Arte e Cultura

Diferenças além-mar: as experiências de uma portuguesa em terras catarinas

Em intercâmbio na Univali de Itajaí, a estudante Filipa Costa, de Portugal, compartilha suas percepções sobre o Litoral Norte catarinense

Em intercâmbio na Univali de Itajaí, a estudante Filipa Costa, de Portugal, compartilha suas percepções sobre o Litoral Norte catarinense

Texto: Bruno Golembiewski e Fernanda Vieira
Edição: Daniella Machado

Depois de um semestre de muito estudo, os olhos cansados e o cabelo amarrado são sinais de desgaste. Entre as ruas espremidas pelos prédios, ela indica o caminho. Entra no café, cumprimenta a todos e senta-se à mesa. Pede o expresso e, enquanto aguarda, afirma seu primeiro estranhamento em terras brasileiras. “Estranhei não ter café”.

A estudante Filipa Costa, 26 anos, escolheu o Litoral Norte de Santa Catarina para fazer intercâmbio. Depois de uma pesquisa, percebeu que era uma opção viável por ter um clima mais ameno e pela melhor qualidade de vida da região. Natural de Viana do Castelo, no Litoral Norte português, a portuguesa cursa medicina na Universidade do Porto.

“O melhor café que há em Portugal é brasileiro e eu estranhei o fato de chegar ao Brasil e não haver um café que eu pudesse tomar”.

Depois de muito procurar, ela encontrou opções onde tivessem cafés parecidos com o que estava acostumada a beber em Portugal. Na Avenida Central, em Balneário Camboriú, ela indica o seu preferido. O espaço virou parada frequente no dia a dia de Filipa, que vai lá tomar café, encontrar amigos e principalmente estudar. Já é conhecida por todos os funcionários, que a elogiam pela simpatia e gentiliza.

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O café expresso não pode faltar nas tardes de estudo (Foto: Bruno Golembiewski)

Teve poucos problemas em relação ao português falado em terras tupiniquins. Quando não conhecia alguma palavra ou expressão, logo compreendia pelo contexto das frases. Isso porque em Portugal são consumidos diversos produtos culturais brasileiros.

Filipa diz que não estranhou nem um pouco o português brasileiro, pois em Portugal a estudante tem o costume de assistir novelas brasileiras. Para ela, os dramas televisivos brasileiros são muito melhores do que os portugueses. “Assisto tudo o que é novela brasileira, desde Torre de Babel, O Clone, Caminho das Índias. Tudo passa na SIC [canal aberto português]!”, diz.

O caminho inverso não foi tão fácil nos primeiros dois meses. “Para as pessoas me entenderem foi uma novela, como vocês dizem”, brinca. Tinha de repetir as falas muitas vezes até ser entendida. Ficava impressionada quando não a entendiam. “Apesar das diferenças, falamos a mesma língua”.

O estranhamento de algumas pessoas era tanto que dois senhores catarinenses achavam que ela falava espanhol. “Tanto não entendiam que às vezes diziam ‘Ah, Argentina, não é?’, como assim?”. O primeiro justificou que no Brasil fala-se brasileiro. Já o segundo, mesmo após a explicação, continuou a conversar em espanhol e dizer “Gracias” à estudante.

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Filipa foi aprovada em todas as disciplinas feitas na Univali (Foto: Bruno Golembiewski)

Depois do café expresso, Filipa quis comer um sorvete. Aprovada em todas as disciplinas feitas na Univali, o sorriso não saia do rosto. A satisfação pelo feito, depois de muitas horas de estudo, fez valer a pena todo o esforço. “Aproveitei e conheci menos do Brasil que poderia porque tive de estudar imenso”, explica.

Segundo Angélica Patel, do setor administrativo da CoAI (Coordenadoria de Assuntos Internacionais), a Univali recebe cerca de 15 intercambistas de todos os lugares do mundo por meio da parceira feita com as universidades estrangeiras e envia cerca de 80 alunos, todos os semestres letivos. Atualmente, estão disponíveis seis programas de intercâmbio, dois pelo PIA (Programa de Intercâmbio Acadêmico) e quatro pelo Santander Universidades.

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Reitoria da Universidade do Porto (Foto: Bruno Golembiewski)

O país com mais universidades parceiras é a Espanha, contabilizando 15. Já de Portugal, são seis. A Universidade do Porto, que sempre figura entre as 100 melhores academias do mundo, enviou dois alunos no último semestre, entre eles, Filipa.

Adaptação

De volta à mesa, com o sorvete em mãos, lembrou de detalhes do dia a dia que confundiram sua cabeça, até no próprio estabelecimento. No começo, não sabia como chamar os atendentes, “Olhe, desculpe, por favor”, é a maneira “portuguesa” de chamar um garçom. “Ninguém me via, podia ficar horas a dizer isto”, conta.

Notou a diferença de hábitos em várias outras situações. Não sabia como pedir as coisas. “O que para mim é um diploma, aqui é um certificado, e vice-versa”. Ficava curiosa ao ver as pessoas na rua. Estranhou que o taxímetro pode ser mais caro quando se é estrangeiro no Brasil.

Quando fazia críticas ao Brasil, como sobre o taxímetro desligado nos táxis, as pessoas se ofendiam. Retrucavam falando sobre a vinda dos portugueses ao Brasil para “roubar” ouro. Filipa ficava chateada pela culpa atribuída a ela por algo que seus antepassados fizeram. Ela explica que viajar fez com que percebesse coisas boas e más de Portugal e quando queria trazer críticas construtivas, citando como exemplo o próprio país, algumas pessoas levavam isso para lado maldoso. “Diziam que a culpa era minha e dos portugueses de 1500”, lamenta.

Em Portugal, em todos os mercados existem peixarias. Os peixes frescos ficam expostos sobre o gelo. Filipa ficou indignada por morar tão perto do mar, em Balneário Camboriú, e não poder comprar peixe fresco nos mercados da cidade. O único local seria em Itajaí. “É essencial como o próprio pão”, comenta.

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Conteúdo da última prova feita por Filipa na Univali (Foto: Bruno Golembiewski)

O transporte também é bem diferente. As catracas de ônibus, por exemplo, não existem em Portugal. Para Filipa, são consideradas uma discriminação aos obesos. Nos bancos, ela estranhou as portas com trava eletrônica e o detector de metais. “Praticamente despi-me para entrar”, brinca com o fato de ter de deixar sua bolsa e vários pertences no armário. Mas tudo tem seu lado bom. Uma das novidades foi o serviço de mototáxi. “Incrível, nunca tinha visto nada disso. É uma excelente ideia”.

Outro aspecto considerado curioso pela intercambista foi a relação do Brasil com a cultura estadunidense. Na visão dela, os brasileiros consomem demasiados produtos culturais americanos e não de outros países. Apesar de a terem confundido com argentina, ela percebeu que poucas pessoas falam espanhol, mesmo pelo fato de o Brasil fazer fronteira com várias nações latinas.

Apesar de ter destacado alguns aspectos negativos, Filipa adorou a experiência e pensa em voltar várias vezes ao Brasil. Se encantou com as belezas naturais e como ela está tão próxima dos centros urbanos. Para ela, os brasileiros têm um cuidado especial com a saúde. Ela garante que foi bem recebida e fez muitos amigos, que vai levar para a vida. “Eu amei o Brasil, a verdade é essa”, conclui.

A Univali já recebeu 15 estudantes estrangeiros e está à espera de mais dois intercambistas neste semestre. Após o Intercâmbio de seis meses, Filipa vai ficar um mês em casa e já embarca noutra aventura. Próximo destino: Polônia.

 

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