Entrevista

Mel e cachaça: uma entrevista com os Apicultores Clandestinos

A banda de Rio do Sul conquistou um espaço de respeito na cena punk catarinense. Seu estilo irreverente enche os butecos e casas de shows de fãs que têm suas letras na ponta da língua.

A banda de Rio do Sul conquistou um espaço de respeito na cena punk catarinense. Seu estilo irreverente enche os butecos e casas de shows  de fãs que têm suas letras na ponta da língua.

Texto: Maria Zucco

Há quase dez anos, quatro rapazes sem rosto vêm assombrando e distribuindo mel pelos bares de Santa Catarina. Os Apicultores Clandestinos chegam despercebidos, com cara de quem veio tomar uma cerveja e ficar sossegado no balcão trocando bandas com o garçom. Sobem no palco e passam o som com o público encarando desconfiado para uns caras comuns que não são quem se espera. Eles descem e a plateia respira aliviada, o clima muda, depois de alguns minutos as pessoas procuram ao seu redor algum indício dos caras vestidos de branco. Surgem os Apicultores do meio da galera, em trajes desgrenhados de proteção contra abelhas. Máscaras teladas, macacões que cobrem o corpo todo, repletos de rasgos e furos, e os tênis que certamente não são apropriados para a vida em uma fazenda de abelhas. O bar estremece com os gritos e assovios de quem esperou a noite toda pela banda. As sujas distorções das guitarras ressoam e logo um punk de garagem adolescente agita a massa, mais um aguardado show dos Apicultores Clandestinos começa. O bom humor dos riossulenses cativa, a banda tem seguidores fiéis que entram em êxtase cada vez que seu nome aparece em algum cartaz da região. Chutes, empurrões e cabelos nos olhos daqueles que dançam em frente ao palco, comemoram e aplaudem com a animação de quem está na presença de ídolos internacionais do rock. A empolgação e o suor chegam no seu pico quando os músicos distribuem o mel e a cachaça caseira que eles atestam ser de produção própria, a performance é um conjunto de excentricidade e despojo capaz de tornar até quem não gosta de guitarras pesadas fã dos caras. Em uma entrevista bem-humorada, eles contaram um pouco sobre a banda e sua história:

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Como criaram o conceito musical de vocês?

Nunca pensamos na música que fazemos como um conceito. A coisa se dá dessa forma que ouvimos porque misturamos muitas influências e ideias… junte isso a nossa habilidade limitada de tocar e é isso que sai… O pessoal da banda tem gostos bem ecléticos e quando surgem as ideias de sons, cada um contribui com a sua forma e maneira de tocar e criar.

De onde veio a ideia de tocar com os trajes de apicultores e a distribuição de mel e cachaça?

Por mais que o pessoal duvide, reiteramos que tocamos assim pois apicultura é o nosso ofício. A apicultura clandestina é nossa causa. Assim, aproveitamos para distribuir parte da nossa produção durante os shows. Pessoal gosta, faz bem, é saudável e amigável. Você nunca faz inimigos com um pacotinho de mel. Quem está no show e quer mel e cachaça chega perto do palco, fica aquele clima simpático de tudo em casa.

Comparada com outras bandas, até menos conhecidas que vocês, a atitude dos Apicultores chama a atenção pela simplicidade, como vocês se veem no cenário musical de SC?

A gente sempre esteve tocando com bandas de Punk Rock e Hardcore… mesmo antes dos Apicultores, com as outras bandas que tínhamos… era assim que víamos as coisas e era esse o modo como as coisas aconteciam. Organizávamos os shows, levávamos os equipamentos, tocávamos em todo lugar que fosse possível. Desde então a coisa tem sido dessa forma. O que mudou é que hoje em dia já não podemos mais tocar em todo lugar e data que nos convidam… além da banda e da apicultura todos têm seus corres e outros trabalhos.

Somos da turminha do chega e dá-lhe… do pau tora…. Temos sorte de tocar com bandas que tem essa mesma pegada. Aqui em SC e também de outros lugares. A gente toca porque gosta. Somos amigos há décadas e quando nos encontramos para tocar é só alegria.

Aqui em SC vemos que tem muita banda boa e querendo fazer coisa legal… vemos que tem público para isso. Apenas lamentamos que os espaços não priorizem a música autoral.

Recentemente vocês lançaram o LP Tributo à Nós Mesmos, de onde veio o conceito e quem se envolveu no processo?

A ideia desse disco já era uma coisa mais antiga e surgiu entre os músicos aqui da cidade. Não temos certeza, mas a primeira pessoa que comentou conosco isso foi o Palilo, músico das antigas aqui da área. Numa dessas conversas, o Frank, da Velvet Discos – que é uma loja e também um selo – curtiu a ideia e resolveu inscrever um projeto nesse formato no Fundo Municipal de Cultura. Felizmente o projeto foi um dos escolhidos e a coisa virou. A ideia era ter um disco com bandas de Rio do Sul que estivessem na ativa, que tivessem um bom trabalho autoral e que circulassem por aí. Assim participaram as bandas Liss, Costeletas, Homem Lixo e Apicultores. Cada banda tem 2 músicas próprias e faz uma versão de alguma outra banda do projeto. Assim, nós fizemos uma versão da música “Sem privilégios”, da Liss, e eles fizeram uma versão de “Eu tenho uma camiseta escrito eu já sabia” – música do nosso último disco. Parte do conceito deste projeto era lançar tudo apenas em vinil – há décadas nenhum músico de Rio do Sul grava algo em vinil.

Todas as versões foram gravadas em um estúdio aqui da cidade, do Marquinhos, masterizadas no estúdio Costela em SP e o vinil foi prensado pela Polisom no RJ.

Gostamos muito do resultado. Como as bandas têm estilos bem diferentes, foi legal ver como ficaram as versões.

Hoje os discos estão aí a venda e quem quiser pode procurar com as bandas, com o selo ou no Mercado Livre!

O Apicultores tem uma audiência fiel que costuma encher as casas de shows, qual é o diferencial de vocês?

A gente distribui cachaça e mel. Isso já é um diferencial. Hahaha. A gente faz algo que gosta e toca o que gosta de tocar. Não podemos responder com precisão o porquê de as pessoas gostarem… mas percebemos que rola um esquema de ver que a gente está ali tocando com vontade mesmo… então achamos que o pessoal que gosta do som se identifica com isso.

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