Opinião

Oficina ensina confecção de bonecas criadas no período da escravidão

Boneca abayomi significa “encontro precioso” em Iorubá e representa uma parte da história da escravidão brasileira

Boneca abayomi significa “encontro precioso” em Iorubá e representa uma parte da história da escravidão brasileira

Texto: Adrielle Demarchi

“Estou dando o meu melhor para você”. Essa pequena frase possuía um enorme significado para os escravos brasileiros, e hoje para todos os que procuram conhecer mais sobre a cultura africana. Procurando resgatar a história e a cultura esquecida de nosso país, a artista, delegada Nacional da Promoção da Igualdade Racial, militante do movimento negro nacional e do movimento Quilombo Raça e Classe, Noeli Souza, ministrou no dia 6 de agosto uma oficina de construção de bonecas abayomi. Com entrada gratuita, a oficina de duas horas aconteceu na biblioteca do Sesc, em Rio do Sul. Com 12 participantes, foi muito mais do que uma simples construção de bonecas, mas um resgate da história brasileira, que iniciou somente em 1980 por Waldilena Martins.

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A oficina teve duas horas de duração e continuou no sábado (13). (Foto: Sidineia Kopp)

As viagens nos navios tumbeiros da África para o Brasil eram muito longas e cansativas, principalmente para as crianças, que se entediavam rapidamente. As mães, então, criaram uma solução: arrancavam partes do tecido de suas saias para fazer uma boneca para seus filhos. Quanto menor, melhor. Sem costuras, pinturas ou adereços, a simples boneca significava um pedaço da origem africana para cada um. Ao desembarcar no Brasil, mães e filhos eram separados e só restava a boneca como lembrança.

Feita com nós ou tranças, as bonecas serviam como símbolo de resistência e esperança para os escravos. Resistência porque, naquela época, escravos eram proibidos de possuírem objetos. Se houvesse suspeitas, os senhores cortavam seus dedos e, por vezes, a mão toda. Por isso, quanto menor uma boneca abayomi, mais valiosa. Elas precisavam caber na palma da mão ou serem facilmente escondidas nos cabelos. Com a lei dos sexagenários, os escravos “livres” ficavam sem casa e sem utilidade para trabalhar por estarem mutilados. Os filhos aproveitam esse momento para procurar suas mães com as bonecas. Elas nunca esqueciam as bonecas que faziam, servindo como uma relíquia de família.

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A boneca precisava ser pequena para caber na palma da mão. (Foto: Adrielle Demarchi)

Com alguns retalhos de malha, as bonecas são feitas em alguns minutos. Podem usar vestido, saia ou calça, se for homem. As mulheres levam turbante e homens ekete (acessório comum em pai de santo). Quanto mais imperfeita, melhor. A cultura africana possui a crença de que “imperfeitos somos nós, perfeito só Deus”, por isso, o ideal é que um braço ou perna fique maior que o outro. Essas crenças são o que fazem a boneca tão valiosa. Não é uma questão de entreter, mas uma questão de cultura passada de geração em geração e mostra o amor e dedicação das mães, que faziam as bonecas na força, puxando, rasgando e dando nós. Por isso, hoje, quando você presenteia alguém com uma boneca abayomi quer dizer que está dando o seu melhor para aquela pessoa.

As duas horas de oficina foram curtas para a quantidade de histórias por trás da origem das bonecas. Durante a confecção, Noeli contou inúmeras histórias e falou do preconceito que os negros ainda sofrem hoje. O melhor foi poder fazer belas bonecas e transmitir essa cultura para diferentes gerações. Crianças, adolescentes e adultos participaram da oficina, o que mostra o interesse de diversas faixas etárias pela cultura, não só africana, mas também brasileira.

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Os participantes estavam muito interessados na história das bonecas. (Foto: Sidineia Kopp)

São poucas as oficinas que contam o real significado por trás das bonecas abayomi, e as que contam, geralmente, deixam uma parte da história de lado. Na oficina oferecida gratuitamente pelo Sesc, a história foi contada de forma completa e ajudou aos participantes a darem um valor maior para o que estavam fazendo.

Ainda existe muito racismo no Brasil. Se as pessoas tirassem um tempo para participar de oficinas, cursos e eventos como esse, veriam que os negros foram um dos povos mais prejudicados na história do Brasil. Hoje carregam o peso dos anos de escravidão.

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Material de divulgação da oficina no Sesc Rio do Sul
Sesc Rio do Sul

Rua Eng. Odebrecht, 500 – Budag
Telefone: (47) 3521-2798

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