Esportes

Das pranchas para os Jogos Olímpicos de 2020

Manobras e tombos são inevitáveis no skate e no surf, modalidades radicais que estarão presentes nas próximas Olimpíadas.

Manobras e tombos são inevitáveis no skate e no surf, modalidades radicais que estarão presentes nas próximas Olimpíadas.

Texto: Kauana Amine, Miriany Pimentel
Edição: Evandro Ritzel

Dois dias antes da festa abertura das Olimpíadas Rio 2016, o Comitê Olímpico Internacional (COI), anunciou os cinco novos esportes inseridos na programação dos Jogos Olímpicos do Japão. Surfe, skate, beisebol, escalada e caratê são modalidades esportivas que poderemos ver nas Olimpíadas de Tóquio 2020. O COI justificou a decisão de incluir as novas modalidades usando dois critérios: as práticas esportivas populares no país sede (caratê e beisebol/softbol) e as que irão atrair a atenção dos jovens (surfe e skate).

No Brasil, das cinco modalidades incluídas nos próximos Jogos, o surfe e o skate se destacam, com grandes nomes dos esportes radicais.  No esporte aquático, o país tem dois campeões mundiais, Gabriel Medina (2014) e Adriano de Souza, o Mineirinho, em 2015. Já no skate, na categoria Street, a referência é Luan Oliveira, vencedor de duas etapas da Street League e duas pratas e um bronze nos X Games. Na disputa do vertical os principais atletas da modalidade são Rony Gomes, Bob Burnquist e Edgard Vovô.

A prática dos esportes tidos como radicais ou de aventura estão em ascensão no país do futebol. De acordo com uma pesquisa realizada em 2015 pelo Instituto Datafolha, a pedido da Confederação Brasileira de Skate (CBSK), há no Brasil 8,5 milhões de skatistas. O esporte ainda é dominado pelos homens, com 81% dos praticantes. Segundo a pesquisa a região que mais tem adeptos é o Sudeste, com 14%, seguido da região Sul, com 12%.

Esporte ou estilo de vida?

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Fonte: Banco de Imagens.

No Brasil, desde a sua popularização o surfe e skate foram por muitas vezes vinculados a movimentos de contracultura, como punks e grafiteiros. Também são vistos por muitas pessoas como esportes de vândalos ou drogados. A discriminação ainda é sentida pelos esportistas, acostumados desde sempre às adversidades – seja superar obstáculos nos centros urbanos ou encarar ondas gigantes. Os grupos, com manobras radicais e movimentos ousados, se espalham pelas cidades. Nem a marginalização e os tombos, consequências das atividades arriscadas, impedem o crescimento da prática de surfe e do skate.

Entre os apreciadores de aventura há dilemas: a prática seria um esporte ou estilo de vida? A maneira de falar, as gírias e influências da cultura punk, a forma de vestir e as características comuns entre surfistas e skatistas demostram a escolha alternativa de viver o esporte num estilo próprio.

Em busca da onda perfeita

A prática de deslizar sobre as ondas, o contato com a água, o equilíbrio sobre a prancha e a parceria entre amigos faz do surfe um esporte para pessoas em busca de aventura e altas doses de adrenalina.

O itajaiense Ricardo Tavares (35), começou a surfar aos 14 anos, influenciado por amigos. Na família, o mais próximo do mar que Ricardo teve referência foram os tios, que trabalhavam como pescadores. O surfista conta que, quando adolescente, pedalava aproximadamente 15 km do bairro em que morava até chegar à praia. “Saía do Costa Cavalcanti de bicicleta quase todos os dias para pegar onda”, recorda.

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Ricardo Tavares surfando na praia da Atalaia. (Foto: Arquivo pessoal)

Em busca da onda perfeita, Ricardo viajou por vários países, entre eles Chile, Uruguai, República Dominicana e Indonésia. Neste último destino já esteve por três temporadas, e em outubro estará pela quarta vez. O atleta participou de inúmeras competições na costa catarinense e em outras cidades litorâneas pelo país. O surfista é o atual líder da Associação de Surf de Brusque (ASB), com 1531 pontos, e campeão na categoria local no Circuito Itajaí Open Surf 2016.

Para Ricardo o surfe é mais que esporte, é um estilo de vida. Apesar de participar esporadicamente de competições, ele viaja com frequência, conhece lugares novos e culturas diferentes.  Na visão de Ricardo, a inclusão do surf como modalidade olímpica é um avanço e vem para valorizar a prática esportiva. Confira o Áudio:

 Vídeo: Shock Produções

Culturas independentes

A prática do skate consiste em deslizar sobre o solo superando obstáculos, equilibrando-se numa prancha com rodas. Pistas apropriadas, corrimões, bancos ou qualquer objeto elevado servem para as manobras. Os saltos demostram o quanto os skatistas conseguem voar para além da liberdade.

Jean Duarte, além de surfar na água, “surfa” nas ruas. O skate entrou em sua vida no final da década de 90, aos nove de idade. O skatista lembra que, quando adolescente, trabalhou para montar seu primeiro skate. “Trabalhei no restaurante do meu tio por um mês para comprar peças usadas e montar o skate”. Aos treze anos, Jean realiza manobras na recém-construída pista da Beira-Rio. Participou de eventos amadores de 1999 a 2004, e em 2007 se tornou skatista profissional.

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Jean realizando um “ollie” em frente ao Porto de Itajaí. (Foto: Caetano Oliveira)

Para Jean a inclusão do skate como modalidades nas Olímpiadas tem o lado positivo e o negativo. Os benefícios poderão vir com a visibilidade da prática esportiva, se houver incentivo e a benfeitoria resultar em melhores condições para a realização das atividades e maior suporte aos skatistas, com novos espaços para a prática. Por outro lado, o praticante contesta o skate como esporte. “Não que seja melhor ou pior que as outras modalidades, mas é que o espírito de skate não está em vestir uniforme e levantar uma bandeira”, argumenta.

Jean vê o skate com autonomia, um estilo de vida com direitos adquiridos. Um universo que criou a própria moda, com marcas de roupas, peças, lojas personalizadas.  “O skate vem de uma cultura independente e que até outro dia era subversiva. Ele sobreviveu, cresceu e se formou dentro dessa independência”, completa.

Para manter a cultura skate enraizada, em 2003 Jean ingressou no mundo de negócios, com a Sangbon Skate Shop, uma empresa referência em moda e artigos e especializada em eventos do segmento na região. O skatista-empreendedor transpira skate: “é uma extensão do meu corpo, mesmo sem estar de skate penso em skate, tenho o privilégio e o orgulho de trabalhar com algo que me encanta”.

Seja como esporte olímpico ou estilo de vida, para surfistas ou skatistas, amadores ou profissionais, o importante é a prática da modalidade. As consequências serão amizades para conquistar e lugares para explorar.

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