Entrevista

Amor à camisa e bola no pé: conheça a carreira do jogador Gustavo Bergmann

Pouca idade não foi empecilho para ele sair de casa, viajar o mundo, conhecer culturas diferentes e jogar contra seus ídolos

Pouca idade não foi empecilho para ele sair de casa, viajar o mundo, conhecer culturas diferentes e jogar contra seus maiores ídolos

Texto: Bianca Pereira 

Você já imaginou viver fora de casa e decidir a sua profissão aos 13 anos de idade? Parece loucura, não é? Não para Gustavo Bergmann de Oliveira, de 20 anos. O jovem que nasceu em Horizontina, Rio Grande do Sul, viveu até os 10 anos de idade em Porto Alegre.  Durante esse tempo na capital gaúcha, ele assistiu e participou da escolinha de futebol do Internacional – seu time do coração -, jogou campeonatos escolares e dedicou toda a sua infância ao esporte. A bola era sua amiga fiel e tudo que lhe trazia mais alegria e felicidade. “Meu pai e minha mãe já sabiam que eu iria seguir algo nesse meio”.

Com 10 anos, toda a família se mudou para a cidade de Balneário Camboriú, no Litoral Norte de Santa Catarina. E foi aí que as oportunidades surgiram. Além de jogar no colégio, Gustavo foi matriculado na escolinha do Grêmio e participou de campeonatos importantes, como o Catarinense de Escolinhas. Foi em um sábado, na final do campeonato, que a sua vida tomou um rumo diferente e teve destino certo. Um olheiro do Atlético Paranaense estava assistindo ao jogo e se interessou pelo garoto. O pai de Gustavo não pensou duas vezes e levou o filho para fazer um teste em Curitiba, no CT do clube. “Foi ali que tudo mudou completamente! De escolinha eu fui para um dos maiores times do Brasil”.

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Gustavo morou no CT do Atlético Paranaense por alguns meses (Foto: Arquivo Pessoal)

O choque foi grande. Gustavo só tinha 13 anos, mas sabia que sair de casa o faria crescer profissionalmente e como ser humano também. A decisão, tomada em conjunto com toda a família, fez o garoto ter certeza do que queria para o resto de sua vida.

Gustavo passou a ser apenas Guto. Jogou no Red Bull Brasil, depois conseguiu um contato com um empresário que o levou para o Mallorca, da Espanha. Sete meses após jogar na Europa pela primeira vez, o lateral esquerdo voltou para a cidade catarinense e teve a oportunidade de jogar profissionalmente no Camboriú Futebol Clube. Com apenas 16 anos, ele entrou para o time sub-20 e participou da Copa Santa Catarina e do Campeonato Catarinense, sendo destaque nas duas competições. Além disso, Guto consagrou sua passagem pelo clube, se tornando o atleta mais novo a participar da equipe profissional. “Foi uma passagem muito boa tanto como jogador, tanto como pessoa porque eu estava perto da minha família, estava morando com eles e tinha o apoio deles diariamente”, completa.

De volta à Europa, Guto desenvolveu ainda mais sua carreira passando pelo Vicenza, da Itália, e Deportivo La Coruña, da Espanha. Em 2015, o ex-jogador do Camboriú atravessou o Oceano Atlântico novamente, mas dessa vez seu destino foi a América do Norte. Nos Estados Unidos, Guto jogou pelo Miami Dade e atualmente atua pelo Boca Ratón, time que o fez conhecer um dos seus maiores ídolos, Adriano Imperador.

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Adriano Imperador jogou pelo Miami United que venceu o Boca Ratón de Guto Bergmann por 4 a 2 (Foto: Arquivo Pessoal)

Há poucos dias, o atleta iniciou outra aventura na carreira, desta vez fora de campo. Conseguiu uma bolsa de estudos pelo programa InterSports America para estudar e jogar pela Lynn University de Boca Ratón. Conciliando treinos e estudos, Guto pretende se esforçar bastante nos quatro anos de bolsa que tem pela frente e quem sabe chegar à primeira divisão dos Estados Unidos.

Confira uma entrevista completa sobre carreira, sonhos e o futuro de Guto Bergmann:

1 – Você começou a praticar futebol através de escolinhas, certo? Como foi isso? Quem te incentivou mais?

A escolinha principal e onde eu comecei a jogar mais sério foi na escolinha do Grêmio, em Balneário Camboriú. Ali a gente começou a jogar campeonatos mais importantes de escolinha, como Catarinense e essas coisas. E foi um apoio bem amplo de toda família. Meu pai, minha mãe e meus avós sempre me levavam para os treinos. O apoio vinha de toda a família.

2 – Você acompanhava desde pequeno os jogos pela televisão? Quem era o seu ídolo?

Eu acompanho bastante futebol, assisto de tudo. Só que as minhas memórias mais claras de assistir futebol são de 2004 e 2005. Foi bem na época que o Ronaldinho estava despontando e estava no auge da carreira dele. Então, o Ronaldinho é meu ídolo.

3 – Aos 13 anos você decidiu que o futebol seria sua profissão. Por que você decidiu isso tão cedo?

Durante esse período na escolinha do Grêmio, aos 13 anos, a gente disputou a final do Catarinense de escolinha e nessa final estava um olheiro do Atlético Paranaense que depois do jogo veio até mim e meu pai. O jogo era num sábado e ele disse que na segunda-feira era para eu estar em Curitiba no CT do Atlético-PR pois eu estava convocado para fazer um teste. Eu tive um choque e pensei: “Pronto! Agora eu não sou mais aquela criança e vou ter que sair de casa”. E desde aquele momento eu nunca mais parei e sabia o que queria da minha vida.

4 – Foi difícil para os seus pais apoiar o seu sonho e deixar você sair de casa tão novo? Como foi essa relação deles com o início da sua profissão?

Até hoje eu não sei explicar como é que foi essa história do apoio dos meus pais e como eles aguentaram, porque minha família é muito unida. Eu, meu pai, minha mãe e meu irmão somos muito, muito, muito unidos. Somos muito amorosos um com o outro. E eles sempre lidaram muito bem com isso. Somos tão unidos que superamos qualquer distância. A gente sempre brinca que eles querem mais do que eu. Nessa luta pelo meu sonho, eles me apoiam muito! Se não fosse por eles, eu não sei se eu aguentaria desde os treze anos fora de casa. Eu não sei como é lá entre eles, mas sempre me apoiam muito. Eles nunca me disseram “volta”, mas sempre disseram “aguenta, é o teu sonho e vai dar certo. Um dia a distância vai ser curta!”.

5 – Quais foram os primeiros passos que você deu na carreira? Os primeiros times que você passou?

Meu primeiro time profissional foi o Atlético Paranaense em 2009, eu fui para jogar no sub-13. Foi uma das maiores gerações do Atlético. Eu, o Natan que está no Chelsea e Alisson Farias que está no Inter. Quase todos chegaram ao profissional. Essa foi uma geração muito boa e o meu primeiro time. Fiquei um ano e depois já fui para o Red Bull Brasil em São Paulo. De pequeno eu fiquei nesses dois times no Brasil, depois já fui para a Europa.

6 – Como surgiu a oportunidade de atuar fora do Brasil? Por quais equipes você passou? O que mais dificultou sua ida para a Europa? A língua, costumes, cultura…?

Surgiu primeiramente com um empresário aqui em Santa Catarina que tinha um contato com o Mallorca, da Espanha, que foi o primeiro time que eu passei lá na Europa. Atuei depois disso no Vicenza da Itália e também no Deportivo La Coruña na Espanha. O que me dificultou foi a primeira semana na Espanha. Eu tinha 14 anos e passei a primeira semana sem entender nada. Eu fui no mercado e as pessoas falavam comigo, mas eu não entendia nada. Bateu um desespero, eu chorei. A língua foi só na primeira semana. Eu lembro de um caso que com um mês estando lá me ligaram no telefone e eu consegui falar e entender. Aí depois de uns dois meses eu estava fazendo aula de espanhol e até comentei com a professora: “Nossa! Já sonhei até em espanhol” e fiquei felizão. Quanto aos costumes é bem tranquilo, é mais ou menos como no Brasil, não muda tanto. Eu pensei que seria diferente, mas não.  A cultura tem coisas diferentes sim, mas não é nenhum bicho papão, o que difere na hora que tu chega é mais a língua. Hoje em dia o mundo está bem globalizado e todo mundo está bem cabeça aberta. Todos os lugares que eu fui eu tive gente me ajudando, então foi bem tranquila a minha adaptação.

7 – Na Europa você treinou com times como Mallorca, Vicenza e Deportivo La Coruña. Como foi essa experiência?

Essa ida a Europa acho que nem falando no sentido do futebol, mas sim como pessoa, me fez crescer muito. Me fez enxergar coisas que antes eu não enxergava. Me fez mudar meus hábitos ruins. Me fez mudar tudo aquilo que eu tinha de ruim em mim e me tornou uma pessoa muito melhor. Eu sempre falo pra todo mundo que pergunta a minha história, que eu já sou formado na faculdade da vida. Eu já tenho graduação. E foi uma experiência incrível! Joguei em vários lugares, conheci várias pessoas e foi uma experiência que eu não tenho palavras para explicar como foi importante.

8 – Você enfrentou grandes times como Real Madrid, Barcelona, Atlético de Madrid e Valencia pelo Campeonato Espanhol sub-19. Na categoria profissional, esses times possuem grandes ídolos. Você sonha com a oportunidade de jogar com eles ou até mesmo fazer parte dessas equipes?

Eu sempre sonho, se eu falar que não, é mentira. Eu tenho o pé no chão sempre e sei os meus limites, sei a minha capacidade, sei aonde eu posso chegar, sei aonde é que eu vou fazer bem ou não. E tenho o sonho ainda de jogar por um grande clube, jogar com esses jogadores que hoje eu peço para tirar foto ou que eu vejo no videogame ou na televisão. É uma coisa real e eu sei da minha capacidade e acho que tenho condição. Eu vou lutar até quando eu não puder mais para realizar esse sonho.

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Guto acompanhou um jogo do Cristiano Ronaldo pelo Real Madrid (Foto: Arquivo Pessoal)

9 – Quando você voltou para o Brasil, em 2012, entrou para o time profissional do Camboriú. Como foi a sua passagem pelo time? Era bom treinar em casa, perto da sua família?

Eu fiquei sete meses no Mallorca da Espanha, aí eu voltei para o Brasil para resolver umas coisas de papel e burocracia e nesse meio tempo, de maio a dezembro de 2012, para não ficar parado eu joguei o Campeonato Catarinense. Eu tinha 16 anos na época e joguei o Campeonato Catarinense sub-20 pelo Camboriú. E foi uma passagem extremamente importante para a minha carreira, porque foi primeiro time profissional que eu joguei. Inclusive, eu sou o atleta mais novo da história a jogar pelo Camboriú profissional. Eu joguei o Campeonato Catarinense sub-20 e fui um dos destaques do time, aí o Camboriú profissional jogou uma Copa profissional com Figueirense, Joinville, Metropolitano e Marcílio e eu fui convocado para esses jogos e fiz essa história interessante no clube. Eu tava em casa todos os dias e isso dá uma força muito grande para o jogador.

10 – O futebol te possibilitou conhecer diversos lugares do mundo. Agora, você está nos Estados Unidos. Como foi chegar até aí?

Bom, agora eu estando nos Estados Unidos as pessoas acham que é um passo atrás na carreira, que o futebol não está tão desenvolvido e etc. Hoje eu falo que foi a melhor decisão da minha vida! Eu estou muito feliz aqui. A qualidade de vida é impressionantemente alta, é um lugar magnífico para morar. É um lugar magnífico para você construir sua vida e ter suas coisas. Acho que foi a recompensa de todo o sofrimento e batalha que eu tive desde pequeno. Acho que minha recompensa chegou agora e está aqui nos Estados Unidos.

11 – Você ganhou bolsa de estudos para estudar no EUA e praticar futebol ao mesmo tempo. Como vai ser isso?

Esse é um ponto alto da minha vida, foi um divisor de águas, foi como eu disse antes, a recompensa de tudo de tudo que eu já fiz e já batalhei. Eu ganhei uma bolsa na Lynn University de Boca Ratón, ela está no top 10 entre as melhores universidades e melhores programas de futebol dos Estados Unidos. Tem um dos melhores times dos Estados Unidos também. Eu ganhei uma bolsa de 100%, então eu não pago nada para estudar. Nem moradia nada, nem alimentação. E eu jogo pela universidade, pelo campeonato universitário, no qual 96% dos jogadores da primeira divisão dos Estados Unidos são formados e saíram das universidades. Seria como se fosse mais ou menos as bases dos clubes no Brasil. Se joga quatro anos e no último ano se você for destaque, você vai fazer um teste com todos os técnicos da primeira divisão e eles vão escolher se vão querer você para o time ou não. O ano começa em agosto, as aulas começam no final de agosto e o campeonato universitário começa de agosto até dezembro. Então nesses quatro meses eu vou jogar e estudar. Vou conciliar entre estudo e o futebol. E de janeiro a abril eu só estudo e treino. Aí não tem jogos, são só treinos e estudo. De maio a final de julho, eu jogo um campeonato de verão pelo Boca Ratón FC que é um clube aqui da cidade de Boca Ratón e a maioria dos atletas quando entra em férias de verão ficam para jogar por alguém clube. Aí agosto começa novamente o campeonato universitário e você concilia com o estudo. Você se forma em quatro anos e tem quatro anos para jogar. Você tem a oportunidade de viajar os Estados Unidos inteiro. Se você pega uma universidade boa, você tem grandes chances de entrar na primeira divisão no seu último ano de faculdade.

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Guto treina diariamente para os campeonatos universitários (Foto: Arquivo Pessoal)

12 – Você disputou uma partida no Estádio Metropolitano Roberto Meléndez, o maior estádio da Colômbia. O que você sentiu neste dia e como foi essa experiência?

Esse dia foi um dia que me marcou muito e eu fiquei muito emocionado. Foi um dia que eu joguei num estádio de tamanha história. Eu fui com o Miami Dade, o meu primeiro time nos Estados Unidos no ano passado. A gente foi fazer um campeonato pela Unicef. Um campeonato amistoso com um clube da primeira divisão da Colômbia. Jogamos no maior estádio da Colômbia, onde joga a seleção colombiana, onde tem o Junior Barranquilla que é um dos maiores times da América Latina. Foi uma experiência sensacional, tinha 20 mil pessoas no estádio, a torcida ficou louca com a gente e mostraram muito carinho. Foi muito emocionante e eu marco com carinho esse dia.

13 – Aqui no Brasil temos grandes times, torcidas e grandes estádios. Você tem o sonho de jogar em algum? Qual e por quê?

Meu sonho antes de jogar por Barcelona e Real Madrid, é jogar no Internacional de Porto Alegre. É o meu time do coração e eu sempre deixo claro nas redes sociais. É o time que eu hoje jogaria e poderia passar a minha vida inteira que não sairia. Eu tenho um amor muito grande e espero um dia quem sabe, não vou dizer que não, eu possa jogar e construir algo no Inter, jogar no Beira Rio. Mas, mesmo se não acontecer eu vou ter sempre muito carinho pelo Inter que é o meu time.

14 – E a seleção Brasileira? Antigamente era o sonho de muitos meninos representar o Brasil. É o seu também?

Com certeza! O sonho de todo atleta é jogar pela seleção Brasileira e é o meu também. Hoje em dia, principalmente os atletas brasileiros, a gente está muito perdendo esse amor patriota e o amor pela camisa que fez a gente chegar nesse patamar de país do futebol. E os outros países estão com muito amor à camisa e isso deixa a gente um pouco para trás. Não adianta a gente ter qualidade, ter bons jogadores, se a gente não joga com amor. Então, eu acho que a gente tem que voltar atrás, voltar na história e resgatar essa chama e esse amor na camisa que a gente tinha. Eu sempre procuro estabelecer uma meta maior possível para tentar me puxar e treinar em alto nível, para então com certeza chegar na seleção. Eu tenho cidadania italiana também e na Itália quando eu tinha 16 anos eu peguei pré-lista da seleção sub-17. Eu também posso deixar essa porta aberta. Eu tenho essas duas opções e o que vier para mim, eu estarei super feliz e com muito amor a camisa independente de qual país.

15 – O que você espera para o seu futuro como jogador de futebol?

Meu plano agora é focar ano por ano. Eu tenho quatro anos de faculdade e quatro anos para jogar o universitário aqui nos Estados Unidos e minha meta agora estabelecida é jogar os quatro e no último ano eu ir para o MLS que é a primeira divisão dos Estados Unidos. Eu estou numa universidade que permite eu fazer isso, que tem muita reputação e é o meu plano. Eu vou lutar para que eu consiga chegar na primeira divisão aqui nos Estados Unidos. Posso me formar também e ir para a Europa, já que tendo o passaporte italiano tudo fica mais fácil, tem um mercado e eu tenho muitos contatos. Porém meu plano agora é me formar aqui nos Estados Unidos e em quatro anos entrar na primeira divisão de algum time dos EUA.

16 – Qual a dica você dá para a molecada que quer seguir a mesma carreira que você?

Minha dica é sempre tentar melhorar. Nunca desperdiçar um dia parado sem aprender alguma coisa. Lutar contra suas falhas, aprimorar. Se você não bate bem de direita, treina a direita até se aperfeiçoar. Não tem como não chegar no seu sonho. Você só não vai chegar se você não quiser. Se tem uma falha, você vai lá treina e vai ficar perfeito naquilo, você vai aparecer e alguém vai gostar de você e tudo vai dar certo. Então lute e não desperdice um dia, não desperdice uma chance de melhorar. Abrir mão de muitas coisas é difícil, mas vai valer a pena no final. Você estará com a sua família, você vai ter condição de ajudar a sua família, você vai ter condição de ter uma vida que você sempre sonhou e de conhecer o mundo que você sempre quis. Essa é a minha dica: lute e não desperdice seu tempo.

 

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