Cidades

Acessibilidade: Garantia de segurança e liberdade

A dificuldade encontrada pelos deficientes visuais no trânsito reforça a implantação de dispositivos sonoros nos semáforos.

A dificuldade encontrada pelos deficientes visuais no trânsito reforça a implantação de dispositivos sonoros nos semáforos.

Texto: Ana Nasato e Natália Rocha
Edição: Pedro Henrique Homrich

“Liberdade, uma sensação de liberdade. Tá voando e vendo aquele ‘marzão’ na tua frente. Não sei como, mas parece que a visão abriu.” Essa é a descrição de Alvacir sobre a primeira vez que pulou de parapente. Infelizmente, para ele a experiência foi única. Alvacir tinha acabado de passar por um exame chamado cateterismo, que verifica partes internas no coração e, devido a adrenalina do salto, teve problemas novamente. Ele e mais alguns amigos da Associação de Deficientes Visuais de Itajaí e Região (Advir) haviam ganho um curso de voo livre, mas Alvacir não pode continuar com as aulas.

Em 2004, Alvacir Paulo da Silva perdeu a visão do olho esquerdo. Certo dia, acordou e percebeu que não estava mais enxergando. Ele levava uma vida sem muitas responsabilidades, fazia uso constante de crack, e, a princípio, não se importou de a droga ter lhe tirado parte da visão. No ano seguinte, o outro olho começou a ser prejudicado também. Ainda dependente da droga, ele  percebeu que precisava mudar sua vida e foi morar com a mãe. Com medo, decidiu não falar nada para ela, porém, ela, vendo que o filho esbarrava nos móveis, logo concluiu que ele estava com algum problema de visão. Os dois então procuraram um médico e foi constatado que Alvacir tinha baixa visão. Ele estava cego de um dos olhos e tinha apenas 20% no outro.

O processo de aceitação não foi fácil. A sensação de desprezo, de pensar que era um estorvo na vida da família lhe fizeram chorar muito. O uso de crack por 12 anos havia lhe tirado a visão, lhe causado um afundamento no osso do crânio, devido a uma briga, uma cirurgia no pulmão e vários traumas emocionais.

Foi em 2007 que Alvacir mudou de vida e de perspectiva em relação ao que tinha acontecido com ele. Graças a Advir e a fé percebeu que sua deficiência não limitava suas ações e que ele poderia, sim, ser útil para várias coisas. Com o incentivo da associação de Itajaí, onde atualmente ele exerce o cargo de Diretor de Esportes, se tornou atleta de paraciclismo, disputando competições a nível nacional. Foi na Advir também que Alvacir conheceu sua atual esposa, que também é cega. Ela perdeu completamente a visão por causa da meningite B, uma patologia que atinge membranas que envolvem o sistema nervoso central no cérebro. Com ela, Alvacir teve um filho, hoje com 6 anos.

Apesar de tudo o que já passou na vida, Alvacir ainda tem um medo a superar: o de sair sozinho de casa e andar pelas ruas de sua cidade, Itajaí. Para ele, a mobilidade urbana do município ainda precisa melhorar, e muito. Uma das maiores dificuldades de um deficiente visual hoje, na opinião dele, é a falta de piso podotátil e a falta de cuidado com a localização de bancos, placas e telefones públicos nas calçadas, pois se a pessoa não andar atenta, pode acabar esbarrando em um desses obstáculos.

No último mês, o Ministério Público de Contas, por meio da procuradora Cibelly Farias Caleffi, encaminhou a 27 municípios com mais de 50 mil habitantes uma notificação recomendatória para resolver mais um problema que atrapalha a mobilidade de pessoas com deficiência visual: a instalação de sinalização sonora em semáforos.

A Lei de Acessibilidade (Lei nº 10.098/2000) e o Estatuto da Pessoa com Deficiência (Lei nº 13.146/2015) determinam, em vias de fluxo intenso de veículos e/ou pedestres, a obrigatoriedade da instalação de equipamentos deste tipo. Aqui na região, cidades como Balneário Camboriú e Itajaí foram notificadas. A equipe de reportagem procurou o Secretário de Segurança e o Diretor de Trânsito e Engenharia de Balneário Camboriú para falar sobre o assunto, mas devido ao período eleitoral eles preferiram não se pronunciar.

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O som é emitido através deste aparelho, com a frase de instrução escrita em braile.

Em Itajaí existem cerca de 240 deficientes visuais, entre cegos e baixa visão. Atualmente, o município tem instalado dois semáforos com sinal sonoro, na região central. O problema é que mesmo os sinais sonoros estando numa região de grande fluxo, essa quantidade de equipamentos é insuficiente e impede que pessoas com deficiência visual circulem pelas ruas sem medo. Elas acabam ficando limitadas em seu trajeto; atravessam uma rua com segurança, mas na outra já se sentem inseguras novamente.

Para a arquiteta e urbanista especialista em mobilidade urbana Luciana Noronha, esses dois semáforos presentes em Itajaí não resolvem o problema. Assim como pensa Alvacir, Luciana acredita que é preciso instalá-los nos principais semáforos da cidade e resolver também problemas como rampas, telefones públicos, árvores e bancos mal localizados, buracos e a falta de piso podotátil em muitos lugares.

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O som é emitido através deste aparelho, com a frase de instrução escrita em braile.

O sinal sonoro emite dois tipos de sons: um intermitente mais calmo, que diz para o pedestre que é hora de atravessar, e outro intermitente mais rápido, que alerta que o sinal vai fechar em breve. No semáforo do calçadão da Hercílio Luz em Itajaí, um dos locais onde há o sinal sonoro, quase não dá para ouvir o som que diz aos deficientes visuais que a travessia está segura. O volume do sinal foi diminuído por causa de reclamações de comerciantes da região. Alvacir pontua outro problema que faz o sinal sonoro ser quase inútil naquele local: há dias em que músicos cantam e tocam por lá, dificultando mais ainda a mobilidade dos deficientes visuais. Sua estratégia é ficar atento ao momento em que as pessoas começam a atravessar e não há mais barulho de carros passando, e seguir o fluxo. Ele realiza o mesmo em locais onde não há sinal sonoro.

Alvacir atravessa a faixa de pedestre em um dos únicos locais onde há o sinal sonoro junto ao semáforo, no Calçadão da Hercílio Luz. No vídeo pode-se ouvir o barulho que há no local, o que dificulta a identificação do sinal.

As reclamações de Luciana e Alvacir são as mesmas do representante da Associação de Apoio às Famílias de Deficientes Físicos (Afadefi), Valdeci Matias, e do presidente da Advir, Jairton Domingos. Eles acreditam que a conscientização do poder público e da comunidade em relação às necessidades dos deficientes físicos ajudaria muito na melhoria da mobilidade urbana para essas pessoas. A falta de informação, de igual modo, quanto às normas da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT) prejudica o cumprimento dos direitos conquistados em relação a adaptações tanto em locais públicos como privados. A sinalização tátil no piso, por exemplo, é uma determinação da ABNT, porém, cidades da região começaram a cumprir a norma apenas em meados de 2015.

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Existe um tipo de piso para cada direção, como mostra a arte acima. Créditos: Inpreart

A esperança de pessoas como Alvacir e tantas outras é de um dia ver todas as adaptações necessárias implementadas e a população mais ciente de como ajudar alguém que tenha alguma necessidade especial. Para ele, a mídia é o grande canal que pode auxiliar neste processo, levando informação e fazendo-as entender que o deficiente pode e tem o direito de ter uma vida normal, fazer suas coisas sozinho, trabalhar e ter, inclusive, a liberdade de atravessar a rua com segurança.

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