Comportamento

Atenção e empatia podem fazer a diferença na prevenção do suicídio

Saiba como ser um voluntário do Centro de Valorização à Vida e ajudar na prevenção do Suicídio

Setembro Amarelo acabou, mas a prevenção do suicídio permanece. O Centro de Valorização à Vida contribui para a prevenção dele através de ligações.

Texto e Edição: Kauana Amine

Imagine que de repente você recebe uma ligação de alguém dizendo que está com problemas e pensa em acabar com a própria vida. Como, do outro lado da linha, você poderia ajudar essa pessoa? Pode parecer difícil, mas não é impossível. O Centro de Valorização à Vida (CVV)  realiza esse apoio diário através de ligações.

A coordenadora do CVV de Itajaí, Roberta Reis, fala sobre. “O CVV existe para ouvir, conversar e crer no que a pessoa está falando. O principal é ouvir com empatia, se você não tiver empatia o atendimento não vai dar certo”. Em Itajaí há 21 voluntários, sendo 12 plantonistas e o restante da parte de apoio. Há falta de plantonistas no posto, mas por Skype o atendimento é 24 horas. “Se ligar para o posto de Itajaí e tiver fechado, vai cair em algum outro posto”, explica Roberta.

O CVV de Itajaí vai completar 10 anos no mês de novembro e recebe cerca de três ligações por dia. No Brasil há aproximadamente 2000 voluntários e 72 postos, de acordo com dados do CVV. O Setembro Amarelo, realizado no mês passado, é usado como um modo de quebrar tabus. “Ele serve para conscientizar as pessoas a falarem sobre o suicídio”, alerta Roberta.

 “Nosso treinamento conta que se ligar alguém pedindo socorro, nós podemos pedir o telefone da pessoa, ligar para confirmar se é ela mesmo e se a pessoa quiser nós ligamos para o Pronto Socorro e fazemos essa ponte. Mas não direcionamos, não indicamos, não diagnosticamos, pois não somos profissionais. Somos treinados para desabafo”. – Roberta Reis

Todas as pessoas que querem e precisam conversar podem ser atendidas gratuitamente, sob total sigilo por telefone (141), e-mail, chat e Skype 24 horas todos os dias. O Ministério da Saúde pretende implantar o número 188 em todo o território nacional como telefone de emergência.

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Roberta Reis, coordenadora CVV de Itajaí. (Foto: Kauana Amine)

“Nós ouvimos com compreensão, confiança, respeito e sem julgamento. Deixamos a pessoa à vontade para desabafar, não aconselhamos, mas ouvimos com o coração. A pessoa só se identifica se quiser”. – Roberta Reis

Para se tornar voluntário do CVV é necessário ter mais de 18 anos e participar de um curso preparatório gratuito para novos voluntários. Preenchendo os dados neste link  a equipe de treinamento entra em contato com a pessoa para informações sobre o curso.

Falar é a melhor solução

Segundo dados do Ministério da Saúde, o suicídio é considerado um problema de saúde pública. A cada hora no Brasil uma pessoa tira a vida e nesse mesmo tempo outras três tentam se matar sem sucesso. O escritor brasileiro Augusto Cury escreve que “quando uma pessoa pensa em suicídio, ela quer matar a dor, mas nunca a vida”. Visando auxiliar na prevenção do suicídio, o Setembro Amarelo, campanha que existe desde 2014, tem como lema “Falar é a melhor opção”.

O mês de setembro já acabou, mas a prevenção do suicídio, que muitas vezes é tratado como tabu, deve continuar. Mas como preveni-lo?

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Psiquiatra Mario João Bisi ministrando palestra. (Foto: Kauana Amine)

Muitas vezes as pessoas querem livrar-se dos problemas e preocupações, entretanto, nem sempre conseguem falar com as pessoas mais próximas. Nesses momentos em que soluções parecem inalcançáveis é necessário poder dividir as angústias e sentimentos negativos, pois quanto mais a pessoa guarda para si, mais sofrimento gera. Em casos mais extremos esse sofrimento pode levar ao suicídio.

O médico psiquiatra Mario João Bisi realizou uma palestra sobre o Setembro Amarelo na Univali de Itajaí. Ele fala sobre os suportes que quem pensa em suicídio necessita. “Se a pessoa está alertando de alguma maneira é porque ela tem o pensamento, tem a intenção. Tenho que prestar atenção e ajudar, buscar soluções. Isso é o que os psiquiatras trabalham o tempo inteiro: tentar resolver as situações que estão fazendo a pessoa sofrer”

A depressão é um alerta para o suicídio. “Depressão é uma doença que afeta a química do cérebro”, afirma o médico. E Roberta também fala sobre a doença. “A depressão está muito enraizada no mundo. O mito de quem diz que vai se matar não se mata não é verdade. Isso é um outro sinal de um suicida em potencial”.

O psiquiatra ainda trouxe alertas sobre fatores de risco e fatores de proteção para alertar as pessoas sobre o suicídio. Fique atento!

Fatores Risco para Suicídio
  • Desesperança, desamparo e desespero – Tríade de sentimentos geralmente presente nas pessoas que pensam em acabar com a própria vida. Juntando essa tríade com a impulsividade, se a pessoa tem uma rigidez de personalidade, tem-se uma grande chance de conseguir cometer suicídio
  • Fatores Genéticos – Se tem histórico de suicídio na família é necessário ficar mais atento, pois a pessoa pode ter uma propensão maior para tentar também.
  • Álcool/drogas – Há um índice afirmando que mais de 20% de pessoas que cometem suicídio fazem o uso de álcool ou drogas
  • Desemprego – Nessa situação atual de crise, desempregos e falências levam muitas pessoas ao desespero, e nesse estado podem ver o suicídio como uma saída.
  • Tentativas prévias – Pacientes que tentaram suicídio previamente têm de cinco a seis vezes mais chances de tentar suicídio novamente. Estima-se que 50% daqueles que se suicidaram já haviam tentado previamente.
  • Dor crônica – Pessoas que tem alguma dor física, estão sofrendo sem ver saída para a situação que se encontram, podem encontrar no suicídio uma saída. Por isso é necessário ficar atento.
  • Transtornos mentais – Os transtornos psiquiátricos mais comuns incluem depressão, transtorno bipolar e transtornos de personalidade e esquizofrenia. Pacientes com múltiplas comorbidades psiquiátricas têm um risco aumentado, ou seja, quanto mais diagnósticos, maior o risco.

“Se eu prestar atenção em um amigo que tem alguns desses fatores de riscos, eu devo sentar e perguntar “Ei, está tudo bem contigo? Estou notando que tu estás mais calado… O que está acontecendo?” Muitas vezes a pessoa só precisa que alguém abra esse espaço para ela falar como está se sentindo” – Psiquiatra João Mario Bisi

Fatores proteção:
  • Suporte social– Ter amigos, pessoas às quais recorrer. É necessário que as pessoas tenham alguém em quem podem confiar, com quem seja possível desabafar.
  • Suporte familiar – É essencial que a pessoa possa falar com quem mora e convive a respeito de como está se sentindo.
  • Gestação – A gestação é um fator de proteção, tanto pela questão emocional quanto hormonal.
  • Maternidade/Paternidade – O fato de ter crianças em casa são fatores proteção, pois muitas vezes os responsáveis enxergam na mesma um motivo para seguir em frente.
  • Espiritualidade/Religiosidade – São fatores que ajudam. Por exemplo, existem dados afirmando que católicos se matam menos, pois têm o hábito de confessar-se, e assim, expressam seus sentimentos. É necessário encontrar maneiras de aliviar os sofrimentos.
  • Estilo de vida sustentável – Estudos apontam que fazer exercícios e atividades prazerosas liberam substâncias que são neuroprotetoras. É necessário encontrar alguma atividade que seja prazerosa para a pessoa, e não por obrigação, pois dessa forma gera toxinas.
  • Acesso a serviços de saúde mental – A nossa rede de saúde ainda não tem estruturas para abarcar e dar suporte para pessoas que estão precisando. Por isso é necessário investir em políticas públicas .
  • Habilidade em resolver conflitos – Capacidade de lidar com dificuldades e resolver situações que estão gerando sofrimento.
  • Acesso restrito aos métodos – Se a pessoa tem algum tipo de arma em casa é necessário ter mais atenção.
  • Relação terapêutica positiva – Estabelecendo o contato positivo da pessoa com os terapeutas é possível evitar uma medida mais drástica para o tratamento

Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), 90% dos casos de suicídio podem ser prevenidos, desde que existam condições mínimas para oferta de ajuda, de forma voluntária ou profissional.

 

um comentário

  1. Obrigada meninos da Agência Prefixo.Percebe se que vocês estão ligados nas questões acima.E como jovens e formadores de opinião e com este canal de mídia, estão fazendo um grande trabalho .continuem.parabeno e sucesso…

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