Comportamento

Escolas Waldorf atendem procura de pais por ensino que foge do convencional

Mesmo com a expansão da internet, existem pais que procuram por métodos de ensino alternativos para seus filhos, sem o uso diário de recursos tecnológicos. Saiba como funciona esse tipo de escola na região do litoral catarinense.

Mesmo com a expansão da internet, existem pais que procuram por métodos de ensino alternativos para seus filhos, sem o uso diário de recursos tecnológicos. Saiba como funciona esse tipo de escola na região do litoral catarinense.

Texto: Adrielle Demarchi, Ana Carolina Nasato e Natália Rocha

O que você pensaria de uma criança de 7 anos que ainda não foi alfabetizada? Hoje em dia, certamente, muitas pessoas iriam questionar, achar que a escola em que essa criança estuda não é boa e que os pais ou responsáveis deveriam ficar preocupados. Mas não. Tem uma pedagogia, a Waldorf, que foi desenvolvida pelo filósofo austríaco Rudolf Steiner em 1919, que não visa a alfabetização como prioridade no primeiro setênio de vida de uma criança. Para o filósofo, o importante nessa fase é desenvolver as habilidades sensíveis do indivíduo, através do ato de brincar.

Antigamente era assim, há mais ou menos 25 anos, crianças em idade pré-escolar passavam a maior parte do tempo brincando nas creches curriculares. A alfabetização na maioria das escolas dos anos 90 era feita apenas na antiga “primeira série”, ou seja, quando o aluno já estava por volta dos sete ou oito anos de idade.

Com o passar dos anos, o brincar foi deixado um pouco de lado nos jardins de infância tradicionais para dar lugar a mais tarefas didáticas. Essa mudança, a princípio, parece fazer sentido. Quanto mais cedo as crianças se dedicarem as tarefas escolares, melhor será seu aprendizado no futuro. Porém, o pediatra e homeopata Dr. Juarez Furtado discorda. Para ele, nessa idade, uma criança não tem capacidade intelectual para realizar atividades acadêmicas durante muito tempo. “Até os sete anos de idade é o corpo físico da criança que precisa se desenvolver, não é o intelecto. É correr, pular e brincar. O máximo que uma criança consegue prestar atenção em algo, sem se dispersar, são seis minutos e se não for assim, a gente vai ver os prejuízos no futuro”.

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Os brinquedos das escolas Waldorf são feitos de materiais naturais (como lã, algodão, madeira) e estimulam a imaginação da criança. Muitas vezes, são elas mesmas que criam os objetos. (Foto: Escola Waldorf Anabá – Florianópolis).

Fugir da metodologia tradicional de ensino é um desafio, principalmente em cidades menores. Flávia Pereira mora em Porto Belo e visitou algumas escolas para colocar a filha no ano que vem, mas não se identificou com nenhuma. Desde o nascimento de Catharina, Flávia vem procurando métodos diferentes de criação, e foi com os profissionais que fizeram o parto humanizado quando a filha nasceu que conheceu a pedagogia Waldorf. “Desde que a Catharina nasceu a gente vem buscando criar ela da melhor maneira possível, sem violência, com muito apego, com bastante contato com a natureza, e a gente viu que a escola tradicional não é coerente com a nossa família. Fiquei assustada porque minha filha, na época, com quase um ano, nunca tinha assistido televisão e todas as escolas tradicionais que visitamos tinham a hora de ver TV, por isso decidi procurar alternativas e comecei a frequentar o grupo de estudos da Semente, que é a iniciativa Waldorf de Balneário Camboriú”.

A ideia, inicialmente, era colocar Catharina para estudar na escola Waldorf de Balneário, mas por causa da distância da cidade em que mora, Flávia ficou na dúvida se realmente seria a melhor opção. Foi quando através de uma amiga em comum conheceu Jaqueline da Costa Sebastião, ex-professora do ensino regular de Porto Belo, que já se interessava em ler livros e estudar sobre a pedagogia Waldorf há algum tempo também. As duas, então, iniciaram um grupo de estudo de pais que, desde 29 de setembro de 2015, é a Iniciativa Waldorf Porto Belo. As reuniões começaram na casa da Flávia mesmo, sem formalidade. Nos encontros era discutida a ideia de abrir uma escola com esse tipo de método de ensino na região de Porto Belo e o que era preciso fazer para isso, como contratação de professores, custos e etc.

Essa é mesmo a dinâmica das escolas Waldorf, são os próprios pais que se juntam para abrir uma unidade. No Brasil, ao todo já são 95 escolas utilizando essa metodologia. A maioria é particular, porém, já existem quatro escolas públicas também. Estima-se que até agora sejam mais de dez mil alunos waldorfianos em todas as escolas existentes deste tipo no país. A popularidade desse método vem crescendo. Dr. Juarez afirma: “existem várias pedagogias no mundo e a Waldorf, na minha opinião, é uma das mais concorridas e mais interessantes, não é à toa que os “grandões” lá do Vale do Silício, onde é a Google, a sede do Facebook, de várias empresas renomeadas, colocam seus filhos para estudar nessas escolas”.

A pedagogia Waldorf é baseada na antroposofia. O nome surgiu devido ao local em que a pedagogia foi implantada pela primeira vez, uma fábrica de cigarros chamada Waldorf, onde Rudolf Steiner lecionava para os filhos de alguns funcionários. O método criado por ele tem como objetivo desenvolver os seres humanos por meio de três âmbitos: corpo, alma e espírito.

Diferenças entre escolas Waldorf e escolas tradicionais

Na pedagogia Waldorf, na pré-escola, por exemplo, os alunos passam muito mais tempo brincando do que realizando atividades pedagógicas. “O conteúdo é apresentado na época em que cada aluno está preparado para recebe-lo”, conta Camila Maciel, uma das mães que faz parte da iniciativa Semente, em Balneário Camboriú.

As crianças são levadas a conhecer a natureza, aprendem a cuidar do solo, semear, plantar e colher frutas e hortaliças que serão consumidas e muitas vezes preparadas por elas nas refeições. Atividades artísticas são cruciais para a educação waldorfiana, como pintura, música, contação de histórias, entre outras. Outra grande diferença é na parte física da escola. “Já começa pelo ambiente”, diz Flávia Pereira. As crianças não ficam em salas de aulas, ficam em uma casa, em um ambiente familiar, juntas com crianças de várias idades. Não existe separação de turmas por faixa etária.

A figura do professor é muito valorizada. Ele é como um amigo do aluno e de sua família, ele os conhece muito bem e os acompanha durante vários anos, não apenas durante um ano letivo, como na maioria das escolas tradicionais. É o mesmo professor que ensina as matérias curriculares ainda no ensino fundamental: Português, Matemática, História, Geografia, Ciências, etc. “A matemática começa a ser ensinada com o crochê no segundo setênio (que vai dos 7 aos 14 anos do indivíduo), conta Flávia Pereira.

Não há uso de apostilas prontas e não há deveres de casa, todo o aprendizado é feito durante o horário escolar, pois o tempo livre é para o aluno descansar e se preparar para o dia seguinte em classe. É na fase do Ensino Fundamental também que os alunos começam a ter contato com atividades que envolvem tecnologia. Antes disso, na pedagogia Waldorf, entende-se que não há necessidade. Já no Ensino Médio, existe um tutor para cada classe e os alunos passam a realizar, somente nesta fase, alguns testes para verificar a aprendizagem do conteúdo, pois começa a ser feita a preparação para o vestibular.

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Escolas Waldorf x Escolas Tradicionais

A professora Jacqueline Sebastião diz que outro ponto que ela aprecia na pedagogia Waldorf é a questão da religião. “Eu já lecionei em outras escolas e estudo muito sobre educação. Nunca tinha visto outra pedagogia que abrange todas os tipos de religiões nas aulas. Na Waldorf, os alunos aprendem um pouco de tudo”.

Apesar disso, nas festas durante o ano, a escola Waldorf segue o calendário cristão, como a Páscoa, a festa de São Micael, a festa de São João e o Natal. As festas servem também como aprendizado. Várias atividades são desenvolvidas sobre o tema principal com os alunos. Para quem costuma frequentar festejos de escolas tradicionais, as que acontecem nas escolas Waldorf vão parecer um tanto diferente. Não são ingeridos alimentos industrializados durante essas celebrações, como por exemplo na festa de São João que na maioria dos lugares é servido cachorro-quente, pipoca e quentão. Na Waldorf eles comem alimentos orgânicos, da natureza, mesmo nessa data.

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Festa de São João na escola Waldorf Anabá em Florianópolis. (Foto: Escola Waldorf Anabá – Florianópolis).
Escolas Waldorf no litoral catarinense

Apesar de ter bastante procura, a iniciativa Waldorf Semente, em Balneário Camboriú, abriu no mês de março desse ano, mas fechou no dia 23 de setembro. “Estamos em um momento de transição. Como são vários pais juntos, precisávamos de um tempo para nos reestabelecer e quem sabe, se possível, reabrir a escola no ano de 2017, já que somos uma escola associativa e tudo depende de vários fatores”.

Em Porto Belo, a iniciativa está firme e forte. Os pais associados já conseguiram fundos para começar a construção física da futura escola na cidade. “Em um ano já estamos levantando as paredes, já fizemos vários eventos, como cafés e palestras, para arrecadar dinheiro para a construção da escola”, conta a professora Jacqueline Sebastião, que está buscando formação na pedagogia Waldorf para ser a professora titular do futuro jardim de infância na cidade. Os pais também colaboram mensalmente com os valores da obra e a previsão é que a escola fique totalmente pronta em 2017. “O mais difícil na construção de uma escola desse tipo é a formação dos profissionais, que é muito cara”, conta Flávia Pereira.

Em Florianópolis, existem alguns jardins de infância Waldorf, um deles é a “Escola Waldorf Anabá”, construída em 1980, que é hoje a segunda escola mais antiga do Brasil que utiliza essa metodologia. A escola Anabá também surgiu de um sonho de pais que cultivavam a vontade de criar um jardim de infância diferente para os seus filhos e hoje já possui, inclusive, Ensino Fundamental e Médio.

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Fachada da escola Waldorf Anabá em Florianópolis.

Beattriz Angioletti Guiller é mãe de Valentim, de um ano e três meses. Ela está procurando uma escola para o seu filho estudar no ano que vem na região de Balneário Camboriú. Antes de saber que a escola Waldorf Semente tinha fechado na cidade, ela se interessava em colocar Valentim para estudar lá, pois busca um local diferenciado para deixar o filho, porém, não sabe se seria interessante para o futuro do filho. “Procuramos uma escola que não seja apenas uma extensão da nossa casa no sentido de atividades, queremos algo que suplemente, que ofereça experiências diferentes para ele, por isso gostamos de algumas opções na cidade que proporcionam isso, mas eu fico com medo de colocar o Valentim para estudar em alguma escola com pedagogia muito restrita, vivemos em um mundo diferente aqui fora, um mundo sócio-construtivista. Não adianta ele estudar em uma escola Waldorf agora, por exemplo, e depois ter que frequentar uma escola mais tradicional no futuro.”

A pedagoga aposentada Iodete Wolter, que atuou por muitos anos em uma escola da rede pública da cidade de Timbó, diz que a escola tradicional precisa ser reformulada. Ela concorda com a implementação de pedagogias diferenciadas. Inclusive, em um período de sua carreira teve a oportunidade de trabalhar em uma escola com um viés construtivista, em que o saber não é algo que está concluído e sim um processo em construção e criação, e disse que percebeu a diferença nos alunos. Para Iodete, as crianças que forem ensinadas através de metodologias alternativas às tradicionais, como a Waldorf, só tendem a ganhar no futuro e não serão prejudicadas.

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