Bem-Estar

Idosos que vivem em asilos sofrem com a falta de visitas dos familiares

Todos precisam de atenção, principalmente os idosos. Com uma bagagem de histórias para contar, faltam pessoas para ouvir. Adotar um idoso pode ser uma opção para fazer a diferença

Todos precisam de atenção, principalmente os idosos. Com uma bagagem de histórias para contar, faltam pessoas para ouvir. Adotar um idoso pode ser uma opção para fazer a diferença

Texto: Andressa Magalhães e Beatriz Ferreira
Edição: Adrielle Demarchi

No dicionário, asilo é o lugar onde se está em segurança. É um abrigo, um refúgio. Isso é uma das coisas mais notáveis no Asilo Dom Bosco de Itajaí. Seus funcionários são sempre atentos e cuidadosos com todos. Na hora do café, auxiliam aqueles que não conseguem segurar a xícara ou o potinho com a papinha de bolacha. Pensando na comodidade daqueles que conseguem andar e fazer suas atividades sozinhos, durante a semana são feitas atividades físicas com profissionais.

O dia de visita é sempre tão aguardado por cada um, que muitos idosos se arrumam à espera dos filhos, netos e outros parentes. Cada vez que o portão se abre, olhares se enchem de esperança. Muitos preferem aparecer depois do horário do café para não atrapalhar. Dona Maria Teresinha Russi, 84 anos está há dois meses no asilo e conta que todos os funcionários são bem atenciosos, mas que sente falta da sua comida. Com os olhos molhados, nos revela sua paixão por fazer sobremesas. “Nunca faltava sobremesa. Eu gostava de fazer bolo e hoje já tenho certa idade e muitas coisas não consigo fazer sozinha”.

Ela morava com o falecido marido em Itapema. Quando ele adoeceu, os dois mudaram-se para um apartamento em Balneário Camboriú. Após o falecimento do marido, ela morou com cuidadoras, mas sofria muito nas mãos delas, e algumas vezes o dinheiro guardado sumia. Desde então, ela veio morar no asilo e todo domingo seus filhos a visitam. Se orgulha em contar que já ganhou de presente uma neta e, em novembro, chegará seu bisneto.

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Dona Maria Thereza acompanha a missa todos os domingos pela televisão e também a liturgia diária. (Foto: Andressa Magalhães).

Maria Damási, 72 anos, está no asilo há três. É uma das pessoas que mais cativam o lugar, sempre sorrindo e andando. A irmã não a visita mais, mas nem isso tira o sorriso de seu rosto. Gosta de pintar livros e de dormir abraçada com os ursinhos que ganhou de presente de alunos voluntários da Univali. Fica encantada com os cachorrinhos e os coelhos. Ama contar suas aventuras. “Esses dias fomos na festa junina que teve. Dancei até a última música tocar”, conta. Quando inocentemente perguntamos sobre filhos, ela diz que nunca teve. “Nunca me casei. Tinha uns namorados, mas não me casei. Nem filhos tive. Hoje quando saio daqui é com uma amiga minha que me leva para passear”.

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Maria carregando um de seus presentes. Ela adora bonecas e ursinhos. (Foto: Andressa Magalhães).

Já seu Antônio Novaes, que preferiu não falar sua idade, ao olhar para a câmera relembrou algumas de suas muitas viagens. “Ah esse Brasilzão eu conheço é muito. A Amazônia toda, de canto a canto. Até Brasília já conheci”. Lamenta muito não ter uma câmera em suas viagens. “Eu queria muito ter uma dessas naqueles tempos, agora a única coisa que tenho são as lembranças”. Se orgulha em falar sobre sua última morada, São Paulo.

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Seu Antônio acompanha as notícias pelo seu rádio de pilha. (Foto: Andressa Magalhães).

Muitos idosos reclamam que no início sempre tinham visitas de familiares, mas que, com o passar do tempo, as visitas diminuem e logo ninguém mais vai. No dia de nossa visita, tinham poucas famílias por lá. Era Dia dos Pais e ainda assim um número muito pequeno os visitou. O Asilo cumpre com seu dever de cuidar atenciosamente de cada um, mas muitos deles acabam sentindo-se tristes com a falta de presença dos familiares.

Há três anos que Ana Paula faz visitas ao asilo. Começou quando sua vizinha foi para o asilo e ela ia a visitar sempre que possível e, desde então, não conseguiu parar de ir. Um pouco decepcionada, ela comenta que o mais triste é ir em datas comemorativas, pois são os dias mais vazios do asilo. “Eu vim no Natal, não havia praticamente ninguém. É triste vê-los sozinhos em datas assim”.

O amor tudo cura

Alto e robusto, barba aparada e o cabelo arrumado com gel não revelam a idade que Geraldo possui. Diante do pequeno espelho, ele faz a barba sem pressa alguma, gozando do tempo que dispõe. Entre amigos, o senhor está sorridente. Gosta de ouvir boas prosas, porém, fala pouco. É tímido, por mais que sua pele já desenhada pelos anos de trabalho ao sol não permita que vejamos sua pele rosar de vergonha, ao não saber como iniciar um diálogo. E observar este senhor é prazeroso, pois a paz que ele transmite invade qualquer coração.

Ao ultrapassar o desafio das primeiras palavras, sorrisos furtivos vão iluminando suas palavras, que já estão cheias de amorosidade, ao contar prosas de sua família. Orgulhoso, ele se vê satisfeito por ter criado seus 13 filhos, e já vai adiantando que este número era muito normal para a época, considerando que seu Geraldo já está para completar 80 anos. Nesta sociedade julgadora é preciso ver além das aparências, então calei meu desconforto ao perceber que entre tantos filhos nenhum quis acolhê-lo em seus respectivos lares.

Era manhã de domingo quinzenal de agosto. Dia dos Pais. Este senhor ali sozinho, e ainda assim só sabia falar dos filhos e o quanto estes eram especiais para ele. Nenhum filho foi para a faculdade. Ele não possui nenhum doutor ou advogado na família, e também não tinha tais pretensões para eles. O almejado antigamente era que todos fossem criados com saúde e paz, se casassem e constituíssem suas próprias famílias. E todos os filhos tiveram a oportunidade de ir para o colégio, ressalta ele, orgulhoso.

Se fosse possível descrever este senhor em uma palavra, esta seria tranquilidade. E com toda paciência ele me olhou nos olhos e disse: “Já errei muito, acertei também e estou em paz. Sou grato a Deus por cada amanhecer. Depois que perdi minha esposa, eu busquei um novo sentido para vida. Eu esbravejava por pouca coisa, mas isto nunca me levou a lugar algum. Ocioso, ocupei meu tempo com boas leituras e sem me dar conta transformei minha vida. Hoje eu sei que o amor tudo cura. E por isto decidi em plena consciência viver aqui, e pedi aos meus filhos que respeitassem minha escolha e me deixassem partir. Não os vejo faz uns cinco anos, eu os amo muito e sempre irei amá-los, todos estão em minhas orações. Apenas respeitei minhas necessidades e segui minha caminhada”.

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