julio acha as roupas típicas de Fritz e Frida da Oktoberfest blumenauense são praticamente iguais as utilizadas na Alemanha, e, embora as comidas típicas daqui sejam um pouco diferentes das de lá, ele nota que há sim influência da culinária alemã, principalmente da região sul.

De qualquer forma, mesmo havendo essa dúvida se a cultura de Blumenau é mesmo alemã ou se é apenas uma influência da mídia, há uma hegemonia alemã e José acredita que ela existirá enquanto as pessoas se sentirem pertencentes e representadas por ela. Para ele, cultura é sinônimo de realidade.

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