Economia

600 Km de comuta – A vida de quem compra em SP

8h de viagem. Idas e voltas semanais. Mais de 600 Km. A vida de quem traz mercadorias de São Paulo para revender na região é marcada por ausências, medos e cansaço.

Oito horas de viagem. Idas e voltas semanais. Mais de 600 Km. A vida de quem traz mercadorias de São Paulo para revender na região é marcada por ausências, medos e cansaço.

Texto: Maria Zucco, Daniel Schiavoni e Thomas Falconi

Nas sextas-feiras, Sandra sai mais cedo da loja e, infelizmente, não é para descansar. São raros os finais de semana nos quais ela consegue relaxar ou passar algum tempo com seu esposo, Amarildo, que também toca os negócios quando ela não está. O casal tem uma das lojas mais movimentadas de um grande centro comercial brusquense, que atrai boa parte do turismo de compras da região. Mas os processos para manter a loja cheia e prateleiras abastecidas não é tão simples quanto pode parecer inicialmente.

Depois do almoço, a lojista vai para casa arrumar as malas, acaricia pela última vez a velha terrier branca e embarca com o companheiro que a leva até o pátio da empresa de turismo. Sandra já fez a mesma viagem incontáveis vezes que suas ações já estão em modo de piloto automático. Leva uma pequena mala cheia de pertences pessoais consigo e deposita bolsas espaçosas e vazias no bagageiro do ônibus da Maçaneiro, empresa especializada nesse tipo de translado.

Marilete dos Santos, responsável pelas viagens, afirma que, toda sexta-feira, lota de um a três ônibus de comerciantes e sacoleiras que vão a São Paulo em busca de novidades e vantagens nos preços. Passageiros de Balneário Camboriú, Itajaí e Brusque são os clientes mais assíduos da Maçaneiro. Apesar de viverem próximos de grandes fábricas de roupas, o custo-benefício da ida à bairros paulistas, como o Brás, acaba deixando os negócios mais lucrativos.  

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São cerca de 650 km e mais de oito horas de uma trajetória tensa. É comum ouvir histórias de assaltos que limpam os bolsos de lojistas preparados para pagar à vista. O medo é uma constante entre os viajantes, que têm amigos que já foram rendidos com armas na cabeça, ou fazem parte desse grupo. Marilete assegura, no mínimo, uma escolta armada feita por uma empresa especializada, para cada dois ônibus na estrada.

A segurança é uma preocupação que afeta Sandra. Ela mantém a filha Gabriela em Florianópolis estudando odontologia na universidade federal. Apesar do curso ser gratuito, os custos com materiais, livros e aluguel são altos. Todos os estudos da garota foram custeados com o trabalho na loja, pelas constantes viagens a São Paulo que a fizeram passar boa parte dos finais de semana na casa de amigas de escola. Sandra sempre se esforçou para dar o melhor que pôde à filha, colégios particulares, viagens internacionais, cursos. A loja garante uma boa vida à sua família.

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Os tempos são de vacas magras, é verdade. Desde o ano passado, caiu o movimento de clientes no centro comercial e Marilete lamenta a diminuição de viagens organizadas pela agência. “A crise pegou, não sei dizer o quanto, mas agora viajam bem menos”. Mesmo com o número de clientes mais enxuto, as longas travessias continuam: para Sandra, ainda há vendas, ainda existem contas a serem pagas.

O chá de cadeira é tedioso. E, ao chegar ao Brás, as compras pedem agilidade. Os tiros são geralmente certeiros, a blusa da novela, a saia na cor da moda, a troca do vestido daquela cliente. É preciso ritmo para dar conta de toda a ronda em apenas um dia. Ao anoitecer o ônibus precisa partir. Um desconto aqui, uma choradinha ali, na hora marcada as bagagens estão sendo depositadas no porta-malas. Uma última conferida para assegurar que nada foi esquecido, e partem mais uma vez de volta a Brusque.

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No meio da madrugada, as ligações começam a ser feitas e os companheiros e sócios se vão a esperar a chegada do ônibus cheio de compras. Abraços e beijos. O alívio não é grande, ainda há trabalho a ser feito. As roupas precisam de etiquetas, as prateleiras precisam de mercadorias meticulosamente dobradas, e, na semana seguinte, mais uma vez o ciclo da viagem deve ser repetido.

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