Comportamento

Idosos utilizam a internet como recurso para não envelhecerem intelectualmente

Cada vez mais a terceira idade tem se preocupado em não deixar a mente envelhecer. Para isso, utilizam as ferramentas oferecidas pela tecnologia, principalmente na Internet

Texto: Ana Carolina Nasato e Natália Rocha
Edição: Pedro Henrique Homrich

Seu Waldemir nos espera na porta.

– Vocês pegaram o elevador errado? – Pergunta.

– Sim! – Respondemos aos risos.

– Ficamos confusas com o fato de ter um elevador para apartamentos pares e outro para apartamentos ímpares.

-Normal… Vamos entrando, a Theresinha tá lá na varanda.

Dona Theresinha e seu Waldemir Burlamaqui, ambos de 83 anos, moram em Balneário Camboriú há um bom tempo. Ele, do Rio de Janeiro, ela, do Rio Grande do Sul, se conheceram quando, aos vinte e poucos anos, dona Theresinha mudou-se para o Rio e começou a trabalhar em uma empresa que, depois, juntou-se com a que o seu Waldemir trabalhava.

Datilógrafa por profissão, dona Theresinha sempre se encantou com as possibilidades que a tecnologia proporcionava. Na empresa em que trabalhava, havia um andar inteiro separado para a informática, lugar este, ela lembra, que sempre foi um mistério: o ar tinha de ser refrigerado, havia hora certa para entrar, não podia mexer nas coisas.

– Eu pensava: o que será que é um computador? Será que um dia eu vou conhecer um?

Ela não só conheceu o computador, mas se tornou adepta dele e de tudo o que a internet pode proporcionar.

Uma pesquisa da Infobase Interativa (2014) aponta que 66% dos idosos usam a internet com regularidade. Neste ano, o Instituto Locomotiva divulgou que a adesão de idosos à internet aumentou em 1000% nos últimos oito anos. No caso de dona Theresinha, a história teve início há mais tempo: cerca de 13 anos.

13956819_1160489410710570_1952557630_n

Tudo começou quando ela precisou digitar os textos que escrevia para o jornal da filha a fim de adiantar os trabalhos na hora da diagramação das edições. Pela necessidade da ocasião, ela fez um curso básico de informática. Logo que aprendeu a mexer no programa de edição de textos, se deu por satisfeita e saiu do curso. Na época, ela achou muito difícil lidar com a máquina.

– Era um tal de seta que corria pra cá, corria pra lá. Naquele tempo você tinha que dizer que queria desligar, aí depois de um tempo ele dizia ‘pode desligar o computador’.

13932149_1160488084044036_84186597_o

O diretor da escola de cursos NovaMicroway, Sandro Marques, conta que os idosos que procuram aulas de informática geralmente não querem seguir a metodologia de ensino e preferem horários individuais. E que, no início, eles têm dificuldade em memorizar o que foi ensinado na aula anterior por não praticar em casa.

O computador, na verdade, foi apenas um incentivo para o estilo de vida que dona Theresinha e seu Waldemir sempre levaram e passaram para os filhos. O casal se recusa a envelhecer, pelo menos intelectualmente. O senso crítico, o anseio por informações e a leitura fazem parte do dia a dia e da personalidade deles. Nem mesmo o braço direito quebrado de dona Theresinha, devido a um acidente recente, a impediu de expressar suas opiniões. Destra, ela aprendeu a usar a mão esquerda para digitar. Após assistir a abertura das Olimpíadas Rio 2016, correu para o computador para publicar um texto sobre o assunto no Facebook e faz questão de deixar o post em modo público para quem quiser conhecer sua visão.

13956895_1160490677377110_36592795_n

Postagem da Dona Theresinha sobre a abertura das Olimpíadas

Quando se trata de smartphones, eles são menos apegados. Seu Waldemir, por exemplo, às vezes nem sabe onde está o seu aparelho. Dona Theresinha usa o celular apenas para conversar pelo WhatsApp e pelo FaceTime.

A Universidade do Vale do Itajaí oferece o curso superior de extensão Univida, voltado para idosos que queiram ter um envelhecimento saudável, sempre exercitando a mente e com vontade de exercer um trabalho de voluntariado. A jornalista e professora da disciplina Atualidades na Imprensa, Laura Seligman, é responsável por falar sobre temas atuais que saem na imprensa para dar suporte e contexto para as discussões. Ela conta que o curso é composto por mulheres, em sua maioria, que buscam formar grupos de afinidade. A professora, que tem linha de pesquisa em tecnologias online, discorda da divisão de gerações, como a Baby Boomer (nascidos entre 1946 e 1960), X (nascidos entre 1960 e 1980), Y (nascidos entre 1980 e 1995) e Z (nascidos depois de 1995). “Tem muitas pessoas consideradas da geração Boomer que se sentem muito melhor hoje em dia, na Geração Z, como é o caso da dona Theresinha e do seu Waldemir.”

Para o casal, a modernidade, em todos os aspectos, é um espetáculo. Eles celebram o fato de que, nos dias de hoje, as mulheres não têm o casamento como uma obrigação, como era antigamente; usam o FaceTime para falar com a neta, que mora nos Estados Unidos, e acompanhar o crescimento do bisneto; lembram com alívio que hoje não é necessário mais esperar um dia todo para fazer uma ligação telefônica. Dona Theresinha chega a confessar que queria ter nascido agora. O saudosismo passa longe deles.

14002415_1160489174043927_1093735897_o

um comentário

  1. Esses dois sao meus tios e me espelho neles. Tento seguir os seus passos o mais que posso. Tambem moro no exterior e mantemos contatos por facebook, whatsapp, facetime. Vez por outras, quando vou ao Brasil vou visita-los para dividirmos uma cerveja ou um bom vinho. Papo maravilhoso e enriquecedor.
    Tenho muita sorte e orgulho de te-los como tios.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s