Comportamento

Suicídio: tirar a vida ou livrar-se da dor?

Suicídio é a segunda maior causa de morte entre jovens de 15 a 29 anos em todo o mundo. No Brasil quase 10 mil casos são registrados todos os anos

Texto: Bianca Pereira

“Após algumas brigas com meus pais, tive um leve surto e ingeri 40 comprimidos de lítio. Tranquei a porta do quarto, dormi e acordei sete dias depois (…) queria eliminar o sentimento de pressão, não queria mais me sentir um perdedor, um derrotado. Só queria descansar. Não ligaria se eu não mais existisse, só não queria sentir mais essa dor e vazio”.

O relato acima é de Rodrigo Oliveira, 28 anos, morador da cidade de Itajaí, no litoral norte de Santa Catarina, após uma tentativa de suicídio. O jovem, que possui um jornal e uma cafeteria no centro de Balneário Camboriú, se dedica diariamente a atender com simpatia os seus clientes. Mas nem sempre foi assim.

Quando criança, sua família o imaginava como o garoto perfeito. Por pertencerem a uma igreja evangélica, sua educação foi toda doutrinada com princípios cristãos. Seus pais acreditavam que era sua obrigação ser correto em tudo que fazia. Ele ia para a escola sempre muito arrumado e muitas vezes com a roupa engomada. Além das roupas, o cabelo estava sempre bastante penteado, algo que sua mãe não dispensava fazer todos os dias.

Sua condição era bem diferente da maioria dos meninos da sua idade e dos mais velhos também. Por conta disso, as idas à escola eram torturantes. Além das hostilizações com palavras chulas, Rodrigo era perseguido diversas vezes. Inclusive, quase foi violentado por esses meninos, que rasgaram sua roupa e o deixaram emocionalmente abalado. Apesar das chegadas em casa desesperado e chorando, seus pais não se importavam. “Meus pais, principalmente meu pai, na época, eram muito machistas e atribuíam a violência que eu vinha sofrendo como algo causado por ‘motivos’ que eu deveria dar”, relembra.

Depois de uma dessas ações de bullying, já ao fim da oitava série, Rodrigo, exausto pela situação que vinha acontecendo com frequência, teve uma crise nervosa, que resultou numa cegueira com duração de 24 horas. O médico descreveu a crise como um alto grau irritativo que o levou a ter uma forma de convulsão. Por conta das crises convulsivas, ele começou um tratamento no Centro de Atenção Psicossocial (CAPS) e foi diagnosticado com falta de lítio, uma proteína responsável pela estabilidade do sistema nervoso. A partir daí foi preciso tomar a proteína em comprimidos, para repor a sua ausência.

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Remédio anti-depressivo (Infográfico: Bianca Pereira)

Quando estava prestes a completar 19 anos, Rodrigo decidiu que era hora de enfrentar o que mais temia: os seus pais. Em junho de 2008, ele resolveu que queria aproveitar a sua juventude, como qualquer jovem da sua idade. Para isso, comprou ingressos para se divertir em uma festa. “Queria deixar de tentar ser perfeito segundo os olhos da família e ser como qualquer rapaz da minha idade. Entrei em confronto com meus pais, neste caso, principalmente a minha mãe, que afirmava não ter me criado para essa vida, já que pertencíamos à igreja”, relata. O que Rodrigo não sabia era que os planos de sua mãe eram outros. Ela havia dado o seu nome e pago a inscrição para uma espécie de retiro religioso, organizado pela igreja que eles frequentavam, no mesmo final de semana da festa.

A partir daí as brigas só aumentaram. Por causa disso, na sexta-feira da mesma semana, Rodrigo teve um surto. Em um ataque de raiva, pela primeira vez, desejou tirar a própria vida. Ao ingerir 40 comprimidos do remédio que tomava para o tratamento, o jovem apagou. Apesar de ter trancado a porta antes de se deitar, às 2h da manhã, quando seus pais ouviram um barulho vindo do seu quarto, ela estava aberta. A cena que presenciaram era fatídica: Rodrigo estava tendo convulsões e o pote dos remédios estava jogado ao seu lado. Foi uma luta de sete dias pela vida. No hospital, os médicos já haviam perdido a esperança. “Tive três paradas cardíacas, e na terceira, o médico disse para minha mãe entrar e se despedir, pois ele não conseguia mais me reanimar”, revela.

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Rodrigo ingeriu 40 comprimidos para tirar a própria vida (Foto: Andressa Magalhães)

De acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS), cerca de 800 mil pessoas se suicidam todos os anos. No Brasil, o número de casos ultrapassa 10 mil suicídios anuais. Ainda segundo a OMS, o suicídio é a segunda maior causa de morte entre jovens de 15 a 29 anos. Em Santa Catarina, dados divulgados pela Secretaria de Saúde do Estado apontam que, de 2011 até 2016, 544 adolescentes tentaram suicídio, mas apenas 23 conseguiram.  Guabiruba e Balneário Camboriú estão entre as cidades com o maior número de casos de suicídio no ano passado, sendo 13 casos registrados no primeiro semestre. A maioria dos casos está associada a algum tipo de transtorno depressivo resultantes de situações estressantes, de perda ou emocionais.

A psicóloga Marina Corbetta Benedet explica que o motivo especifico do suicídio tende a variar muito, já que a pessoa não se suicida porque quer acabar com a própria vida, mas com uma dor. O suicídio é cometido por causa de uma angústia muita grande, que pode ser desencadeada por algumas doenças, como a depressão, a esquizofrenia e a bipolaridade. “A pessoa não precisa ter necessariamente depressão para tirar a própria vida, mas ela é um fator que contribui para isso pela tristeza e angustia que proporciona”, ressalta.

A mãe de Rodrigo não desistiu. Ela sabia que o filho iria voltar à vida. E a Igreja que tanto influenciou o crescimento dele iria ajudá-lo. “Minha mãe entrou com uma amiga de infância, cantou um louvor da Igreja no meu ouvido e o que os médicos não haviam conseguido fazer, Deus fez”.  Após a visita de sua mãe, Rodrigo acordou do coma. Hoje, aos 28 anos, ele foi diagnosticado com transtorno depressivo, doença que traz sensação de tristeza e perda de interesse pela vida, e transtorno bipolar, causado por alterações de humor. Segundo os médicos, ele já nasceu com pré-disposição às doenças e os fatores vividos levaram a desenvolvê-la. Por causa disso, ele está mais suscetível ao risco de cometer suicídio.

Mas não são só essas doenças que levam o indivíduo a tirar a própria vida. A psicóloga Marina explica que fatores como perda de dinheiro, brigas familiares e pessoas que não se encaixam dentro de um “padrão” imposto pela sociedade, como negros, trans e homossexuais, podem desencadear reações suicidas. M.A, 22 anos, não quer ter o seu nome revelado, mas já pensou em se matar algumas vezes. “Descobri recentemente uma atração por pessoas do mesmo sexo que o meu. Contei para minha mãe, mas ela disse que não iria aceitar um filho assim. Nem ela e nem minha família. Ouvir isso me fez sentir uma dor imensa. Eu não queria decepcionar minha mãe, então pensei várias vezes que morrer seria a única solução”, lamenta.

Prevenção

O dia 10 de setembro foi destinado a alertar toda a população para este grave problema que é responsável por uma morte a cada quarenta segundos no mundo. Segundo a psicóloga Marina Corbetta Benedet, a pessoa que tem a perspectiva de se matar, não avisa aos demais. “A pessoa que realmente pensa em acabar com a vida, não comunica, ela não fala. Ela não vai dizer ‘Oi, tudo bem? Eu tenho que me matar’. Porque ela sabe que fazendo isso, ela não vai se matar. Então,  acaba não falando para os outros que ela tem essa intenção. Pelo contrário, ela continua dizendo que está tudo bem”.

Rodrigo não pediu ajuda para a família. A decisão de tirar a própria vida era firme. Apesar dos problemas, nunca passou pela cabeça de seus pais que ele pudesse fazer isso. A ajuda veio mais tarde, quando encaminharam o jovem para buscar ajuda profissional com um psicólogo. “Até hoje, apesar de estar bem, eu faço acompanhamento com um psicólogo”, revela.

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Campanha busca prevenção do suicídio (Foto: Site CVV)

Para ajudar nesses casos de pré-disposição suicida foi criado o Centro de Valorização da Vida (CVV). Com o intuito de ouvir as pessoas para apoiá-las emocionalmente e evitar um possível suicídio, o projeto disponibiliza voluntários para atender ligações de pessoas que pretendem compartilhar suas angústias.

A prevenção ao suicídio de pessoas próximas pode ser feita por meio de conversas informais, como em rodas de amigos. A ajuda vem com disposição para ouvir e uma boa conversa, que reduzem os casos. É preciso prestar atenção a alguns sinais, como falta de planos para o futuro, angústias ao resolver problemas e negação para enfrentar a vida. Quem pensa em tirar a própria vida não enxerga mais estratégias para lidar com as situações cotidianas que lhe trazem angústia.

A Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) informa que de cada 100 habitantes, 17 pensam em cometer suicídio, 5 planejam, 3 fazem tentativa e 1 é atendido pelo pronto-socorro.

No vídeo a seguir, a Psicóloga Marina Corbetta Benedet explica como funciona o trabalho do Centro de Valorização a Vida:

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