Bem-Estar

Sexualidade na terceira idade: Vamos falar sobre isso?

Entre os idosos ainda há muito preconceito sobre o tema, que está diretamente ligado a qualidade de vida e autoestima
Entre os idosos ainda há muito preconceito sobre o tema, que está diretamente ligado à qualidade de vida e à autoestima.

Texto: Bruno Golembiewski e Fernanda Vieira
Edição: Daniella Machado

“Hoje eu ainda tenho desejo, falo mesmo”, disse R., uma senhora de 73 anos que preferiu não se identificar. Ela afirma que quando se casou não sabia nada sobre sexualidade e só depois de muito tempo começou a gostar e entender mais do assunto. Ela aponta que o fato de ninguém nunca ter explicado nada sobre sexo prejudica muito a vida sexual das pessoas.

Dados de 2014 mostram que a expectativa de vida no Brasil tem aumentado consideravelmente, chegando à média de 75,2 anos. O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) fez esse estudo e calculou a média em todos os estados brasileiros. Santa Catarina se mostra como o estado da maior expectativa: 78,4 anos. Os catarinenses também têm a maior esperança de vida para os homens (75,1 anos) e para as mulheres (81,8 anos).

Atreladas à expectativa de vida estão a qualidade de vida e também a sexualidade. O tema ainda é tabu entre os idosos que, muitas vezes, até por se sentirem pressionados pela família, não tocam no assunto ou não têm novos parceiros. “Para mim não é tabu. Falo sobre sexo, porém prometi que nunca mais ia fazer, desde que o meu marido morreu”, conta R.

Idosos CCI (1)
A sexualidade ainda é tabu entre os idosos (Foto: Bruno Golembiewski)

O curso Univida, voltado aos idosos e ofertado pela Universidade do Vale do Itajaí (Univali), é coordenado pela professora Kátia Ploner. A ideia é promover o envelhecimento saudável, além de abordar vários temas importantes da atualidade, incluindo a sexualidade. O assunto é trabalhado no sentido de esclarecer as mudanças que acontecem no corpo e na sociedade. São feitas dinâmicas e existe um espaço para perguntas, tudo isso com uma linguagem tranquila. “Tabus não cabem mais, é preciso compreensão e respeito”, argumenta a professora.

O assunto chamou a atenção de dois estudantes de Psicologia – agora já formados -, que resolveram fazer o trabalho final do curso, o TIC, sobre o tema. Natasha Erthal e Eduardo Grapp decidiram trabalhar com essas crenças e tabus. “As pessoas estão vivendo mais, é um tema emergente. Existem demandas nessa área, dentre elas, a sexualidade”, explica Eduardo.

O local para aplicação da pesquisa foi o Centro de Convivência do Idoso (CCI), em Itajaí, que R. começou a frequentar recentemente. Segundo Iná Pereira, que trabalha no local, cerca de 225 idosos frequentam o espaço toda semana. “É um local muito bom para os idosos. Priorizamos os que têm depressão, solidão, eles aprendem e se divertem muito nas oficinas”, informa.

Idosos CCI (4)
Algumas das atividades do CCI envolvem jogos de cartas e dominó (Foto: Bruno Golembiewski)

Após a apresentação do tema, os idosos foram convidados a participar da pesquisa. “O que é sexualidade para você?” foi uma das perguntas que guiaram o trabalho. “90% deles diziam que era sexo”, relata Natasha. As diferentes percepções podiam ser identificadas a cada entrevista. Uns respondiam sucintamente, outros iam além.

Eduardo e Natasha destacam três depoimentos marcantes. O primeiro caso é de uma senhora que vinculava todas as respostas ao amor. Para ela o sexo tem de estar atrelado ao afeto. Foi a única que falou de amor. Por ter vivido um, ela considerava difícil, também pela idade, voltar a ser sexualmente ativa. Natasha explica que muitos deles não falavam de amor porque tinham casamentos arranjados. “Algumas senhoras disseram que nunca tinham experimentado um orgasmo na vida”, revela.

Para aplicar a entrevista eles pesquisaram tudo relacionado ao processo de envelhecimento e à sexualidade. Na Psicologia, a sexualidade não está ligada somente ao ato sexual. “É uma dimensão que engloba várias coisas, nosso olhar, nossa voz, os movimentos, o andar, e não só ligados ao corpo, também as questões psicológicas da sexualidade”, explica Eduardo. “Na velhice é importante o toque, a intimidade com o corpo, masturbação, a dança, o namoro. Tudo isso é sexualidade”, complementa Kátia.

Idosos CCI (18)
Idosos do CCI aproveitam o dia com práticas ao ar livre (Foto: Bruno Golembiewski)

O segundo caso mais marcante foi o de um senhor que, ao ser perguntado como era a sexualidade para ele hoje em dia, explicou que era casado há mais de 50 e que durante o casamento teve vários momentos sexuais, com mudanças. “Um dia, eles estavam trocando de roupa, os dois ficaram nus, se olharam, se abraçaram e foram dormir juntos. Essa foi a experiência da sexualidade para eles nessa altura da vida. Ele não vinculou a sexualidade somente ao ato sexual”, analisa Eduardo. Além das alterações fisiológicas, o envelhecimento tem também as psicológicas, e aquele senhor percebeu outras possibilidades de ter prazer nessa fase da vida.

Kátia explica que não se deve alimentar uma “Ditadura da relação sexual” entre as pessoas, segundo a qual todos precisariam fazer sexo para ser felizes. É importante deixar claro que as práticas sexuais também são possíveis nessa fase, mas dentro de um acordo entre o casal, de maneira saudável e respeitando as vontades e limitações do corpo de cada um.

Idosos CCI (13)

Acadêmicos de psicologia da Univali fizeram um estudo sobre o tema no CCI (Foto: Bruno Golembiewski)

O terceiro caso foi o de uma senhora que tinha uma visão aberta sobre a sexualidade. Segundo os novos psicólogos, ela teve experimentações de todos os tipos ao longo da vida, e tem consciência que a sexualidade é mais do que sexo. “Ela sente a sexualidade quando vai sair para jantar com o marido, dançando tango, um beijo no rosto, na boca quando acorda, antes de dormir”, explica.

De acordo com Kátia, o ser humano tem uma dimensão de sexualidade independente do ato sexual. Além disso, a sexualidade não está ligada ao belo. “A compreensão das mudanças no corpo traz um acalento para a autoestima dos idosos”, observa.

Univida Kátia (2)
Aula sobre utilização da memória com a turma do Univida (Foto: Bruno Golembiewski)

Segundo Natasha e Eduardo, havia idosos abertos e outros fechados ao tema. Muitas vezes, por causa dos próprios filhos, que não querem que a mãe viúva tenha novos parceiros, as pessoas acabam não tendo mais vivências sexuais, por questões que podem ser consideradas culturais. “Seria uma traição [ter um novo parceiro depois da morte do marido], já passei dos 60, tenho que ficar calma”, foi um dos depoimentos ouvidos. Os cuidados com a saúde, passando pelas doenças sexualmente transmissíveis (DSTs), é fundamental, “Eles têm preconceitos, muitas vezes uma dificuldade por desconhecimento. É possível namorar, casar outra vez aos 75, por exemplo”, ressalta Kátia.

Outra questão da pesquisa foi sobre as pessoas não terem educação sexual na escola ou em casa. O que é ensinado nos colégios é o sexo como reprodução. O envelhecimento não é a preparação para a morte: assim como outras fases da vida, faz parte da evolução do ser humano. “Os desejos são os mesmos de 50 anos atrás, o corpo é que não”, destaca Natasha.

Kátia percebe que os tabus têm caído e os preconceitos estão ficando para trás. “Entre os idosos isso tem se modificado, ainda existe o estereótipo, mas isso tem se ampliado”, afirma.

Idosos CCI (20)
Catarinenses são os que mais vivem entre os brasileiros (Foto: Bruno Golembiewski)

A devolutiva do trabalho feita no CCI mostrou que os idosos querem falar sobre isso. Muitos ficaram impressionados com os resultados e queriam falar mais. Remetendo aos dados do início do texto, está comprovado que hoje temos mais qualidade de vida. “A sexualidade está ligada a isso, a viver mais e melhor. Precisamos falar mais sobre isso”, conclui Eduardo.

Sexo, velhice e fotografia, sim, senhor

Quando falamos em ensaios sensuais, por um breve momento idealizamos fotografias de modelos magras e bonitas ou até mesmo o estilo “mulherão”. Pernas torneadas, expressões joviais, barriga trincada; o corpo perfeito envolto em um par de lingeries. Não dá para negar, muitas vezes o pensamento é automático. E quem passou para a terceira fase, como fica?

A sexualidade na terceira idade também é um tabu na fotografia. A preferência por casais jovens e belos em capas de revista e ensaios sensuais prevalece no mercado fotográfico. É para reverter esse pensamento que a fotógrafa holandesa Marrie Bot aposta em modelos “fora do tradicional”: idosos.

Em 2004, Marrie apresentou a série fotográfica “Geliefden – Timeless Love”. O trabalho envolve cenas de amor entre casais da terceira idade, em momentos íntimos. Segundo a fotógrafa, a ideia era mostrar que existe, sim, sensualidade e erotismo após os 60 anos. O ensaio possibilitou uma reflexão sobre a estranheza entre velhice e sexo.

sexualidade_terceira_idade_fotos

O fotógrafo Erwin Olaf também quebrou os paradigmas ao divulgar um ensaio erótico com modelos idosas, na casa dos 70 anos. Elas aceitaram o convite e mostraram que a sensualidade em frente às câmeras não é só para as novinhas. Vestidos curtos, blusas decotadas e lingeries ousadas evidenciaram a beleza das mulheres convidadas para o ensaio.

 

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s