Política

O pleito e a bíblia: uma invasão religiosa das cadeiras eletivas

Com a chegada de mais um ano de eleições, volta a chamar a atenção a proliferação de candidatos ligados à religião. Estudiosos fazem uma análise sobre o cenário, suas causas e consequências

Com a chegada de mais um ano de eleições, volta a chamar a atenção a proliferação de candidatos ligados à religião. Estudiosos fazem uma análise sobre o cenário, suas causas e consequências

Texto: Daniel Schiavoni e Elizabeth Figueredo
Edição: Maria Zucco

“Deus seja louvado”. É o que dizem todas as notas em circulação no Brasil, um país que se considera laico em sua Constituição. A influência da fé, presente desde a fundação do Brasil quando uma missa foi celebrada, fica evidente quando a maioria dos órgãos públicos exibem símbolos religiosos. Apesar dessas expressões silenciosas já estarem incorporadas no cotidiano dos brasileiros, grupos ligados a religiões têm ganhado cada vez mais influência no cenário político nacional.

A chamada Frente Parlamentar Evangélica (“bancada da bíblia”) – lobby composto por grupos cristãos na Câmara Federal – é, atualmente, o principal expoente da mistura entre religião e política. A atuação do grupo no Congresso mostra um alinhamento suprapartidário em prol de valores religiosos, como a militância contra o aborto e a adoção por casais homossexuais, por exemplo. Para Josué de Souza, professor no curso de Ciências Sociais da Universidade Regional de Blumenau – Furb, a participação desses grupos na política é dúbia. “Por um lado, grupos diversos estão sendo representados; por outro, é perigoso quando estes monopolizam as ações do Estado”. Souza ressalta que é um direito dos deputados se organizarem para tentar influenciar as decisões políticas, contanto que o Estado não acabe por perder sua laicidade.

No cenário catarinense, é grande a participação de grupos religiosos evangélicos mais tradicionais, como adventistas, batistas e luteranos. De acordo com Eduardo Guerini, professor no Mestrado de Gestão de Políticas Públicas da Univali, a imigração europeia intensa pode ser um fator que explique a multiplicidade de representantes desses grupos que, por vezes, lembram a atuação da bancada da Frente Parlamentar Evangélica.

Guerini discorda de que o fiel seja induzido a votar para o seu líder religioso. “As pesquisas qualitativas indicam falta de consistência na indução ao voto de fiéis ou adeptos de uma determinada religião”, afirma. Para ele, a fragmentação partidária da bancada da bíblia indica que há uma grande diversidade de interesses que a religião não é capaz de unificar. O professor Josué de Souza também questiona a força da influência religiosa na sociedade. “Se os religiosos de fato, tivessem força na sociedade, eles não precisariam de leis para impor às pessoas as suas crenças religiosas”.

Às vésperas das eleições municipais, o quadro de candidatos não demonstra uma mudança drástica dessa tendência: líderes religiosos continuam disputando espaço no debate político. Cabe às urnas determinar se esse espaço deve aumentar ou não.

um comentário

  1. Eleições se ganha na urna, mas que em alguns casos a influência religiosa interfere em uma escolha eleitoral, sem dúvida.

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