Meio Ambiente

Canto do Morcego: um projeto, uma luta e vários abraços

Ações são realizadas periodicamente em prol da preservação do local e contra a construção de empreendimentos

Ações são realizadas periodicamente em prol da preservação do local e contra a construção de empreendimentos 

Texto: Nicolle Machado e Thomas Falconi                                                                                         Edição: Bianca Pereira 

O Canto do Morcego é considerado um lugar paradisíaco para os frequentadores, turistas e moradores da Praia Brava, em Itajaí, onde é localizada a montanha rochosa que abriga morcegos durante à noite. Para os curiosos, a chegada ao local é a parte mais bonita. É preciso ir pela praia de Cabeçudas e atravessar uma estradinha até o lugar. Chegando lá, o que se vê são matas nativas, mar aberto e uma belíssima paisagem capaz de tirar o fôlego de qualquer um. Por causa disso, a localidade vem atraindo o olhar de grandes investidores e imobiliárias que querem construir Resorts e  empreendimentos luxuosos.

Essa procura por construções é vista de forma negativa por protetores que lutam pela preservação do Canto do Morcego. Por isso, diversas ações são organizadas para chamar atenção da população e do governo. No dia 16 de outubro, o 1° Festival Salve o Canto Morcego pretende arrecadar fundos para ajudar nessas atividades de preservação que começou com o movimento de um abraço simbólico ao Canto do Morcego em 2008. De lá pra cá, diversas ações são realizadas a fim de chamar a atenção para uma luta que beneficia  a todos. O Abraço é a iniciativa de mais sucesso, já que, as pessoas geralmente abraçam aquilo que elas têm um apreço maior.

É o caso de Jorge Gastaldi que incomodado com a possível construção nos arredores da Praia Brava e do Canto, decidiu participar de uma edição do Abraço ao Canto do Morcego em 2013. Ele tem 20 anos e conhece o local há mais de cinco, por conta da prática de surfe na região. Jorge reconhece a praia de Itajaí como um dos poucos lugares na cidade em que é possível ter contato direto e puro com a natureza. “Um oxigênio puro para se respirar, uma vista maravilhosa e um silêncio, uma paz que causa inveja em muitos monges. Por esses motivos passei a me engajar com ações de preservação”, comenta Jorge, que é estudante de Engenharia Civil. “Dentre as matérias do meu curso, uma é de planejamento urbano. O desenvolvimento urbano está voltado totalmente aos veículos, construções de estradas maiores, rodovias, quando na verdade deve-se voltar atenção para as pessoas, como construções de áreas verdes e parques naturais”, explica.

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Canto do Morcego chama atenção pela preservação (Foto: Bianca Pereira)

O itajaiense Jorge não estava sozinho. Centenas de pessoas se reúnem periodicamente para abraçar o canto. Uma das organizadoras do evento é Sabrina Schneider, presidente da União dos Amigos da Brava (Unibrava). A ligação de Sabrina com o Canto do Morcego, que consta como área de zoneamento no Plano Diretor de Itajaí, vem desde a adolescência, quando ia ao local com a irmã. “O pessoal levava comida (frutas, pães, bolachas) e às vezes rolava mariscos e búzios também, e era uma delícia. Todos os dias as mesmas pessoas se encontravam para viver a praia”. Foi em um desses encontros que Sabrina, hoje com 29 anos, conheceu Cláudia Severo, então presidente da Unibrava, que já na época realizava movimentos contra construções urbanas no Canto do Morcego.

Desde então, Sabrina, educadora ambiental e servidora pública na Câmara de Vereadores de Itajaí, se envolveu com várias causas sociais. “Já tentei algumas vezes pular fora, não atuar mais, tanto na causa da Praia Brava como em outras das quais participo, mas são razões sem as quais eu não conseguiria viver bem como vivo hoje; a vida não teria mais tanto sentido”. Sabrina conta também que o abraço é apenas uma das formas de atuação que ela encontra. “Integro conselhos, participo de reuniões, eu e minha irmã temos um blog, então são várias linhas de frente, sempre com foco em informar, disseminar informação, agregar pessoas em torno das causas, agitar a cidade”.

Dos agitos que os abraços coletivos promovem, Sabrina, moradora do bairro Fazenda, conta com o primo Gabriel Camillo para registar. Ele é fotógrafo e participou de pelo menos três edições do abraço. Gabriel é morador de Balneário Camboriú, mas afirma: “faço o trajeto entre as duas cidades praticamente todo dia, e da mesma forma que frequento as praias de Balneário frequento as de Itajaí, incluindo a Brava e o Canto do Morcego”. Gabriel, com vinte anos de idade, estuda Fotografia na Univali. “Vejo o protesto de uma forma diferente, inclusive pelo nome, Abraçar o Canto do Morcego. A gente abraça alguém que amamos, da mesma forma que abraçamos um local que gostaríamos de deixar preservado”.

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Abraço ao canto do morcego realizado em 2013 (Foto: Gabriel Camillo)

Gabriel lembra do Canal do Marambaia, hoje um córrego canalizado na Barra Norte de Balneário Camboriú, para exemplificar o que sente em relação ao futuro do Canto do Morcego. Ele acredita na importância de suas fotografias para registrar o que ele chama de corrente humana que luta por uma mesma causa.  “Da mesma forma que vejo uma foto de um protesto de décadas atrás, quero que no futuro alguém veja as fotos do abraço e sinta a mesma energia positiva que senti no dia em que fotografei”, finaliza Gabriel.

Na íntegra você confere o depoimento de Sabrina Schneider do porquê devemos entrar na luta pela preservação do Canto do Morcego e logo em seguida a música tema da preservação do Canto do Morcego, escrita por Victor Praun:

“Talvez soe estranho para algumas pessoas. Estamos acostumados a ser e conviver com pessoas que acordam todos os dias para trabalhar, guardar dinheiro, comprar casa, carro, conquistar coisas pessoais e eu não sou diferente dessas pessoas nesse sentido. Mas acho que dentro de algumas pessoas pulsa uma energia coletiva, parece que você não está completo se só pensa nos seus. Sempre me incomodou muito o fato das pessoas serem tão individualistas; lutarem tanto por si sem olhar para os lados. Então, naturalmente, desde sempre, me vejo envolvida com causas, lutas, movimentos socioambientais. O Canto do Morcego é uma causa apenas, talvez a mais importante, que ocupe mais o meu coração e tempo, mas me envolvo em outras histórias que considero relevantes e com as quais me identifico. Sempre digo que meu amor pelo Canto do Morcego e Praia Brava me fez aceitar e compreender que tenho uma responsabilidade com esse espaço. Se eu frequento, amo, qual a razão de fechar os olhos para o que está acontecendo? Por que eu não cuidaria desse lugar? Não dizem por aí que quem ama cuida? Durmo tranquila e feliz sabendo que eu integro um grupo especial de pessoas que ama de verdade seu espaço, sua cidade. E que luta com muito afinco e coragem pela sua preservação”.

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