Cidades

O que os moradores da Barra esperam com a inauguração da passarela em BC

Moradores e especialistas comentam as influências que a estrutura trará na mobilidade e paisagem da região.

Comunidade local e especialistas comentam as influências que a estrutura trará na mobilidade e paisagem da região

Texto: Ana Carolina Nasato e Natália Rocha
Edição: Pedro Henrique Homrich

Balneário Camboriú nem sempre foi chamada assim. Há 52 anos, a cidade foi emancipada da vizinha Camboriú. Desse tempo, quem mais sabe contar a história de Balneário são os moradores do Bairro da Barra, um dos mais antigos do município. Dizem que açorianos vieram de Porto Belo para construir uma vila onde o Rio Camboriú encontra o mar. Essa vila é o que hoje se conhece como o Bairro da Barra.

Formada por muitos pescadores, a Barra era onde as pessoas, antigamente, se concentravam. A colônia de pescadores oferecia consultas médicas e odontológicas para as famílias dos associados. Apesar do número de homens que vivem da pesca ter diminuído, em relação ao passado, por lá, os moradores ainda conservam suas origens. Hoje, o bairro possui reconhecimento patrimonial e é assistido por programas de preservação histórico-cultural. A paisagem desse local histórico, porém, vem mudando.

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Contraste entre a arquitetura da passarela e a Capela de Santo Amaro (foto: Gabriel Gallarza)

Nesta quarta-feira (7), a Barra oficializou uma mudança na paisagem que já vinha sendo percebida. A Passarela Estaiada da Barra Manoel Fermino da Rocha, que liga o bairro à parte Sul da Praia Central foi inaugurada depois de quatro anos em construção e muitas polêmicas. Imponente e moderna, a obra, que recebeu o nome em homenagem ao primeiro balseiro da região, chama atenção de longe. Apesar de criar um contraste enorme com a Barra, que preserva uma arquitetura antiga, o arquiteto e professor da Univali, Eduardo Lopes, afirma que essa diferença não é um problema, pois recomenda-se que qualquer obra seja construída com linguagem arquitetônica da época em que foi implantada. “Ela deve ter linguagem contemporânea, como forma de apontar claramente o que é antigo e o que é novo. Afinal de contas, arquitetura é história construída. Se reproduzíssemos uma arquitetura de 1850 agora em 2016, estaríamos inventando uma história que não é a nossa.”

Entre os moradores, a passarela divide opiniões quanto à utilidade. Tayrini Bernardes, moradora do bairro há anos, lembra o quanto as obras da passarela causaram transtorno para os moradores de lá. Uma das faixas da Rua José Francisco Vitor, onde está a extremidade da passarela na Barra e onde Tayrini mora, ficou por muito tempo interditada, o que gerou filas, resultado do trânsito em excesso, principalmente na temporada, e muitos acidentes. Além de moradora, Tayrini está no último ano da faculdade de Arquitetura e Urbanismo. Em sua visão, existem outras alternativas de proporcionar a travessia das pessoas que querem chegar aos dois lados do Rio Camboriú. “De um modo geral, creio que com todo o dinheiro gasto, poderiam ter feito uma obra mais leve, com estrutura metálica, por exemplo, e também mais baixa para ficar mais agradável aos olhos de quem está no bairro. Existem muitas maneiras para fazer pontes e passarelas que não obstruam a passagem dos barcos, não necessitando dessa altura toda”. Emanuelle Mattos, que também vive lá, em contraponto, acredita que a passarela trará uma inovação para Balneário Camboriú e uma supervalorização para o Bairro da Barra. “Penso que a passarela vai ser um meio para os turistas olharem para a Barra e conhecerem a história daqui”.

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Algumas pessoas não concordam com o local que a passarela foi implantada

Apesar de críticas em relação ao projeto e ao custo benefício da passarela, algumas benfeitorias em relação à obra já podem ser constatadas e previstas. A Praça do Pescador, por exemplo, um dos principais pontos do bairro, foi revitalizada, recebendo equipamentos urbanos como bancos, parquinho, pista de skate, pisos novos e estacionamento. O arquiteto e idealizador do projeto Retratos do Camboriú, Gabriel Gallarza, afirma que são inegáveis os pontos positivos que a passarela trará em relação ao turismo. Ele vê a obra como um elo de conexão entre as pessoas que visitam Balneário e a Barra. Porém, ao mesmo tempo, critica o fato de que, para subir na passarela, as pessoas terão que usar um elevador, recurso que não facilita a vida delas – princípio de todo projeto arquitetônico. O arquiteto Eduardo lembra de outro ponto pouco planejado: o valor estético da passarela. “Particularmente não concordo com a linguagem. Acredito que existem formas menos agressivas de ocupação que não degradariam demasiado a paisagem. Ela é muito robusta, com pouquíssima permeabilidade visual e obstrui, inclusive um eixo importantíssimo de visão que era Igreja da Barra.”

Uma das críticas mais ouvidas sobre a passarela é o fato de poder passar apenas pedestres e ciclistas. Cleusa Fernandes lembra que as pessoas que moram na Barra e têm carro ou moto terão que continuar usando a BR-101 ou pegando ônibus para ir até Balneário. “Para nós, aqui a passarela não está trazendo benefício algum”.

Entre os moradores, ainda existem dúvidas sobre o funcionamento da nova passarela e sobre a função da balsa que faz a travessia de pessoas depois de inaugurada a obra. Segundo Cleusa, que mora há aproximadamente três anos na Barra, a balsa funciona diariamente até a meia-noite e ela conta que na época da temporada, as pessoas podem fazer a travessia por esse meio até as 2h da manhã. Os moradores querem que esse cruzamento entre os dois lados do Rio continue sendo feito até altas horas e se perguntam como será o sistema de passagem na passarela.

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Há dúvidas por parte dos moradores quanto ao funcionamento da estrutura (Foto cedida pela Prefeitura)

Em meio a tantos questionamentos, críticas e elogios, Eduardo, em uma visão mais técnica, acredita que a passarela tem utilidade porque integra duas partes importantes de Balneário. “Essa é uma das funções da arquitetura, ser inclusiva. Na medida em que deixamos que esse afastamento permaneça, nós estamos excluindo de certa forma alguma parcela da população.”

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