Comportamento

Transgêneros: A luta pelo reconhecimento da própria identidade

Eles existem! Eles têm voz e buscam superar dia após dia os desafios de desconstruir preconceitos

Eles existem! Eles têm voz e buscam superar dia após dia os desafios de desconstruir preconceitos

Texto: Kauana Amine e Miriany Pimentel
Edição: Evandro Ritzel

Robert Stoller, escritor que fala sobre gênero, define a diferença conceitual entre sexo e gênero: sexo refere-se aos aspectos anatômicos, morfológicos e fisiológicos da espécie humana. Ou seja, a categoria sexo é definida por aspectos biológicos. Já o conceito de gênero remete aos significados sociais, culturais e históricos associados aos sexos.

É dessa forma que abordamos o assunto identidade de gênero. Diz respeito ao gênero como a pessoa se identifica. Assim, a pessoa pode ter nascido com o sexo designado feminino, mas ter uma identidade de gênero masculina e vice-versa. Quando isso acontece, temos pessoas denominadas trans. Mas, como elas vivem em uma sociedade que muitas vezes é preconceituosa, machista e binária?

 A luta pela Lei de Identidade de Gênero
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Camiseta em prol da igualdade, leis de identidade de gênero. (Foto: Kauana Amine)

João Nery foi o primeiro homem transexual brasileiro a ter sido operado, durante a ditadura militar. Em uma época em que não se falava em transexualidade, ele ousou ao firmar uma trajetória de busca e construção da própria identidade e hoje está entre os homens trans mais reconhecidos e respeitados no país. Visando os direitos das pessoas trans, há um projeto de Lei João Nery, proposto pelo deputado federal Jean Willys.

O projeto visa garantir que qualquer pessoa possa ser reconhecida e tratada pela sua identidade de gênero. O objetivo é que transgêneros, transexuais e travestis consigam solicitar a retificação dos seus documentos e a emissão de uma nova carteira de identidade através de um trâmite simples no cartório e sem necessidade de intervenção do judiciário.

João Nery serve como exemplo para outros homens transexuais, de novas gerações, como Luz Andrade (16) e Nicolas Hael (24), naturais de Itajaí, em Santa Catarina.

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Gender Queer Revolutioin – Termo genético que engloba uma grande gama de gêneros e de formas, sendo realmente diferente para cada indivíduo. (Foto: Kauana Amine)

Nicolas é acadêmico do curso de Direito e está no processo para conquistar seu direito de retificação de nome nos documentos. “Para isso são necessários documentos pautáveis com o nome social e testemunhas que comprovem que sou homem trans reconhecido por tal nome, além de dois anos numa psicóloga e laudo de psiquiatra para entrar com o processo. E depois ter a sorte do juiz não ser transfóbico e negar”.

Foi na universidade que ele conseguiu um papel que comprova seu nome social. “Eu tenho que levar o papel mais a identidade para provar que os dados batem e que é meu nome social. Eu peguei o papel da faculdade e consegui provar, mas as pessoas respeitam porque está ligado à universidade. Eu poderia fazer sozinho, mas não vai ter validade porque eu que fiz. Daí o da universidade prova que eu sou aluno. Eles respeitam por causa da instituição, não por causa da pessoa”. Nicolas conta que começou a entender que era um homem trans aos 12 anos de idade e desde então busca o reconhecimento de sua identidade. Ele está no processo de hormonização.

“Tem vezes que te tratam pelo nome, mas não te enxergam como tu é de verdade. Te enxergam como mulher, te enxergam como lésbica. E a gente não é. TRANS OU CIS, EU SOU HOMEM”

Luz é amigo de Nicolas e pretende cursar Filosofia na UFSC.  Começou a usar o pronome e nome social há três anos. Porém, só pode requerer judicialmente depois que tiver 18 anos. Quanto ao processo de aceitação, Luz conta que sempre teve uma aparência diferente dos estereótipos. “No começo eu até me assumi como lésbica, mas não necessariamente porque gostava de mulher e sim por que eu gostava de outra fisionomia para mim. Eu era bem colonizado. E depois fui me descobrindo. Mas foi difícil, eu era bem preconceituoso”. Juntos eles lutam pela conquista dos seus direitos e compartilham experiências.

“Eu já frequentei alguns lugares que quando eu entrava me olhavam e falavam “oh, o trans”, as pessoas te exotificam. Mas, eu sou uma pessoa. EU QUERO SER TRATADO COMO UMA PESSOA”

Além de ter que lidar com a aceitação interna e a busca pelos direitos da própria identidade, pessoas trans também precisam lidar com o preconceito de parte da sociedade. Um dos maiores empecilhos é o uso do banheiro público. “Quando troquei de escola já cheguei falando: eu quero que tu me chames por esse nome e quero usar o banheiro masculino. Eu tenho uma aparência bem andrógena. Tem gente que fica com medo, fica pensando “será que alguém vai ver?”. E lugares externos assim, shopping, principalmente ,com roupas mais leves, alguns seguranças olham estranho. É bem desconfortável”.

O processo para reeducação é o conhecimento para desconstrução

Segundo Nicolas e Luz, o machismo também afeta os homens trans, pois muitas vezes há a negação de suas identidades. O Brasil lidera o ranking de países que mais mata transexuais no mundo, segundo um relatório de 2015 divulgado pela ONG Internacional Transgender Europe.

Em Balneário Camboriú (SC), a ONG “Amigos & Tribos” tem o propósito de ajudar a população LGBT, e, no caso de pessoas trans, encaminhá-las para que tenham os acompanhamentos necessários, tanto jurídicos quanto psicológicos e hormonais. Claudemir Gonçales, um dos fundadores da ONG afirma que, na sociedade em que vivemos, a afirmação, visibilidade e reconhecimento da própria identidade é essencial, pois a negação dela gera sofrimento. “É necessário empoderar e auxiliar essas pessoas para que tenham direito à própria identidade. E a ONG busca fazer isso”.

É importante também entender a diferença entre orientação sexual e identidade de gênero. Enquanto a identidade de gênero diz respeito ao gênero que a pessoa se identifica, a orientação sexual está relacionada com o que ela sente em relação a outras pessoas, ao que lhe atrai. Existem trans mulheres lésbicas e trans homens gays. E há também pessoas pansexuais, como Nicolas e Luz, que se relacionam simplesmente com pessoas, independentemente do sexo ou identidade de gênero.

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