Bem-Estar

Ana e Mia: inimigas da mente em busca do corpo perfeito

A anorexia e a bulimia são transtornos alimentares graves que atingem jovens e adolescentes. As mulheres são as principais vítimas da doença
Anorexia e bulimia são transtornos alimentares graves que atingem jovens e adolescentes. As mulheres são as principais vítimas da doença

Texto: Daniella Machado

Oi! Meu nome é Bulimia, mas os íntimos me chamam de Mia. Sou sua companheira e vou estar com você nas horas de mais aperto e desespero. Estou com você e, quase sempre, com a Anna. Somos o trio perfeito e espero que você não nos decepcione, porque nós, sim, somos suas verdadeiras amigas! Não te decepcionaremos e vamos sempre te ajudar.

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Na internet é possível encontrar blogs pró-anorexia e bulimia (Foto: Reprodução)

“Qualquer coisa que eu colocasse na boca, logo me dava arrependimento e vinha o remorso e a culpa de aquilo iria me engordar”, conta Giseli Brustscher, de 36 anos. “Em toda a minha infância sempre fui gordinha, sempre complexada. Tudo começou aos 15 anos”, recorda.

A anorexia nervosa e a bulimia são transtornos alimentares graves que atingem na sua maioria jovens e adolescentes. Boa parte das vítimas são mulheres. “A anorexia é um transtorno relativamente raro, associado a uma incidência de 5 a 10 casos a cada cem mil indivíduos”, afirma a psicóloga Luciane Brandão, da Universidade do Vale do Itajaí (Univali).

Luciane acrescenta também que no Brasil os estudos sobre a doença ainda são escassos e que aparentemente o transtorno vem se tornando mais frequente na população mais jovem. “A anorexia pode ter início na infância, porém é mais comum que surja na adolescência. Um número menor de casos surge na fase adulta”, explica.

Crédito CBN
A maior parte das vítimas dos transtornos alimentares são mulheres (Fonte: CBN)

Você com certeza terá momentos de extrema tristeza, mas passa, porque nossa amizade é mais forte. Você tem aquelas amigas que não te entendem, e se você contar pra elas, nossa amizade estará em risco: elas vão querer “te ajudar”.

“Eu era a única que não tinha namoradinho na escola, a única gorda e feia”, revela Giseli. “Passava muito tempo trancada dentro do meu quarto, deitada na cama e com cobertas dos pés à cabeça”, acrescenta.

“Entrei numa depressão profunda”, conta a jovem. “E de uma hora para outra percebi que estava emagrecendo naturalmente e então comecei a me empolgar e passei a me cuidar. Mas tudo saiu do meu controle e cada vez comia menos, sempre me olhava no espelho e me achava gorda, teve uma vez que passei quase três dias com uma meia maçã”, lamenta.

Os sinais de fraqueza passaram a aparecer em Giseli depois de algum tempo. A situação durou por volta de seis meses. “Teve um dia que cheguei a desmaiar dentro de casa. Antes pesava em torno de 70 quilos e depois cheguei a 46, estava quase pele e osso”, relembra.

Mas não é isso o que elas querem! Elas querem é destruir nosso laço, e eu tenho certeza que você não quer isso. Portanto, fique de boca fechada, porque você não tem permissão da Anna para comer, e tem minha permissão para botar tudo pra fora, se for necessário! Beijinhos da Mia.*

“Meus pais começaram a se assustar com a minha situação”, relata Giseli. “Na época eles resolveram me levar para consultar com um psiquiatra. Me lembro daquela consulta como se fosse hoje, me marcou muito. O doutor ameaçou me internar caso não voltasse a comer”, afirma.

A falta de alimentação pode trazer diversos malefícios para o organismo. Um deles é a anemia, como explica a nutricionista Priscilla Ramirez, de 25 anos. “A anemia é a redução da capacidade da hemoglobina em carrear oxigênio para os órgãos, ou seja, há uma perda de produção de eritrócitos ou glóbulos vermelhos pela medula”.

Além da anemia por falta de ferro, outras doenças podem vir junto com a anorexia. “A Ana também pode causar osteoporose por falta de cálcio e vitamina D, disbiose, abrindo a porta para várias patologias através do intestino, arritmia por falta de potássio e devido também à desidratação, além de perda da cognição devido a ausência de potássio e tiamina”, esclarece a nutricionista.

Gabriela Azevedo, de 18 anos, também foi uma das vítimas da doença e sabe o que é lidar com os problemas causados pela anorexia. “Fiquei doente, era fraca o tempo todo, e com isso, desenvolvi a anemia, por não comer direito. Minha médica aconselhou que eu tomasse várias vitaminas e até a injeção de ferro para minha anemia”, revela.

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O transtorno alimentar pode levar a morte (Ilustração: Ivan Luiz)

O que é anorexia?

A anorexia caracteriza-se pela necessidade que a pessoa tem de diminuir o peso, recusando-se a comer e alegando falta de apetite. A recusa é voluntária e na fase inicial da doença não ocorre uma perda real do apetite. Mais tarde o organismo pode acostumar-se com a pouca alimentação e a pessoa pode chegar até a inanição.

As pessoas que apresentam anorexia possuem uma dieta com a restrição de grupos alimentares, eliminando aqueles que julgam mais calóricos, mesmo que apreciem esses alimentos. Essa restrição alimentar aumenta progressivamente, com diminuição do número de refeições, e pode evoluir drasticamente, até o jejum, porque a pessoa deseja, a todo custo, ficar cada vez mais magra.

O anoréxico pode morrer em estado de desnutrição. Desidratados, os pacientes sofrem perda de eletrólitos, principalmente potássio, fundamental para o funcionamento muscular e cardíaco.

O que é bulimia? 

A bulimia caracteriza-se por episódios repetidos de compulsão alimentar seguidos de comportamentos compensatórios inadequados, tais como vômitos, uso indevido de laxantes, diuréticos e/ou outros medicamentos, jejuns e também a prática de exercícios excessivos. A pessoa sente uma fome excessiva, e, em seguida, busca mecanismos para eliminar o alimento consumido. Nesse transtorno há a compulsão alimentar, que é a perda do controle sobre a ingestão dos alimentos: a pessoa  “devora” tudo.

Após o episódio compulsivo, sente-se culpada e com certo mal-estar físico, em razão da quantidade excessiva de alimentos ingeridos. Ocorre, então, a ideia de induzir o vômito para não engordar. A frequência desses episódios é variável, podendo ocorrer várias vezes em um único dia. Diferentemente do anoréxico, o bulímico não tem desejo de emagrecer mas, pelo menos, quer manter o peso.

Segundo a líder do Grupo de Investigação em Ciência dos Alimentos, Genômica Nutricional  e Saúde, da Univali, Sandra Soares Melo, o paciente nem sempre emagrece, ainda que induza o vômito ou use laxantes e/ou diuréticos. Isso acontece porque entre 30% e 50% dos alimentos consumidos são absorvidos pelo corpo. O bulímico pode morrer devido aos métodos purgativos e há pacientes que chegam a vomitar 15 ou 20 vezes por dia. Dessa forma, estimulam a desidratação e a perda de eletrólitos.

Tratamento

Segundo a psicóloga Adriana Fischer, a anorexia é uma doença de causa física e psíquica, ou seja, seus fatores são biológicos, psicológicos e ambientais. Geralmente quem procura ajuda é a família”, afirma a profissional.

Giseli também compartilha a importância do auxílio familiar na sua recuperação. “Minha família e meu namorado, hoje meu esposo, foram fundamentais para a minha lenta recuperação, pois não era só uma questão de peso, de beleza, o fator psicológico foi muito complicado”, confessa.

Para Gabriela o tratamento psicológico e o apoio dos pais também foram essenciais. “Meus pais descobriram depois de um tempo, me levaram ao médico e conversavam comigo, tentando entender o porque disso tudo”, relata. “Depois fui fazer terapia com uma psicóloga e melhorei muito”, acrescenta.

Há também o tratamento nutricional. De acordo com a nutricionista Priscilla Ramirez, quando o quadro é grave o ideal é que a paciente seja internada. Nesses casos é necessário iniciar uma terapia conjunta, via oral e enteral (por sonda). “Oferecemos líquidos e semilíquidos em volumes reduzidos e progredimos a dieta para pastosa e branda, conforme a tolerância”, explica. “A cada progressão de volume de dieta, reduzimos o volume de dieta enteral até que o doente consiga se restabelecer e ingerir o valor energético total (VET) pleno por via oral. Depois dessa etapa retiramos a dieta enteral e iniciamos o suplemento proteico junto com a alimentação já normalizada”, finaliza.

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Anahí, cantora mexicana, passou pelo distúrbio alimentar e chegou a pesar 35 kg (Foto: Reprodução)

Campanha contra Anorexia e a Bulimia

A  atriz e cantora mexicana Anahí foi uma das vítimas da doença durante a adolescência. No ano de 2008, Anahí lançou em seu país a campanha “Si Yo Puedo, Tu También” (Se eu posso, você também), para conscientizar jovens que passam pelo problema. O comercial foi ao ar nos canais de televisão e recebeu apoio da Fundação Televisa e da Secretaria de Saúde do México.

Anahí sofreu de anorexia nervosa e enfrentou fases críticas da doença. A estrela mexicana chegou a pesar 35 kg, e em determinado momento foi levada às pressas ao hospital, onde seu coração parou de bater por oito segundos.

Vídeo da Campanha exibida no México:

O uso das redes como meio de ajuda

Na internet é possível encontrar diversos blogs pró-anorexia e bulimia. Em alguns deles há comentários positivos e de incentivo à doença. As garotas são apelidadas de “Borboletas” e o transtorno alimentar recebe os apelidos de “Ana”, para anorexia, e “Mia”, para bulimia. Neles é possível encontrar receitas para dietas de emagrecimento rápido e orientações de como disfarçar a perda de peso exagerada. Alguns blogs chegam a somar mais de 50 mil acessos desde a sua criação.

“A ‘Carta da Ana’ e a ‘Carta da Mia’ propõem ajuda à falsa perfeição. A doença é vista como amiga, pois é um meio de emagrecimento rápido e uma forma de lidar com o desejo compulsivo de comer”, explica a psicóloga Luciane Brandão.

Mas as redes também são usadas para o lado positivo, como o canal do YouTube “Precisamos Falar”, da jornalista Mirian Bottan, que enfrentou a bulimia e hoje compartilha, por meio de vídeos, o que é a compulsão e apresenta dicas para vencê-la. O canal tem pouco mais de 5 mil inscritos.

Em um de seus vídeos, Mirian orienta seus seguidores na escolha de um bom nutricionista e também informa o que fez para se curar e reprogramar o cérebro contra a compulsão alimentar. “Se você quer emagrecer até dá para emagrecer. É muito mais fácil emagrecer com saúde, aprendendo a fazer escolhas. Isso vai te ajudar a controlar a compulsão e a depressão, vai doer muito menos, só que vai dar mais trabalho”, explica a jornalista em um dos tutoriais publicados no YouTube.

“Estamos acostumados a achar que falar a verdade é um sinal de fraqueza, é feio, e isso também é outra construção social onde estamos presos. Quando você pede ajuda, as pessoas que estão ao seu redor e que te amam não vão negar essa ajuda, não vão te tratar com ironia, se isso acontecer, se posiciona, mas não fica quieta, não fica sozinha!”, Mirian finaliza o vídeo com as palavras de incentivo.

*Trechos da “Carta de Mia” retirados de blogs Pró-Anorexia e Bulimia

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