Bem-Estar

Inchaço, dores e isolamento social: surto da caxumba afeta rotina de trabalho

Dificuldade de mastigação e dores na região da face são apenas parte das dificuldades enfrentadas por quem se depara com a doença, sendo a vacina a única forma de prevenção

Dificuldade de mastigação e dores na região da face são apenas parte das dificuldades enfrentadas por quem se depara com a doença, que só pode ser prevenida com vacina

Texto: Nicolle Machado e Thomas Falconi                                                                          
Edição: Bianca Pereira

Festa junina. Um cachorro quente. Uma mordida, e toda a alegria da data festiva se transforma em dor. O que Carolina Costa pensava ser um torcicolo já a incomodava desde o início do dia. Poucas horas depois, um frio inexplicável. Febre. Carolina ainda não tinha clareza do que poderia ser, mas um inchaço na glândula salivar direita causava o problema. As amigas de Carolina notaram na hora a diferença entre um lado e outro do rosto. O inchaço já estava evidente. Era caxumba!

Uma noite se passou. Ao amanhecer, a jovem de 19 anos se deparou com a sua própria imagem no espelho. O rosto já não era mais o mesmo. Além da estética, o ato de mastigar se tornou quase impossível. Uma dor de cabeça fechava o ciclo de mal estar e iniciava a procura por um médico. Carolina buscou o Hospital Marieta Konder Bornhausen, em Itajaí. Após alguns exames, o diagnóstico de caxumba foi confirmado.

A faculdade de Biologia e o estágio na área tiveram que ficar de lado por dez dias. Em casa, de atestado, Carolina evitava pensar que estava doente. Ela apenas mantinha a saliva a salvo de copos ou evitava que o espirro se espalhasse. Era a garantia de que a doença não seria transmitida para outras pessoas. Ninguém próximo à acadêmica, que estuda na Universidade do Vale do Itajaí (Univali), contraiu a doença antes ou depois dela. Mas, para outra estudante da Univali, Kananda Pereira, a situação foi diferente. O irmão dela havia se recuperado da infecção por caxumba poucos dias antes de ela sentir os primeiros sintomas. Um frio intenso enquanto o aquecedor do carro estava ligado no máximo causou estranheza na acadêmica do sétimo período de Educação Física. Logo após, a febre e a dificuldade de mastigação também se manifestaram.

O estágio em uma academia de Balneário Camboriú e as orientações para o trabalho de conclusão de curso tiveram que ficar de lado. “Corri direto para o postinho e esperei algumas horas até fazer os exames. Só com um exame de sangue veio a comprovação da caxumba”, conta Kananda. O médico que atendeu a estudante, além de entregar o atestado, tirou uma dúvida que pairava na cabeça dela. A jovem de 20 anos sabia que tinha tomado uma dose da vacina que previne a doença. Porém, uma dose de reforço deve ser tomada tempos depois da primeira dosagem.

O surto de caxumba nessa faixa etária pode ser explicado por conta de uma baixa incidência da doença na época em que esses jovens deveriam tomar a vacina, por volta do primeiro ano de vida. É o que afirma o neonatologista Márcio Fossari. “O que acontece é que antigamente precisava de pelo menos duas doses da vacina para ficar imunizado, então o pessoal que só tomou apenas uma pode não estar coberto para a doença, por isso o surto”.

A recuperação de Kananda foi longa. Ela ficou de repouso durante todo o tempo de atestado, ingeriu bastante líquido e conseguiu até se concentrar no trabalho da faculdade. Depois de curada, a volta à rotina não foi tão normal. Os colegas de trabalho e aula ficavam receosos de chegar perto dela. Ela própria tinha medo de transmitir a doença para alguém, apesar de o vírus ser transmissível durante nove dias após a manifestação dos sintomas – tempo menor que o atestado médico.

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Fonte: Secretaria de Saúde

Com o tempo frio no outono e no inverno, a proliferação da caxumba fica cada vez maior, mas ela pode aparecer também durante a primavera. Segundo a Secretaria de Saúde de Itajaí, o surto da doença se concentra principalmente nas escolas. “A caxumba se transmite através de secreção e gotículas da saliva. Por essa razão, ela tem uma facilidade muito grande de transmissão em lugares fechados, como escolas e faculdades. Além disso, um grande número de adultos está susceptível ao vírus da caxumba, por não ter imunidade contra o vírus”, explica o infectologista Eduardo Alexandrino Servolo.

O namorado de Kananda, Maycon Lemos, também sentiu esse receio de repassar o vírus. Isso porque, poucos dias depois dela, ele também sentiu os efeitos da papeira – nome popular da caxumba. Apesar do estouro repentino no ouvido, seguido por dor aguda e pelos outros sintomas clássicos, o também estudante de Educação Física levou a doença com bom humor. Para ele, foi um tempo para descansar. O emprego em uma escola teve que ficar de lado. Maycon se preocupou em ter passado a caxumba para alguns de seus alunos, afinal, o vírus que causa a doença começa a ser transmitido pela saliva cerca de uma semana antes do seu desenvolvimento. Para o alívio dele, isso não aconteceu.

Surto atinge outros estados
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Inchaço da caxumba atingiu o lado esquerdo do rosto de Júlia (Foto: Arquivo pessoal)

Júlia Rocha de Araújo, 16 anos, moradora de cachoeirinha, no Rio Grande do Sul, contraiu a Caxumba há poucos dias. “Acordei e vi uma íngua atrás da orelha. Achei que era da garganta, mas ficou doendo o dia todo. À noite inchou mais e deu febre. Fui ao médico e ele disse que era caxumba e que a doença está em surto no momento”. Por atingir a glândula parótida, que produz saliva e ficar próxima às orelhas, a caxumba dificulta o processo de mastigação. Júlia sentiu isso na pele, por isso optou por ingerir apenas alimentos líquidos. “Estou comendo alimentos que tenham mais caldo e que não preciso mastigar muito, porque se não dói tanto que chego a chorar”.

A mesma situação aconteceu com a estudante de 18 anos Mayara Reis, de São Caetano do Sul – São Paulo. Por não possuir um tratamento específico, a hidratação auxiliou a sua boa recuperação “Nos três primeiros dias, eu evitei comer alimentos duros que exigem muita mastigação”. Na escola de Mayara, o surto estava presente desde o mês de julho, dificultando o aprendizado por questões de falta dos alunos e preocupando toda a instituição. No áudio a seguir, ela conta como lidou com essas dificuldades causadas pela doença.

 

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