Bem-Estar

Daltonismo: a vida de quem tem limitações para reconhecer as cores

Cerca de 5% da população mundial tem de descobrir outras maneiras de identificar as cores devido à doença

Cerca de 5% da população mundial tem de descobrir outras maneiras de identificar as cores devido à doença, que tem origem genética

Texto: Ana Nasato e Natália Rocha
Edição: Pedro Henrique Homrich

Quando estava no colégio, Joel era obrigado a ouvir a professora de artes lhe chamar de preguiçoso pelo fato de ele pintar todas as partes da árvore que desenhava da mesma cor. Para ele, a cor do tronco e das folhas não tinha diferença. Certo dia, quando estava na 6ª série do Ensino Fundamental, seu professor de biologia começou a explicar a formação genética dos cromossomos e mostrou aos alunos um teste de daltonismo em um livro didático, dizendo que quem não conseguisse ler o que estava escrito dentro do círculo era daltônico. Joel, de prontidão, comentou com um colega que não conseguia identificar o que tinha dentro do tal círculo, mas o amigo não o levou muito a sério. Com a possível descoberta, o menino foi a um oftalmologista, fez outros testes e confirmou: era daltônico.

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Teste de daltonismo com figuras de Ishihara. (Foto: Internet)

De acordo com a oftalmologista Natacha Cavasini Hoffmeister, o daltonismo ou discromatopsia é uma doença hereditária e genética ligada ao cromossomo X, ou seja, é transmitida pelas mulheres. A grande curiosidade, no entanto, é que elas raramente têm o distúrbio. O daltonismo não tem cura e nem tratamento, porém, graças ao avanço da tecnologia, alguns daltônicos já possuem óculos especiais que lhes permitem enxergar as cores normalmente.

Joel Minusculi é gerente de mídias digitais e, além das palavras, lida diariamente com manipulação de imagens e criação de layouts, consequentemente, com muitas cores. O daltonismo dele é do tipo dicromático, quando não há um tipo específico de cones (células localizadas na retina que são responsáveis pela percepção de cores), apresentando-se sob a forma de protanopia, em que não é possível identificar a cor vermelha, devido à ausência de cones “vermelhos”. Joel confunde vermelho, verde e alguns tons de marrom. Apesar disso, no caso específico dos softwares usados por ele no trabalho, o daltonismo não é um problema. Joel explica que o Photoshop, por exemplo, diz quais são as cores e até o quanto de cada cor tem em uma imagem.

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Formas de daltonismo do tipo dicromático. Há ainda os tipos monocromático e tricomático. (Foto: Divulgação Gshow)

Se no trabalho há como se virar, no dia a dia algumas situações são complicadas. Joel conta que os daltônicos acabam tendo que decorar a cor dos objetos e têm problemas com alguns tipos de semáforos. A boa notícia, no entanto, de acordo com a doutora Natacha, é que o daltonismo não tem nenhuma relação com outras doenças oftalmológicas e não evolui.

Há duas semanas, Joel fez um desabafo em seu Facebook sobre a versão do refrigerante Cola-Cola com Stevia (adoçante natural) e 50% menos açúcares. Ao contrário do que se pode imaginar, ele não reclamou do sabor dessa nova Coca – pelo menos não especificamente. Joel, na verdade, descreve sua ida ao mercado para comprar a Cola-Cola versão normal para o lanche da tarde no trabalho. Ele diz que foi até o corredor de sempre, pegou a garrafa e foi embora, sem prestar atenção no que estava escrito no rótulo. Quando chegou ao escritório, uma colega logo que viu o refrigerante se surpreendeu: “Nossa, o Joel pegou a Coca verde”. Na hora ele levou um susto, e só então descobriu que, na verdade, o rótulo daquela versão é esteticamente igual ao da versão tradicional, mas com uma pequena diferença: ele é verde. Como Joel confunde tons de verde e vermelho, ele não conseguiria diferenciar as duas versões sem ler a frase “com Stevia e 50% menos açucares” impressa no rótulo verde.

Depois do acontecido, Joel reconhece que deveria ter lido o rótulo, mas deixa um recado para os designers de embalagens para pensarem nas pessoas daltônicas que, como ele, não veem diferença entre a Coca verde e a vermelha tradicional.

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Assim como Joel, Emerson da Luz, que também é daltônico, trabalha com muitas cores; ele é diretor de imagens em uma emissora de televisão. Para os dois, a tecnologia tem sido uma grande aliada, pois Emerson não aponta para a profissão quando pensa nas maiores dificuldades que passa por não conseguir diferenciar as cores.

Ele também confunde verde e vermelho, portanto, os semáforos são um desafio constante. Fora isso, segundo Emerson, quando ele e a esposa saem juntos para comprar roupa sempre “rola um estresse por causa das cores”.

Apesar das dificuldades apontadas, um daltônico consegue levar a vida normalmente. O que há, na verdade, é uma curiosidade a respeito do assunto. A cor na sua forma física é limitada, mas o colorido do estado de espírito é ele quem decide.

Olimpíadas X Daltonismo

Recentemente, o Brasil recebeu, na cidade do Rio de Janeiro, os Jogos Olímpicos 2016. O colorido da abertura da festa, que encantou o mundo, não pode ser muito apreciado pelos daltônicos. Entretanto, nesta edição dos jogos, diferentemente de Pequim, em 2008, e Londres, 2012, eles conseguiram acompanhar o “raio” Usain Bolt passar pelas pistas de atletismo.

Em Pequim e Londres, as pistas das provas de atletismo eram vermelhas, o que para Joel, Emerson e tantos outras pessoas que têm daltonismo do tipo protanopia é complicado, pois eles não conseguem distinguir a cor do uniforme de Bolt e de seus adversários do chão. Para quem enxerga as cores normalmente já é difícil seguir Bolt nas pistas, afinal, ele disputa provas de velocidade e passa quase que, literalmente, como um raio pelos olhos de quem o está assistindo. Imagine para os daltônicos.

No Rio, a pista onde foram disputadas as provas de atletismo era azul, fato que facilitou muito a vida dos daltônicos.

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Em Londres a pista e os uniformes dos atletas ficam, praticamente, nos mesmos tons, dificultando a distinção deles. Já no Rio é possível distinguir melhor os atletas e a pista.

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