Meio Ambiente

Direto da fonte: A tradição das bicas em Itajaí

Em Itajaí, há pelo menos seis bicas: a do BNH, Fazendinha, Parque do Atalaia, Cabeçudas, Ressacada e Praia Brava

No município há pelo menos seis bicas: a nascente do BNH, Fazendinha, Parque do Atalaia, Cabeçudas, Ressacada e Praia Brava

Texto: Bruno Golembiewski e Fernanda Vieira
Edição: Daniella Machado

Era novembro de 2008. O amontoado de gente se estendia pela Rua Cecília Brandão e continuava, virando na Rua Uruguai, no bairro Fazenda. Em meio ao caos que se instalara na cidade, ainda era possível encontrar conforto e certa segurança. Água para beber não faltaria para muitas famílias. “Colocava o relógio para despertar de madrugada para não pegar fila. Ainda assim, quando chegava lá, encontrava uma ou duas pessoas com seus galões”.

Essas são palavras de Paulo Ricardo Schwingel, que mora na rua onde centenas de pessoas iam, todos os dias, buscar água da bica na época da enchente que atingiu Itajaí, em 2008. A procura era tão grande que Paulo revezava seu lugar na fila com um dos filhos. Ele é professor da Univali, nos cursos de Engenharia Ambiental e Oceanografia, e também dá aula no Mestrado e Doutorado em Ciência e Tecnologia Ambiental.

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“Ela foi importante há 150 anos e é importante hoje!” Paulo faz referência à importância das nascentes para a emancipação de Itajaí. Graças a elas, a cidade tem condições de se abastecer (Foto: Bruno Golembiewski)

Ele afirma que Itajaí ainda irá sofrer com mais enchentes. “Não preservamos como devíamos os bens naturais que protegem a cidade desse tipo de evento. Então, pode demorar, mas as consequências vão vir. Com certeza!”. Apesar de a afirmação ser impactante, o professor fala sem pestanejar. O rosto e os olhos não expressam qualquer sinal de dúvida. Rabiscando num papel solto sobre a mesa, ele explica alguns dos motivos que deram essa característica inconstante à cidade.

O nome já diz: Foz do Vale do Itajaí. A cidade é cercada por morros. Eles são o último ecossistema que restou intacto. Embora a especulação imobiliária tente, cada vez mais, avançar para estas localidades. O Parque da Ressacada, o Morro da Cruz, e os morros da Fazenda estão todos aqui com suas nascentes que escorrem água. Se estas áreas onde estão as bicas forem atingidas, a cidade fica comprometida. Em Itajaí existem três importantes fatores que influenciam em casos de alagamentos:

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Francisco Braun Neto, coordenador do Curso de História da Univali, conta que, em termos de lembrança e memória, a bica do BNH teve uma importância além de 2008. Assim como há oito anos, em 1983 e 1984, nas primeiras grandes enchentes que o município enfrentou, a bica, que faz parte da morraria da Ressacada, já serviu como abastecimento de água para os moradores. Francisco, que já morou no local, relembra as filas de moradores de diversas partes da cidade na bica. “A bica tem uma função social e é uma dimensão pouco explorada, as pessoas não conhecem mais as bicas”.

Ele diz ainda que água potável em Itajaí sempre foi uma questão importante. No início dos anos 2000, com uma maior salinização da água disponibilizada pelo poder público, faziam e fazem de bica uma alternativa viável e sem custo para a população da cidade.

“Agindo no presente, pensando no futuro”

Chinelo de dedo, calção e camiseta. Estende a mão. Cumprimenta. A pele é morena, bronzeada. Com passos curtos caminha em direção ao final da rua. Dos adereços e trejeitos o que chama atenção é a garrafa de plástico de 5 litros que carrega. Ela está vazia. “Ao invés de encontrar obstáculos, dizendo que a água está ruim, é preciso encontrar uma solução. Precisamos incluir as bicas nas políticas públicas de Itajaí”. Buscar soluções é uma das lutas de Giordano Zaguini Furtado, presidente da Associação Amigos da Bica e do BNH, que batalha pela preservação da bica localizada no conjunto do BNH, no bairro Fazenda.

A Associação surgiu no final de 2013, quando uma empresa imobiliária degradou o curso d’água e a bica do BNH ficou ameaçada. Uma retroescavadeira esteve no local e houve um protesto da comunidade. “O trator que teve aqui foi a gota d´água. Moradores choraram em frente à maquina pra que eles interrompessem o desmatamento”.

Entre os objetivos da Associação estão: preservar o meio ambiente de Itajaí, a mata nativa e as três nascentes de água do conjunto de morros. Também lutam contra a exploração imobiliária no local.

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“A melhor maneira de preservar é respeito a lei” Giordano cita a lei que protege a bica (n.º 9.985/2000 – Art 2º), que garante a preservação de 50 metros de circunferência na nascente e de mais 30 metros para cada lado das margens do curso d’água (Foto: Bruno Golembiewski)

É um direito constitucional, descrito na Lei n.º 9.433/97 – Art 1º, de que qualquer pessoa pode ter acesso à água das bicas. E há outra lei, n.º 9.985/2000 – Art 2º, que garante a preservação de 50 metros de circunferência na nascente e de mais 30 metros para cada lado das margens do curso d’água.

Eles se reúnem mensalmente para discutir as ações de preservação da bica junto a órgãos ambientais municipais, como a Fundação do Meio Ambiente de Itajaí – FAMAI. Atuam também cobrando e exercendo o controle socioambiental dos atos do poder público. Giordano conta que já foram feitos testes na água, porém, há muitos anos isso não ocorre. Uma das prioridades da organização é encaminhar o pedido de avaliação da água, para garantir a saúde de quem consome esse recurso.

De todas as bicas, em Itajaí, a do BNH é a única que tem uma associação formal, as outras geralmente têm cuidados da comunidade, que limpam o terreno e fazem a manutenção das mangueiras. Eles fazem isso de maneira humana, se reúnem todo mês e não ganham nada além da satisfação em ver um bem comum sendo preservado.

Bicas e a comunidade

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Logo que um novo visitante para em frente à bica, Dona Rosa Rebelo já se põe na janela e olha desconfiada. Ainda mais quando são pessoas desconhecidas que seguram câmeras fotográficas. “Por que vocês tão tirando foto?”, questiona.

A senhora magrinha usa roupas simples, mas muito bem engomadas. Seus movimentos e seu jeito de falar são suaves e discretos. Ela expressa um largo sorriso, a felicidade é grande quando descobre que o assunto da matéria é a bica ao lado de sua casa, na Fazendinha. “Há mais de 20 anos pego água da bica. É uma água muito boa, uma benção de Deus”, conta.

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“Não troco essa por nenhuma outra” Dona Rosa Rebelo é vizinha da bica. Com a água da fonte mata a sede, lava a roupa e cozinha (Foto: Bruno Golembiewski)

A bica em questão fica no terreno de Dona Marli. Todos os dias ela abre e fecha o registro para as pessoas pegarem água. Percebendo uma movimentação diferente, Dona Marli aparece para descobrir o que há. Num primeiro momento, sentiu-se desconfortável. Os olhos quase se fecharam e uma ruga apareceu no meio da testa em sinal de suspeita. “Quem são vocês?”.

Quando descobre o teor da matéria, coloca-se em frente ao portão que dá acesso à bica. Depois de muita conversa jogada fora, acaba cedendo e até sendo gentil. “Minha água é boa. Todo mês fazem teste. Só que tenho gastos. Pago um moço para limpar o terreno todo mês. Gasto dinheiro para deixar isso aqui aberto para todo mundo”.

Ao lado da fonte, escrito em um tubo de concreto, o aviso: “Colabore aqui. Se não colaborar, fecho”. Sobre ele, um cofrinho com cadeado. Quem quiser fazer uma contribuição deixa ali um trocado. Nelson da Rosa Filho, de 45 anos, mora em Piçarras e desde que conheceu a bica, parou de comprar água. “Tenho esposa e uma criança de cinco anos em casa. Nós nunca passamos mal”, conta.

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Nelson excercendo seu direito que está na constituição (Lei nº 9.433/97 – Art 1º)  e diz que qualquer pessoa pode ter acesso à água das bicas (Foto: Bruno Golembiewski)

Davi José Teixeira, de 54 anos pega água na bica há mais de 25 anos, mas já pegou na Praia Brava e no Clube Ariribá. Davi acha que deveria ter mais incentivo do poder público com as bicas, para que haja mais cuidado e preservação desses locais. Com isso, melhorias podiam ser feitas no local.

Ele recém havia feito uma simples limpeza, coletando lixo e cortando um pouco do mato que cai sobre o bica. Ao seu lado, Ivonir Sezaro, de 58 anos, concordava com o conhecido, evidenciando a importância da bica. Seu Ivonir pega água na bica de dona Marli há cerca de 15 anos.

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Davi e Ivonir comentam sobre a qualidade da água “É muito boa”, garantem  (Foto: Bruno Golembiewski)

Em menos de 30 minutos, pelo menos seis pessoas passaram pela “bica da Fazendinha”. A temperatura agradável e o dia ensolarado atraem ainda mais visitantes à bica de Marli, e ela prevê: “Hoje o dia tá quente. Essa bica vai bombar”.

Do outro lado da Rodovia Osvaldo Reis, subindo a rua João Antonio de Oliveira que dá acesso à praia de Cabeçudas está outra bica, ao lado de um poste. Segundo os moradores, várias das casas da rua, que ficam próximas à bica, são abastecidas por esta água. Seu Valdemar, de 58 anos, se desloca do São Vicente até a subida da rua para buscá-la. De quinze em quinze dias, ele enche inúmeros galões de água no local.

Para ele, o governo só aparece para dizer que a água é imprópria. “Um senhor criou três gerações de sua família bebendo essa água, e vem eles dizer que não presta”, contesta. Ele, ao contrário de Davi, prefere que continue sem muita participação do governo municipal, para que não coloquem defeitos e limitem o acesso à água.

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Seu Valdemar confia na bica para sua família, a família do irmão e dos pais (Foto: Bruno Golembiewski)

A uns 20 minutos de carro, no fim de uma rua de barro, com casas de alto poder aquisitivo, uma árvore grande cobre o que seria a entrada. A mais ou menos 50 metros adentro da mata, o destino ainda não conhecido. Uma trilha com marcas de pegadas humanas e rodas de bicicletas. A terra está lamacenta devido às chuvas recentes. Entre as folhas das árvores, é possível ver a luz do sol, que ilumina as pedras onde a água corre.

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Aos pés do morro do bairro da Ressacada, em Itajaí, três mangueiras improvisadas trazem água, limpa e cristalina, formando um pequeno córrego, que conduz o excesso d’água de volta para o solo. Apesar da trilha estreita, algumas pessoas entram de moto para facilitar o caminho de volta com as garrafas cheias. Sérgio, de 50 anos, conheceu a bica por indicação e, apesar de ser um pouco afastada, vai uma vez por semana pegar água no local. “Passo aqui uma vez por semana mais ou menos. Faço isso há mais de três anos. Gosto muito da água”.

As pessoas criam vínculos com as bicas. Embora hajam outras em Itajaí, elas costumam pegar sempre em uma só. Lutam para mantê-la segura e preservada. Abrem os portões de suas casas para permitir a entrada de outras pessoas, que enchem seus galões. Limpam, trocam os canos, ajeitam como podem os locais da fonte. Tudo isso para ver aquela água transparente e livre de qualquer impureza continuar jorrando e saciando a sede de muitas gerações itajaienses. “Proteger as bicas é preservar nossa cultura, nossa história, o meio ambiente e, consequentemente, nós mesmos”, alerta Schwingel.

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