Economia

Falta de profissionais capacitados deixa vagas de empregos sobrando em agências

Lei do Ministério do Trabalho obriga grandes empresas a contratar pessoas com deficiência para preencher seu quadro de funcionários, mas há pouca procura

Lei do Ministério do Trabalho obriga grandes empresas a contratar pessoas com deficiência para preencher seu quadro de funcionários, mas há pouca procura 

Texto: Andressa Magalhães, Bianca Pereira e Daniella Machado

Você sabe qual é a função de um Técnico de Estamparia?

Mateus dos Santos, 21 anos, estudante e morador do Bairro Cordeiros, em Itajaí, também não. Mas quando perguntado, ele chuta ser a pessoa responsável por estampar logomarcas e emblemas em camisetas. Assim como ele, Flávia Maria da Silva, 53 anos, professora em um Centro de Educação Infantil no bairro São Vicente, imagina que um Técnico de Estamparia é alguém que fez um curso técnico para se especializar em estampar tecidos. Mas será que é só isso mesmo?

Partindo para um conhecimento mais amplo, é possível dizer que um Técnico de Estamparia vai além de somente estampar em camisetas ou tecidos. Após fazer o curso e se formar como técnico, o profissional precisa conhecer os tecidos a ser trabalhados, o tipo de tela que usará para aplicação e os materiais que deve utilizar. Este curso é oferecido pelo SENAI, em Brusque.

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Função é uma das menos procuradas no Balcão de Emprego (Foto: Reprodução/ Design de Camisetas)

Em Itajaí, não existe nenhum curso especializado neste tipo de função. Por conta disso, não há profissionais para preencher as vagas de Técnico de Estamparia disponível no Balcão de Empregos – serviço oferecido pela Prefeitura Municipal de Itajaí, por meio da Secretaria de Desenvolvimento Econômico, Emprego e Renda – que ficam por meses à espera de um profissional. Arquimedes Dauer Junior, Diretor do Balcão de Empregos, afirma que o município tem forte crescimento na indústria portuária e poucas opções de mercado têxtil. “Técnico de Estamparia é uma vaga que está há mais tempo em aberto por Itajaí não ser uma indústria têxtil. Então é mais difícil achar profissionais dessa área aqui. Você até encontra nos municípios vizinhos, mas aqui ninguém se especializa nisso”.

Outra função que há bastante tempo não é preenchida por falta de profissionais capacitados é a de Eletricista de Instalação de Veículos Automotivos. Aquele profissional especializado na instalação da parte elétrica de carros e caminhões.

Para preencher essa vaga, o profissional precisa ter um curso de Eletricista Automotivo, além de experiência na função. A Analista Técnica em Gestão do SINE – Site Nacional de Empregos – Valeria Machado Santana, avalia que essa vaga possui pouca procura pela falta de especialização. “Aqui no SINE essa é uma das vagas que dificilmente aparece um profissional pela falta de um curso“.

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Não há profissionais para preencher vaga de Eletricista de Instalação de Veículos (Foto: Andressa Magalhães)

A falta de experiência é o que preocupa a ex-vendedora Camila Santos, de 20 anos. Ela está dois meses desempregada e acredita que a pouca experiência atrapalha muito na hora de conseguir um emprego. “Falta gente capacitada, as vagas que têm pedem muitas coisas, que infelizmente muitos não têm. As empresas pedem muitas exigências e poucas dão a oportunidade de trabalho a quem não tem experiência ou cursos na área”.

A jovem Valquíria Rosso Strutz, 20 anos, está sem emprego há três meses. Ela tem curso técnico em magistério e algumas experiências na área comercial. Mesmo assim, vê dificuldade na hora de conseguir um emprego. “Com a famosa crise algumas empresas estão segurando mais as pontas antes de pensar em contratar uma pessoa nova, o que é totalmente errado pois sobrecarrega o funcionário e as pessoas “superiores” continuam usufruindo seus privilégios sem qualquer diferença”, relata.

Esse problema também é enfrentado pela administradora Luana Pimentel Machado, 23 anos, que se formou em administração recentemente e mesmo com sua graduação, não consegue um trabalho na área. “As empresas também pedem como requisito ter experiencia na área, o que dificulta muito. Muitas vezes só a faculdade não conta como requisito para conseguir uma vaga de emprego”.

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Moradores vão em busca de emprego todos os dias (Foto: Nelson Robledo)

Segundo Arquimedes, do Balcão de Empregos, as vagas na área de vendas são as que mais são ofertadas. Além delas, estão as de prestação de serviço e as operacionais. Por causa desse número alto de funções neste setor, há dificuldade para o preenchimento das vagas, que mesmo não exigindo muito, oferecem cargas horárias altas e pouco salário. Outro grupo que tem dificuldade na hora de encontrar um emprego são os jovens. “Quem sofre mais para conseguir passar em uma vaga são os jovens de 18 a 24 anos por conta da pouca experiência (em fase de graduação). As empresas oferecem vagas de estágio ou aprendiz com salário entre 800 e 1.200 reais e ninguém quer isso”, explica Arquimedes.

Sobram vagas para deficientes

Em relação às vagas para Pessoa com Deficiência (PCD), obrigatórias pela Lei nº 8.213, de julho de 1991, também conhecida como Lei de Cotas, toda empresa média ou grande com mais de 100 funcionários é obrigada a ter pessoas com algum tipo de deficiência no seu quadro de funcionários. Por conta disso, as vagas têm aumentado nas agências de emprego de Itajaí, mas não há deficientes suficientes para preenchê-las. “O balcão de empregos recebe de 2 ou 3 deficientes por mês apenas, porque as vagas ofertadas são maiores que a população de deficientes”, afirma Arquimedes.

A auxiliar de produção de uma empresa têxtil da região rural de Itajaí, Diamila Loch, 19 anos, é surda e conhece bem essa realidade. Ela terminou o ensino médio e teve bastante facilidade em conseguir uma vaga de emprego. “Foi fácil conseguir entrar para a vaga porque a intérprete me ajudou bastante e tinham poucas pessoas. Aqui o pessoal não é bem preparado, mas eu me dou bem”, conta.

Esta lei imposta pelo Ministério do Trabalho diz que toda empresa precisa preencher pelo menos de 2% a 5% das vagas do quadro de funcionários com algum profissional com deficiência ou reabilitado. Segundo o IBGE, 61% da população brasileira com deficiência não têm ensino médio e somente 6,7% têm ensino superior, por esse motivo, há dificuldades na hora de preencher uma vaga de trabalho.

Por outro lado, na agência SINE, a assistente social Ligia Calado Machado explica que há meses tinham dificuldades para preencher vagas para deficientes, mas que agora isso mudou. “De uns tempos pra cá, talvez pelo fato da previdência estar estipulando critérios mais rigorosos  para conseguir o beneficio, isso tenha afetado e tenha feito gerar uma procura a mais nas vagas de PCD. Hoje temos mais candidatos procurando vagas do que vagas em aberto para PCDs”, conclui.

Crise afeta mercado de trabalho 

De acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgados em agosto de 2016, o número de desempregados da região sul subiu de 5,5% para 8,0% do primeiro para o segundo trimestre do ano. Esse percentual chega a 11,3% em todo o país, totalizando 11,6 milhões de brasileiros desempregados.

Em Itajaí, o professor de Economia da Univali, Eduardo Guerini, esclarece que o desemprego na cidade é visível devido a paralisação geral de atividades fundamentais para o desenvolvimento local. Por conta disso, é gerada uma expectativa pessimista para o futuro, contraindo o interesse por investimentos e impedindo a aplicação de recursos para ampliação de atividades econômicas que estavam em expansão, principalmente o setor portuário. “A falta de dinamicidade local/regional devido à contração na geração de emprego e renda , eleva os problemas sociais para todos os munícipes – aumenta a violência, desigualdade e pobreza. A cidade empobrece e os setores deprimem, expostos pela tendência negativa na geração de emprego, redução da renda e retração na arrecadação geral”, explica.

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Vagas são disponibilizadas no Balcão de Empregos (Foto: Nelson Robledo)

Cristiane Quintino Peixoto, 40 anos, também trabalhou na área de vendas, mas há nove meses foi demitida da sua função. Ela se sente injustiçada e indignada pela forma como as empresas estão lidando com a “crise financeira” no país e tratando os funcionários. “Com a crise os empregadores estão demitindo mais, usando essa desculpa, ao invés de procurarem soluções com seus empregados de crescimento e formas de superarem a crise, antes de simplesmente demitir”. Já Jefferson Darlan da Silva, 41 anos, desempregado há um ano e sete meses, acredita que a culpa de tantos desempregos seja causado pela má gestão do governo. “Falta de pulso do governo para manter as empresas operando, muita lei, impostos altíssimos e nada de incentivos”.

De acordo com o economista Eduardo, a crise financeira que assombra todo o país, inclusive a cidade de Itajaí, terá um crescimento ainda no ano de 2017. E não só os jovens serão atingidos, mas os mais velhos também. As empresas, para reduzir os gastos, irão cada vez mais demitir os empregados. “O desemprego vai aumentar até o final do ano e pode chegar a 15 milhões de desempregados. A melhoria nos indicadores de emprego somente ocorrerão no segundo semestre de 2017, caso as expectativas pessimistas sejam removidas na economia nacional”, avalia.

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